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Livro denuncia mapa da teia da corrupção angolana

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O vice-presidente, Manuel Vicente (ao centro), dirigiu a Sonangol, a petrolífera angolana que introduziu "os seus tentáculos em todos os cantos da economia nacional"

Getty

O modo como o petróleo angolano passou de fonte de financiamento da guerra para de enriquecimento de uma nova elite corrupta é descrito pelo jornalista do "Financial Times", Tom Burgis, num capítulo do seu livro sobre a pilhagem dos recursos africanos.

Através da petrolífera estatal angolana Sonangol e de algumas empresas obscuras que foram associadas aos grandes contratos internacionais para a exploração dos valiosos recursos petrolíferos do país, uma nova elite angolana do circulo do Presidente José Eduardo dos Santos tem enriquecido, num processo que conta com a conivência de grandes grupos internacionais, segundo é descrito em “A Pilhagem de África”, pelo jornalista do “Financial Times” Tom Burgis.

O livro, do jornalista que foi correspondente em África durante vários anos, expõe o paradoxo dos países que se encontram entre os países mais ricos do mundo em recursos naturais serem também dos mais pobres, mais violentos e mais mal governado. Contando com um capitulo dedicado a Angola, divulgado pelo “Observador”.

O texto descreve a evolução da exploração petrolífera no país, desde a descoberta das espantosas reservas em Cabinda em 1966, pela petrolífera americana Gulf Oil, passando pela situação durante a guerra civil após a independência e pelo momento em que o poder deixou cair a ideologia marxista e converteu-se ao “capitalismo de compadrio”.

De financiamento da guerra, o petróleo passou a ser a fonte de enriquecimento da nova elite, numa situação de absoluta promiscuidade entre os interesses públicos e privados: “Fundindo o poder político e económico como muitas elites pós-coloniais, os generais, os manda-chuvas do MPLA e a família de José Eduardo dos Santos, o líder do partido formado na União Soviética que assumiu a presidência em 1979, apossaram-se das riquezas de Angola”.

"O sr. Petróleo de Angola"
Manuel Vicente, o “sr. Petróleo de Angola”, é o homem que surge por detrás da espantosa expansão da exploração petrolífera levada a cabo pela Sonangol e que ascendeu dentro da espera próxima de Eduardo dos Santos, vindo a ser nomeado seu vice-presidente.

A empresa viria a atribuir “a si própria participações em explorações em petrolíferas de empresas estrangeiras e usou as receitas para introduzir os seus tentáculos em todos os cantos da economia nacional: imobiliário, cuidados de saúde, banca, aviação”.

Os acordos estabelecidos com a Cobalt, a empresa petrolífera do Texas que em 2012 anunciou ter descoberto um enorme reservatório de petróleo no mar angolano, é apresentado como um exemplo de como a situação conta com a conivência de grupos internacionais.

Para a cedência dos direitos de exploração, Angola impôs que aceitasse duas pequenas empresa angolanas desconhecidas como parceiras menores do empreendimento

A Cobalt ficou com 40% do empreendimento que dirigia, a Sonangol com 20% e duas empresas privadas locais, a Nazaki Oil and Gás e a Alper Oil, receberam respetivamente 30% e 10%. A primeira era de Manuel Vicente e de outros dois generais próximos de Eduardo dos Santos.

O negócio despoletou posteriormente uma investigação norte-americana, com a Cobalt a alegar desconhecimento de situações ilícitas.

A propriedade deste tipo de empresas surge muitas vezes oculta, o que leva as empresas estrangeiras a efetuarem as chamadas “diligências devidas”, para saberem quem são os verdadeiros donos dos seus parceiros locais, antes de fazerem os seus investimentos. 

Paralelamente, o livro descreve as condições de pobreza em que se vive nos enormes bairros de lata angolanos, num país em que metade da população vive abaixo da linha internacional de pobreza, de 1,15 dólares por dia.

O bairro de Chicala é apresentado como um casogritante de como o Estado, para além de não promover a melhoria das condições de vida, ainda subjuga as populações perante outros interesses. O bairro de lata ficava situado na cidade de Luanda e os seus habitantes foram forçados a mudarem-se para Zango, um novo bairro nos arredores da capital, onde não passaram a ter sequer melhores condições de vida.

Enquanto isso, Kilamba, o novo glamoroso aldeamento de Luanda, foi construído com financiamento e mão de obra chinesa, no âmbito de um acordo que garantiu à China acesso a recursos naturais do país. A supervisão da construção foi atribuída à Sonangol, que subcontratou a venda dos apartamento à Delta Imobiliária, do império de Manuel Vicente e do general Kopelipa, segundo descreve ainda o livro de Tom Burgis.