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As consequências fatais da escolha do Qatar

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Organizadores do Mundial 2022 do Supremo Comité de Entrega e Legado do Qatar, junto à maquete do estádio Al-Khor Stadium

MOHAMAD DABBOUSS / Reuters

Como é que a FIFA - uma das organizações mais poderosas do mundo -, escolheu o Qatar - um pequeno país árabe conhecido pelas suas péssimas condições de trabalho -, para hospedar o Mundial 2022?  

A escolha do Qatar para hospedar o Mundial 2022 tem gerado controvérsia desde 2010, ano em que foi selecionado para hospedar o campeonato de futebol, a par da Rússia, escolhida para receber o Mundial 2018. Para muitos, tratou-se de "pagamentos de baixo da mesa" e, o facto de sete membros da FIFA terem sido detidos esta quarta-feira torna-o ainda mais evidente.  

O que tem a FIFA a ver com as más condições de trabalho no Qatar? Aparentemente nada, mas na realidade tudo. Com a necessidade de construção de estádios e outras infraestruturas para hospedar 32 equipas de futebol e milhares de turistas, os imigrantes dos países mais pobres à volta do Qatar começaram a chegar às centenas, para trabalhar. Além dos escândalos de corrupção, este mundial tornou-se numa história de sofrimento e miséria. 

Dormitório para imigrantes em Sanaya, área industrial de Doha, no Qatar, construído para melhorar as condições de vida dos milhares de imigrantes que trabalham nos preparativos do país para receber o mundial em 2022

Dormitório para imigrantes em Sanaya, área industrial de Doha, no Qatar, construído para melhorar as condições de vida dos milhares de imigrantes que trabalham nos preparativos do país para receber o mundial em 2022

REUTERS

Os piores medos dos defensores dos direitos humanos começaram a tornar-se realidade quando apareceram os registos de imigrantes a morrerem por falta de condições de trabalho. Uma investigação levada a cabo pelo britânico "The Guardian" revelou o ano passado que os imigrantes nepaleses no Qatar morriam a um ritmo de um em cada dois dias. É de notar que esta investigação excluiu os imigrantes da Índia, do Sri Lanka e do Bangladesh que, tal como os nepaleses, vão para o Qatar em busca de melhores condições de vida. 

Não se sabe ao certo quantas destas mortes estão diretamente relacionadas com os preparativos para o campeonato de futebol, mas os números poderiam ser ainda piores: a Confederação Sindical Internacional estimou cerca de 1200 mortes entre 2010 e 2014, prevendo que até à data do mundial, em 2022, o número suba para os quatro mil. 

As organizações internacionais de direitos humanos têm pressionado para que o Qatar melhore as condições de trabalho dos imigrantes. Do lado da FIFA, Joseph Blatter, numa reunião em Marraquexe, Marrocos, na semana anterior, riu-se quando ouviu o aviso do executivo alemão Theo Zwazinger (que lidera um grupo de trabalho sobre este assunto) que garantiu que se as condições laborais neste país não melhorassem, o campeonato jamais seria realizado no Qatar.

Dormitório para estrangeiros, na área industrial de Doha, durante uma visita guiada do Governo de Qatar com quatro ministros estrangeiros

Dormitório para estrangeiros, na área industrial de Doha, durante uma visita guiada do Governo de Qatar com quatro ministros estrangeiros

REUTERS

Quanto à gravidade das condições de trabalho, a Confederação Sindical Internacional, no seu relatório, apelidou o Qatar como "um país sem consciência".  

Os relatórios divulgados  colocaram o pequeno país árabe - cujo PIB per capita é o maior do mundo -, sob pressão e as autoridades decidiram contratar uma multinacional da advocacia, a DLA Piper. O Qatar prometeu cumprir todas as sugestões de melhoria de condições de trabalho que viessem a ser feitas mas, a sete anos do Mundial, pouco foi feito. 

Em abril do ano passado, o jornalista Terrence McCoy, do norte-americano "The Washington Post", descreveu as condições de trabalho dos imigrantes no Qatar: "Há um lugar, escondido por entre as sombras dos etéreos arranha-céus que representam a imensa riqueza do Qatar, onde o cheiro de excrementos é forte e os homens agacham-se em torno de latrinas fétidas e bebem água salgada." 

"Quando é hora de ir dormir, os homens espremem-se em espaços de quatro metros quadrados. Quando é hora de acordar, marcham sobre 40 graus, um calor tão intenso que é capaz de matar um saudável jovem de 25 anos. Quando é hora de cozinhar, os homens usam fogões entupidos com a sujidade. E quando é hora de se aliviarem? Há um buraco", escreve o jornalista norte-americano.