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Chicotadas a Raif podem recomeçar esta sexta. “Não sei o que fazer”, diz a mulher ao Expresso

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Manifestação de apelo à libertação do blogger saudita, em Otava, capital do Canadá

Chris Wattie / Reuters

Ensaf Haidar, esposa do blogger saudita condenado a 1000 vergastadas em público, não acredita em milagres. “Estou certa de que as chicotadas vão recomeçar esta sexta-feira”

Margarida Mota

Jornalista

É talvez o saudita mais famoso em todo o mundo - para grande irritação das autoridades do seu país. Raif Badawi foi condenado a 10 anos de prisão e 1000 chicotadas por promover discussões de caráter político e religioso no seu blogue Rede Liberal Saudita (já não está online) - uma sentença confirmada no fim de semana pelo Supremo Tribunal da Arábia Saudita. "Não é possível interpor mais recursos", diz ao Expresso Ensaf Haidar, de 35 anos, esposa de Raif. "Estou certa de que as chicotadas vão recomeçar esta sexta-feira." 

Das 1000 vergastadas a que foi condenado, em novembro do ano passado, Raif, de 31 anos, sofreu até ao momento o primeiro conjunto de 50, desferidas a 9 de janeiro, numa praça em frente a uma mesquita de Jidá, a sua cidade natal. Um vídeo feito pela calada durante a aplicação do castigo tornou-se viral nas redes sociais e desencadeou uma vaga de indignação internacional. 

O caso sensibilizou a opinião pública internacional, mas poucos governos levaram-no a altas instâncias. "Ainda só quatro ministros dos Negócios Estrangeiros falaram do caso de Raif em público", lamenta-se Ensaf. "Os da Áustria, Noruega, Suécia e (da província canadiada) do Quebec", onde ela vive com o estatuto de refugiada, juntamente com os três filhos do casal, todos menores. 

Margot Wallström, a chefe da diplomacia sueca, qualificou a punição a Raif como "medieval". "O ministro dos Negócios Estrangeiros da Áustria telefonou-me e disse-me que falaria sobre o caso de Raif em Genebra, no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Eu nunca tinha falado com ele", diz Ensaf, que gostaria de ver mais diplomacias empenhadas em resgatar o marido do sofrimento a que foi condenado por apenas expressar a sua opinião. 

 Ensaf Haidar, esposa de Raif Badawi, vive no Canadá, com o estatuto de refugiada, com os três filhos do casal, todos menores

Ensaf Haidar, esposa de Raif Badawi, vive no Canadá, com o estatuto de refugiada, com os três filhos do casal, todos menores

© Chris Wattie / Reuters

Na terça-feira, Roland Ries, presidente da Câmara de Estrasburgo, anunciou a atribuição da medalha da cidade a Raif Badawi. Na véspera, o porta-voz dos serviços de Ação Externa da União Europeia emitiu um comunicado afirmando que "os castigos corporais são inaceitáveis e contrários à dignidade humana" e reiterando apelos para que "as autoridades sauditas suspendam mais punições corporais" a Raif Badawi.  

No mesmo sentido, também o Departamento de Estado norte-americano apelou ao "cancelamento do castigo e à revisão do caso e da sentença". "Opomo-nos firmemente a leis, incluindo as leis de apostasia, restritivas do exercício da liberdade de expressão", afirmou o porta-voz Jeff Rathke. 

Entre as provas recolhidas pela justiça saudita que incriminam o blogger está um "like" que fez numa página do Facebook sobre árabes cristãos. 

Desde que as vergastadas foram suspensas que, a cada sexta-feira, Ensaf habituou-se a expressar o seu alívio pela não punição do marido através de uma curta mensagem na sua página no Facebook: "Raif não foi açoitado hoje".  

Esta sexta-feira, a acontecer, as vergastadas acontecerão após a oração do meio-dia (mais duas horas que em Lisboa). Ensaf está mentalizada para colocar um post diferente, ou simplesmente remeter-se ao silêncio. "Não sei o que hei-de fazer...", admite, ciente que, nesta altura, esgotados os recursos na justiça, apenas um perdão do rei Salman, no trono desde 23 de janeiro passado, pode fazer reverter a situação.  

Da mesma forma que os protestos internacionais terão contribuído para a suspensão da aplicação da sentença durante cinco meses, Ensaf acredita que continuar a falar do assunto pode ajudar. "Por favor, não parem de falar, falem em todo o lado", apela. "E organizem vigílias em frente à embaixada da Arábia Saudita."

Vigília pela libertação de Raif Badawi, promovida pela Amnistia Internacional Portugal, a 11 de fevereiro, em frente à embaixada da Arábia Saudita, em Lisboa

Vigília pela libertação de Raif Badawi, promovida pela Amnistia Internacional Portugal, a 11 de fevereiro, em frente à embaixada da Arábia Saudita, em Lisboa

Ricardo Rodrigues da Silva