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Lesados do BES manifestam-se em Paris. Desesperados, anunciam marcha até à Embaixada

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A delegação em Paris do BESV - é assim que está anunciado à porta – fechou por precaução. 250 emigrantes manifestaram-se ruidosamente este sábado num dos mais chiques bairros da capital francesa. E anunciam uma marcha até à Embaixada

Os pacatos e abastados residentes da avenida Georges Mandel, no muito chique quarteirão do Trocadero, no bairro número 16 de Paris, nunca tinham despertado com tamanho sobressalto à hora do pequeno-almoço.

Às nove da manhã (8h em Lisboa), 250 emigrantes portugueses manifestavam-se ruidosamente com diversos megafones à porta da delegação parisiense do Novo Banco nessa avenida, onde ainda figura, numa placa, a antiga denominação – BESV, Banco Espírito Santo et de la Vénétie. A delegação, habitualmente aberta ao sábado, estava fechada.

A polícia francesa conteve sem grandes problemas a pacífica manifestação, na qual muitas dezenas de pessoas exibiam violentos cartazes, em francês e português, contra o que chamavam “o roubo” cometido por “corruptos” e “larápios” com “o apoio do Governo e de Carlos Costa (governador do Banco de Portugal)” .

Muitos dos presentes falavam aos jornalistas totalmente desesperados. “Roubaram-nos todas as nossas economias, a mim e ao meu marido, tinha tudo no BES, 350 mil euros”, dizia uma senhora. “Se não me derem o meu dinheiro, venho aqui e expludo com uma garrafa de gás”, acrescentava um homem. Um homem dizia, ao megafone: “para a próxima trazemos picaretas e partimos isto tudo”.

Boa parte dos manifestantes tinha cerca de 60 anos, ou mais. Todos dizem ter sido enganados pelos funcionários do BES. “Telefonaram-me de Braga, aconselharam-me a tirar tudo da conta a prazo para meter noutra coisa que diziam ser tão segura como essa e que rendia mais: Meti lá tudo e ainda o dinheiro de um apartamento que tinha vendido, foi tudo feito pelo telefone”, contava um reformado.

As histórias individuais dos manifestantes são todas pungentes e, no que respeita à sua relação com o BES, muito semelhantes – a larga maioria diz ter sido convidada pelo telefone a investir nos novos produtos bancários, tendo os funcionários garantido “serem tão seguros como as contas a prazo”. Todos têm igualmente percursos idênticos na emigração – a maioria tem 40/50 anos de residência em França. “Poupámos toda a vida, fartámo-nos de trabalhar e poupar, vivemos e trabalhámos no duro para isto!”, exclamava uma porteira de 59 anos.

As palavras, nos cartazes, eram fortes, à semelhança do que se ouvia através dos megafones: “gatunos”, “vigaristas”, “fascistas”… Um grupo gritava: “O povo, unido, jamais será vencido”. Num dos cartazes lia-se: “Mandámos as nossas economias para o desenvolvimento do nosso país e fomos roubados”.

“Saí de lá aos sete anos com os meus pais, na miséria, vivemos aqui os primeiros tempos na maior das misérias e, com grandes sacrifícios, trabalhámos muito, saímos da miséria, agora tínhamos algum dinheirito guardado e roubaram-nos tudo. Estou disposta a tudo para recuperar o meu dinheiro, não quero voltar a ser pobre”, dizia Maria Adelina, de 59 anos, natural de Leiria.

Amélia Reis, principal organizadora desta concentração em Paris, ex-ama da família Espírito Santo, com a qual trabalhou entre os 14 e os 18 anos, garantia que o movimento de protesto vai continuar:“A próxima manifestação será a 27 de junho e vamos marchar daqui até à Embaixada – só paramos quando nos derem o nosso dinheiro”.

Segundo fontes bancárias contactadas pelo Expresso, quatro mil emigrantes em França dizem-se lesados do BES. No total, investiram cerca de 400 milhões de euros. No mundo inteiro, serão oito mil os emigrantes lesados, com investimentos globais da ordem dos 800 milhões de euros.