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Escavar quase ao lado do Estado Islâmico

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D.R.

Uma equipa de arqueólogos portugueses escava numa colina na província de Sulaymanyiah, no Curdistão iraquiano. Kirkuk, onde há várias semanas foi desmantelada uma célula do autoproclamado Estado Islâmico que planeava ataques contra cidadãos, fica a menos de 100 quilómetros.  

Helena Bento

Jornalista

Enquanto conversamos, os jiadistas do autoproclamado Estado Islâmico avançam sobre Ramadi, capital da província iraquiana de Anbar, no centro do país, a pouco mais de uma centena de quilómetros a oeste de Bagdad. Invadiram e saquearam lojas e foram bater a todas as capelinhas (casas, queremos dizer) para identificar e capturar e sabe-se lá mais o quê todos aqueles que defendem credos que não o seu: membros de tribos pró-governamentais e da polícia e forças armadas. 

Imagens captadas no dia dos ataques, e no seguinte, mostram uma cidade abandonada, despojada, às moscas, como se fora consumida pela peste. As nuvens de fumo crescem no ar. Assim como as bandeiras negras. Ramadi, por ora, é deles.

Mas Ramadi fica muito longe, fica a cerca de 400 quilómetros e isso é muito. Mais perto está a cidade petrolífera de Kirkuk, no Curdistão iraquiano. Também há dois dias, 20 de maio, foi ali desmantelada uma célula do grupo radical que planeava ataques contra cidadãos. Fica a “70, 80 quilómetros”. Mas eles não têm medo. “A situação é segura e não nos temos apercebido de qualquer problema de segurança”, diz André Tomé, 28 anos, um dos líderes da equipa de arqueólogos (cinco portugueses, um belga, uma italiana, que é antropóloga, e dois curdos) que se encontram a escavar numa colina, Kani Shaie, situada no vale de Bazian, na província curda de Sulaymanyiah.

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Missão deste ano é a "mais arriscada"
Apesar disso, reconhece que a missão deste ano (já ali esteve em anos anteriores, bem como na Síria, mas já lá vamos), que teve que início a 1 de maio, é a “mais arriscada”. E por ser a mais arriscada é preciso ter alguns cuidados, coisa pouca, nada de extraordinário, mas há que jogar pelo seguro. “Não vamos ser ingénuos, obviamente”. 

É preciso evitar lugares “sensíveis” (Kirkuk é sensível), tentar não dar muito nas vistas, manter olhos de lince, e ter paciência, muita, em doses de cavalo, para tratar dos assuntos burocráticos junto das forças de segurança (que sabem sempre onde estão e a que horas e a fazer o quê). Já a imprensa local não está informada, que é outro dos cuidados. Têm também um guarda à porta de casa, contratado pelos Serviços de Antiguidades de Sulaymanyiah.

“Ali é onde Noé deixou a Arca, segundo a tradição local”, diz André, com o dedo apontado ao peito da montanha de Piramagrun. É a única referência que temos. A paisagem que vemos no ecrã (a conversa foi mantida pelo Skype) não deixa mossa: um aglomerado irregular de prédios, mas equilibrado, da cor da terra batida. 

Em 2011 a guerra impediu-os de voltar à Síria
André e Ricardo Cabral, 31 anos, outro dos líderes da equipa, começaram a escavar na Síria em 2008, na antiga cidade de Nabada, atual Tell Beydar, na fronteira com o Iraque e a Turquia. O projeto, que consistia numa parceria de várias equipas internacionais, era coordenado por Conceição Lopes, professora na Universidade de Coimbra, instituição a que ambos estão ligados desde que fizeram ali a licenciatura, já lá vão alguns anos, quase uma mão cheia. Na altura, procuravam vestígios do período helenístico, do terceiro milénio antes da era comum, quando começaram a aparecer as primeiras cidades e a escrita.  

