Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“É muito provável que voltem a acontecer atentados idênticos aos do Charlie Hebdo”

  • 333

ESTADO ISLÂMICO. Christian Leuprecht está em Portugal para falar sobre o conflito na Síria e no Iraque

Sonja S Photography

Christian Leuprecht, um dos maiores especialistas internacionais em matéria de terrorismo, veio a Portugal falar sobre o autodenominado Estado Islâmico e deu uma entrevista exclusiva ao Expresso. 

“Os cínicos dizem que devemos deixar ir embora os que pretendem juntar-se ao Estado Islâmico, no pressuposto de que eles nunca irão regressar. Mas isso é um argumento falacioso, porque sabemos que um terço dos combatentes já regressaram ao Ocidente”, diz Christian Leuprecht, que esteve segunda-feira no Instituto de Defesa Nacional, em Lisboa, numa conferência intitulada "Strategic Implications of Violent Extremist Networks in North-West Africa". Esta terça, foi o orador estrangeiro numa mesa redonda sob o tema "Radicalization Leading to Violent Extremism", no ISCTE.

Os 15 a 20 jiadistas portugueses, atualmente na Síria e Iraque, têm ligações à máquina de propaganda do Estado Islâmico e ao decapitador Jihadi John. Alguns desempenham mesmo um papel importante na estrutura a organização. O que sabe sobre este pequeno mas aparentemente influente grupo? 
Não posso comentar este caso específico, mas encaixa num padrão. Os combatentes estrangeiros tendem a ser considerados ativos valiosos dentro do Estado Islâmico. Têm mais habilitações e, como tal, podem ser usados como gestores e organizadores de modo a facilitar a logística e comunicação da organização. Têm também conhecimento de línguas estrangeiras, o que é útil na estratégia que o Estado Islâmico utiliza nas plataformas das redes sociais: dão conselhos personalizados em diferentes línguas com o objetivo de recrutar pessoas para esta organização. Existe a hipótese de alguns destes jiadistas portugueses fazerem parte desta estratégia, com o objetivo de alcançarem os países lusófonos. 

As autoridades portuguesas, e as ocidentais em geral, devem fazer mais para impedir que os jovens continuem a viajar para a Síria e Iraque?
Os cínicos dizem que devemos apenas deixar ir embora os combatentes, no pressuposto que eles nunca irão regressar. Mas trata-se de um argumento falacioso, porque sabemos que um terço dos jiadistas já voltou ao Ocidente. A partir do estudo de Hegghammer [Thomas Hegghammer é um especialista norueguês em segurança] sabemos que nove em cada dez jiadistas que regressaram vieram desiludidos, muitos deles afetados com problemas mentais (alguns já tinham esses problemas antes de partirem); e que um em cada dez regressou com uma ideologia mais extremista. Pelas razões óbvias, este grupo mais pequeno é objeto de uma preocupação particular dos serviços de inteligência e de segurança. Os combatentes estrangeiros que estão feridos também têm regressado para serem tratados nos hospitais dos seus países. Por isso, somos nós que estamos a pagar. Finalmente, em relação aos jiadistas menores de idade, o Estado tem a obrigação de prevenir que façam mal a si próprios: não é isso que justifica as regras sobre consumo de álcool e tabaco?

ATENTADO O ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo foi levado a cabo por extremistas ligados ao Estado Islâmico

ATENTADO O ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo foi levado a cabo por extremistas ligados ao Estado Islâmico

Reuters

Como se deve combater este fenómeno? As novas leis de antiterrorismo são suficientes?
A partilha de informações consideradas classificadas e uma melhor cooperação entre as forças de segurança e polícias é essencial. Mas podemos também fazer muito melhor no que respeita à prevenção: identificar e intervir cedo em relação aos indivíduos considerados de risco. Os programas governamentais britânicos e dinamarqueses de ‘desradicalização’ são bons exemplos. 

Há alguma semelhança entre o Canadá e Portugal em relação ao êxodo de jovens combatentes? É conhecida a história da canadiana Toronto Jane, uma mulher guerrilheira que fará parte do comando da organização.
A narrativa que descreve os combatentes estrangeiros é a mesma nos dois países: o Estado Islâmico tem uma plataforma multimédia em várias línguas e muito sofisticada. Por isso, penso que há uma similitude do tipo de indivíduo que é atraído por esta mensagem, seja no Canadá ou em Portugal. Mas a mensagem parece ter mais força em alguns países como a Dinamarca e menos em outros como o Canadá. A questão que está por esclarecer é o que explica essas diferenças.

O Estado Islâmico controla agora novas cidades no Iraque e na Síria. Está mais forte na Líbia... Os EUA devem avançar com a ofensiva terrestre antes que seja tarde de mais? 
Só um ataque direto do Estado Islâmico (por oposição a um ataque inspirado no Estado Islâmico) nos EUA irá mudar a estratégia de Obama. E um ataque desse género é improvável precisamente porque isso iria levar os norte-americanos a entrar mais profundamente no conflito. Parte da razão desta confusão que tem lugar no Médio Oriente é a intromissão estrangeira nas últimas décadas em assuntos que são regionais. Se contarmos com estes ataques aéreos na Síria, é a décima quarta vez desde 1980 que os EUA bombardeiam um país daquela região. A verdadeira ameaça para a estabilidade regional não é o Estado Islâmico, mas sim a influência e o poder do Irão, que está a incentivar os sunitas moderados a apoiar as soluções radicais do Estado Islâmico. Por apenas nos focarmos no Estado Islâmico estamos a perder a perspetiva alargada sobre a instabilidade que afeta o futuro desta região. 

Como imagina o Estado Islâmico daqui a um ano?
O seu poder tem vindo a baixar substancialmente. Os fluxos de combatentes estrangeiros caíram 90%, os fluxos financeiros estão a descer... A grande incerteza é o que vai acontecer a Bashar al-Assad. Se a Síria implodir e não houver cessar-fogo, há o risco de o Estado Islâmico acabar por emergir como o maior poder naquele país. E ninguém quer esse cenário.

Acredita que haverá mais ataques terroristas no Ocidente, como os do Charlie Hebdo, em Paris?
É muito provável que atentados idênticos aos do Charlie voltem à acontecer. Vemos pessoas em todo o mundo a serem detidas por conspirações semelhantes. A proliferação de lobos solitários [pessoas que cometem atentados inspiradas em organizações terroristas mas que não fazem parte desses movimentos] é um problema significativo para os nossos serviços de segurança.

Quem é Christian Leuprecht

Christian Leuprecht é professor associado no Departamento de Ciência Política e Economia do Royal Military College do Canadá e Queen’s University. Especializou-se em questões ligadas ao extremismo e terrorismo, sendo autor de vários livros nas áreas da defesa nacional e segurança nas fronteiras. O canadiano é ainda comentador político internacional em cadeias de televisão americanas, canadianas, inglesas, australianas, francesas, bem como em vários jornais diários no Canadá. Além disso é professor convidado em várias universidades americanas e europeias.