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Grécia: credores mantêm regra do “acordo abrangente”

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YVES HERMAN

Ainda que a Grécia caminhe para a bancarrota, os credores insistem num "acordo abrangente" que inclua a reforma do mercado laboral e das pensões bem como o imposto sobre o consumo.

Os credores europeus continuam a não querer adiantar dinheiro à Grécia sem um acordo abrangente que inclua as reformas do mercado laboral e do IVA. Numa altura em que os cofres gregos estão cada vez mais vazios, a imprensa helénica noticiou um acordo mais flexível proposto pela Comissão Europeia. Bruxelas não confirma e diz que as negociações com a Troika continuam a decorrer devagar.

“Não vimos tal proposta” adiantou ao Expresso fonte do Eurogrupo, referindo-se à carta alegadamente enviada pela Comissão Juncker ao governo de Tsipras, falando de um possível adiantamento de verbas já em junho.

Os credores resistem a mudar as regras, mesmo quando a Grécia parece cada vez mais próxima da bancarrota. O objetivo continua a ser “um acordo abrangente”, ou seja, que abarque todas as áreas em cima da mesa, incluindo as chamadas “linhas vermelhas” que separam gregos e parceiros europeus, como a reforma do mercado laboral, das pensões e do Imposto sobre o Consumo (IVA).

A fuga de informação terá vindo do lado grego e foi avançada pela imprensa da Grécia. A publicação helénica “Vimo” deu conta, esta segunda-feira, de uma carta enviada pela Comissão Juncker ao governo de Alexis Tsipras, com o propósito de desbloquear o impasse nas negociações.

A proposta abriria caminho para que a Grécia recebesse, já em junho, cinco mil milhões de euros. O montante dizia apenas respeito à tranche europeia de 1,8 mil milhões de euros do Fundo Europeu de Estabilização Financeira e à restituição dos lucros que o BCE e os bancos centrais nacionais fizeram com a dívida grega em 2014 e 2015, deixando de fora a parte do FMI.

Em troca, Atenas teria de concordar com uma lista de reformas menos exigentes do que aquela que está a ser negociada com o Grupo de Bruxelas - Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu. O documento adiava a implementação de medidas difíceis (como a reforma laboral e em matéria de IVA) para setembro e outubro.

A reação de Bruxelas não tardou. A Comissão Europeia tem admitido contactos entre Juncker e Tsipras mas demarcou-se da proposta. “Não podemos confirmar as alegações nos meios de comunicação social, em que a Comissão fez uma proposta à Grécia”, disse uma porta-voz da Comissão, acrescentando: “Desconhecemos tal proposta”.

Uma outra fonte, próxima das negociações, escusou-se também a comentar o conteúdo da carta, explicando que o documento não faz parte das negociações entre a Grécia e o Grupo de Bruxelas. A mesma fonte adiantava ainda que a conclusão de um acordo "está longe" e que dificilmente seria possível desbloquear verbas em junho.

O próprio porta-voz da Comissão, Margaritis Schinas, disse esta segunda-feira que as negociações têm tido progressos mas “de forma lenta”.

Não há para já sinais de que “meio acordo” como o que, alegadamente, estaria a ser sugerido na carta enviada pela Comissão possa desbloquear o dinheiro de que a Grécia precisa para fazer face aos compromissos. Em junho, o país tem de pagar mais 1,2 mil milhões de euros ao FMI, sem contar com os compromissos com salários e pensões.

A alegada fuga de informação sobre os esforços da Comissão Europeia, para tentar “criar pontes de entendimento” entre a Grécia e os credores, mostra ainda as conversações bilaterais podem ajudar mas a solução final terá sempre de ter o “ok” das restantes instituições da troika - o BCE e o FMI - bem como dos estados-membros do euro, ou seja, do Eurogrupo.

Na próxima quinta-feira, os líderes europeus reúnem-se em Riga, na Letónia, para discutir a Parceria Oriental e tem havido pressões para que a questão grega seja uma vez mais levada à discussão dos chefes de Estado e de Governo. O episódio desta segunda-feira deixa também claro, e a própria Comissão já admitiu isso, que quaisquer que sejam os desenvolvimentos de Riga, a Grécia terá de continuar a falar com o Eurogrupo.