Estiveram na Síria nos dois anos seguintes. Em 2011, com o despoletar da guerra civil meses antes da data prevista para a missão, não puderam voltar. Era demasiado perigoso, e a ideia nunca foi haver heróis. Todas as equipas cancelaram, à exceção de uma, que conseguiu começar a trabalhar mais cedo. Decidiram por isso começar a escavar no Iraque. 

A escolha do sítio arqueológico fê-la André, em 2012, que se deslocou ao país com o tal belga que os acompanha na missão deste ano, Steve Renette, 33 anos, também diretor do projeto. Visitaram vários sítios que fossem facilmente identificáveis e ao fim de semana e meia, por aí, acharam finalmente o sítio perfeito, a referida colina, no Vale de Bazian. 

Perfeito porque apresentava “cronologias interessantes” que estavam interessados em estudar. Pela localização geográfica, também ela “interessante e sugestiva”. E porque se encontrava praticamente inexplorado, por causa do contexto político, explica André. Pediram autorização às autoridades iraquianas e em 2013 começaram a escavar. 

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A primeira descoberta: uma tabuinha de argila
Foi também nesse ano que fizeram a descoberta que haveria não só de os motivar a continuar a trabalhar, como chamar a atenção da comunidade científica (e não só): uma tabuinha de argila, com cinco mil anos, que assinala o início da economia e as trocas comerciais entre o norte e o sul da Mesopotâmia. Seria no fundo um recibo. E ninguém esperava que a encontrassem ali, naquele sítio, tão pequeno, com um hectare e pouco, quando na realidade são muito mais comuns noutras regiões, noutras cidades, maiores, mais a sul. “É quase como esperarmos que as grandes burocracias que só se podem fazer em Lisboa, se pudessem também fazer numa cidade pequena do interior de Portugal”, diz André. 

A tabuinha tem um desenho impresso na argila, que seria uma espécie de assinatura - em si uma “obra de arte” - e uma marca numérica que indicava a quantidade de “coisas” que estariam a ser registadas e transacionadas. Muito provavelmente, acrescenta André, acompanharia mercadorias que, ou chegariam àquele sítio, ou sairiam dali em direção a outro local. Está guardada no museu de Sulaymanyiah, atualmente o segundo mais importante do Iraque. 

Preservar o património através da aplicação de tecnologia 3D
No ano passado, 2014, com os avanços dos jiadistas do autoproclamado Estado Islâmico junto a Erbil, capital curda, decidiram cancelar a missão. Ninguém recomendou, ninguém impôs. A decisão foi deles. Porque, como já se disse aqui, a ideia nunca foi haver heróis. Ou ser “demasiado audaz”. Não se sentiam seguros. Talvez até conseguissem chegar, permanecer durante alguns dias, trabalhar. Mas não tinham a certeza de que conseguiriam regressar. O dinheiro que tinham para a missão do ano passado, disponibilizado por instituições americanas, utilizaram-no na deste ano.

O projeto termina dia 15 de junho. Têm escavado todos os dias (exceto às sextas-feiras) e quase todos sob sol tórrido. Mas tem valido a pena. Até agora descobriram vestígios do quinto milénio antes da era comum, duas impressões com um selo, que também serviriam como registo de mercadorias (embora com algumas diferenças em relação à tabuinha de argila), que comprovam que o sítio era “muito importante” e “complexo” nesse período, tanto a nível económico, como religioso. É provável que ali tenha existido um edifício administrativo que até poderia ser um templo. Mas é cedo para afirmar isso. Talvez venham a ter a certeza no fim da missão, talvez não.

Uma das vertentes do projeto consiste em preservar o património escavado através da aplicação de tecnologia 3D para fazer a conservação digital do sítio arqueológico. E também dos seus artefactos. A região onde se encontram, “palco de guerras intermináveis” ao longo do último século, pode ser longe, segura, sossegada. Pode não ter os dias contados, como se julga ter a cidade síria de Palmira (ou as centenas de sítios que todos os dias são pilhados na Síria e no Iraque, como refere André), mas é “urgente” preservar. “Não sabemos qual é o futuro da região”. 

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