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Perseguição, tortura e medo. Os relatos na primeira pessoa de vítimas do Estado Islâmico

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Milhares de habitantes abandonaram a cidade de Mossul

FOTO Spencer Platt/Getty

No dia 10 de junho de 2014, a cidade iraquiana de Mossul foi capturada pelos jiadistas. Um ano depois, a BBC divulga vídeos que mostram o quotidiano de terror daqueles que vivem na região 

Há 12 meses com o controlo de Mossul, no norte do Iraque, pelos combatentes do autodenominado Estado Islâmico (Daesh), as chamadas 'Leis do Califado' passaram a dominar a região. Uma doutrina radical com regras abrangentes, onde impera o autoritarismo e a violência. Quem desrespeitar qualquer norma arrisca-se no mínimo a ser flagelado - o que corresponde, por exemplo, a fumar um cigarro em público. O roubo é punido com a amputação de uma mão, enquanto as mulheres são apedrejadas até à morte se forem acusadas de adultério.  

As minorias religiosas são perseguidas e milhares vivem no limiar da pobreza, numa altura em que a economia da região afunda com o sector da construção parado e a quebra na produção de petróleo. Com milhares de famílias deslocadas são várias as escolas encerradas em Mossul. E até os livros das bibliotecas privadas são alvo de repressão.  

Estas são algumas das realidades testemunhadas por habitantes da cidade iraquiana, segundo vídeos divulgados esta terça-feira pela BBC.  "Conheço várias pessoas que foram presas pelos combatentes do Daesh. Algumas são da minha família. Umas foram mortas porque estavam nos serviços de segurança, enquanto outras já foram libertadas. Contaram-me histórias inimagináveis de atrocidades cometidas pelos terroristas nas prisões. Muitos preferem não falar e ficar em silêncio, porque vivem com terror de poderem voltar a ser presos", relatou à estação britânica Fouad, nome fictício, acrescentando que várias mesquitas também foram incendidas. 


"A minha alma continuou presa à minha casa e aos meus livros"

Mariam é uma médica cristã. Depois de muita hesitação acabou por sair de Mossul para Erbil, no curdistão iraquiano, face ao receio de ser perseguida. "Nunca diferenciei as minhas pacientes em função da religião, mas os jiadistas não fazem o mesmo. Tive que abandonar Mossul. Consegui sair com o corpo ileso, mas a minha alma continuou presa à minha casa e aos meus livros", afirmou Mariam.

Pouco depois de se mudar para Erbil, a ginecologista disse ter recebido uma notícia que a deixou em choque: Os militantes do Daesh tinham assaltado a sua casa e assinalado a letra 'N', que serve para indicar que os habitantes eram cristãos. "Telefonei para os meus amigos em Mossul e pedi para salvarem os meus livros. Mas já era tarde demais", lamentou.

De um modo geral, as regras no feminino também endureceram, nomeadamente ao nível do vestuário. Os jiadistas querem ver todas as mulheres  cobertas de preto da cabeça aos pés. "Um dia fomos a um restaurante agradável ao pé do rio que costumávamos frequentar durante o nosso noivado. O  meu marido disse que eu podia mostrar o meu rosto, uma vez que era um espaço habitualmente frequentado por famílias. Eu estava muito feliz por poder mostrar a minha cara com um grande sorriso, mas de repente o dono do restaurante veio ter com o meu marido para me pedir que voltasse a escondê-lo, uma vez que os combatentes do Daesh  costumavam ali fazer visitas surpresas", conta ainda Hanaa.  

"O Daesh é o inimigo da Humanidade"

Segundo Hisham, o dia a dia dos habitantes de Mossul mudou de uma "forma indescritível", sublinhando a pobreza que a maioria dos locais enfrentam. "Já não há empregos. Os ricos é que continuam a viver das suas poupanças, enquanto os pobres vivem à mercê de Deus".

Zaid, outro habitante local, garante que os jiadistas estão preparados para uma ofensiva do exército iraquiano com o apoio da coligação internacional, guardando em armazéns artilharia pesada. "Eles destruíram a cidade, cavaram túneis, construíram barricadas, colocaram bombas e espalharam combatentes pela cidade, o que tornará muito difícil para o exército inverter a situação", sustentou.

Considerando que "o Daesh é o inimigo da Humanidade", Zaid disse esperar que os deslocados internos e os refugiados possam voltar em breve para que, em conjunto, todos possam contribuir para um "Iraque seguro e unido". Mas para isso, defende o jovem iraquiano,  o Governo deve armar a população local para ajudar a recuperar a cidade. "Com a ajuda de Deus vamos derrotá-los."