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Recandidatura de Rajoy contestada após mau resultado do PP nas eleições locais

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O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy

JJ GUILLEN

A direita teve mais votos mas vai deixar de governar em várias regiões. Há quem questione se o primeiro-ministro deve recandidatar-se em novembro.

Num dia é-se primeiro-ministro de um país a recuperar da crise – ainda que devagar e incipientemente – e líder de um partido que domina o poder local. No dia seguinte, tem-se não só a reeleição em xeque como um coro de vozes a duvidar que seja sensato concorrer de novo. Eis a encruzilhada em que vive o espanhol Mariano Rajoy, devido aos maus resultados do seu Partido Popular (direita) nas eleições locais de domingo passado O PP foi a força política mais votada a nível nacional, mas perdeu 2,4 milhões de votos e vai deixar de governar várias das regiões que dominava.

A crítica mais acutilante veio, por sinal, do líder de um dos bastiões do PP, Castela e Leão. Juan Vicente Herrera, presidente regional desde 2001, crê que Rajoy deve “olhar-se ao espelho” antes de decidir recandidatar-se nas legislativas de novembro próximo. O próprio Herrera não sabe se continuará em funções. Foi o mais votado na região, mas perdeu a maioria absoluta. Ora, a lei espanhola dita que o poder local caiba não forçosamente pela lista mais votada, mas àquela que consegue maioria, mesmo que em resultado de pactos. Que o PP tenha perdido a maioria em Castela e Leão é bem o símbolo da sua queda. O mesmo aconteceu, aliás, em todas as regiões que governava e que foram a votos. Restam à direita a Galiza (que tem outro calendário eleitoral) e a cidade autónoma de Ceuta. Em Melilha a maioria também se esfumou.

Em Castela e Leão, como em Múrcia, La Rioja e na região de Madrid, o PP poderá manter-se no poder se conseguir acordos com o partido Cidadãos, um dos emergentes destas eleições locais. Na Extremadura perdeu para o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e, embora tenha vencido em Aragão, Baleares, Cantábria, Castela La Mancha e Valência, é provável que sucumba perante alianças que incluam PSOE, Podemos (outra estrela da noite) e/ou outras forças nacionalistas, regionalistas ou de esquerda. No caso de Navarra (até agora governada pela conservadora União do Povo Navarro) a frente progressista pode mesmo dispensar os socialistas.

Críticas e demissões
O desaire do PP gerou uma onda de contestação interna a Rajoy. Além de Herrera, falaram o presidente galego, Alberto Núñez Feijóo, que pediu “uma autocrítica que não fique só pelas palavras”; a candidata autárquica a Madrid, Esperanza Aguirre (também ela batida por uma aliança progressista), considerou que os eleitores aplicaram “um corretivo muito forte” ao PP; Alberto Fabra, que deve deixar de ser presidente da região de Valência, falou num “reset” ao partido. Anunciou, como Herrera e José Ramón Bauzá (presidente cessante das ilhas Baleares), que deixará a liderança regional dos populares. 

Rajoy tem repetido à saciedade que o PP foi o mais votado, tentando obviar as perdas (que ocorreram também a nível municipal, com o fim de mais de 500 maiorias absolutas a nível concelhio e a perda de dezenas de capitais de província para partidos de esquerda ou listas de cidadãos). Ontem, no Parlamento, o primeiro-ministro afirmou que a governação “está a dar bons resultados” e não falou de mudanças. Uma remodelação do Executivo poderá fazer pouco sentido a seis meses das legislativas, com o verão pelo meio.

O líder do PSOE, Pedro Sánchez, prefere falar de “um tempo novo na política municipal”, marcado “pela mudança e pelo diálogo”. Que o tom otimista não faça esquecer a realidade: os socialistas também perderam votos, mais de 700 mil, o que indica que o descontentamento com o PP não beneficia o principal partido da oposição, antes os crescentes Podemos e Cidadãos. 

Diálogo em várias frentes
Quanto ao diálogo, Sánchez tem razão. O bipartidarismo foi substituído por um quadripartidarismo em que, embora haja duas forças dominantes (PP e PSOE) e duas secundárias (Podemos e Cidadãos), aquelas não podem governar sem estas. Nas quatro regiões em que o PP depende dos Cidadãos, estes exigem condições para viabilizar governos da direita, entre elas a realização de eleições primárias para escolher candidatos aos vários cargos políticos, coisa que Rajoy tem rejeitado. Muitos dirigentes regionais estão à espera de instruções da direção nacional do PP.

Caso os pactos de Castela e Leão, La Rioja, Madrid e Múrcia não avancem, a esquerda plural governará quase todas as regiões. Mas também nos casos onde as forças progressistas somam maiorias, fazer delas soluções de governo vai exigir negociações. À parte isso, o PSOE vence com maioria na Extremadura e poderá manter as Astúrias com pactos que já existiam na legislatura cessante.

Quatro regiões não realizaram eleições no domingo, por terem um calendário autónomo. Na Andaluzia o escrutínio realizou-se em março mas o PSOE venceu sem maioria, pelo que as conversações para formar o governo regional ainda se arrastam. A Catalunha e o País Basco, hoje governados por nacionalistas, devem ir a votos em setembro de 2015 e outubro de 2016, respetivamente. E a Galiza, último feudo do PP, também elege novo governo para o ano.