Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Mediterrâneo. Os russos estão aí e os chineses vieram com eles

  • 333

O cruzador porta mísseis Moskva assumirá as funções de navio-almirante da frota

AFP

Exercício militar inédito no Mediterrâneo. Até esta quinta-feira, navios de guerra russos e chineses vão aprofundar as ligações entre as duas marinhas, junto à fronteira da NATO. E já chegaram.

Carlos Abreu

Jornalista

Eles estão aí. Nove vasos de guerra, três chineses e seis russos, chegaram ao Mediterrâneo. Entre domingo, 17, e quinta-feira, 21, vão participar nestas águas, pela primeira vez, num exercício militar conjunto. Nas barbas da NATO, com os generais reunidos em Bruxelas a falar do Kosovo e do Afeganistão. Mas vamos por partes.

A frota sino-russa, oriunda do Mar Negro, navega desde quinta-feira através do estreito de Bósforo, Mar de Mármara e estreito de Dardanelos. Os primeiros navios chegaram ao final desta sexta-feira ao Mediterrâneo oriental, revelou à agência TASS o comandante Vyacheslav Trukhachyov, porta-voz da Marinha russa.

Os chineses seguem a bordo das fragatas Linyi e Weyfang, cada uma com o seu helicóptero e forças especiais, e do reabastecedor, Weishanhu. Zarparam terça-feira, da Base Naval de Novorossiysk, depois de participarem numa parada naval para celebrar o 70º aniversário da vitória soviética sobre a Alemanha nazi na II Guerra Mundial. Antes ainda, andaram por conta própria à margem das Nações Unidas, entenda-se, a combater a pirataria no Golfo de Áden, ao largo da Somália.

Já os russos enviaram para o Mediterrâneo uma joia da coroa da frota do Mar Negro: o cruzador porta mísseis Moskva, que assumirá as funções de navio-almirante da frota, composta ainda pela fragata Ladny, a corveta Samum, os navios de assalto anfíbio, Alexander Shabalin e Azov, e um rebocador oceânico. Estes navios, onde seguem um número não revelado de fuzileiros navais, representarão por estes dias cerca de metade do poderio naval russo às ordens de Moscovo no Mar Negro.

Durante os cinco dias do exercício, a frota sino-russa cumprirá, de acordo com o ministro da Defesa chinês, “missões de defesa marítima, reabastecimento no mar, patrulhamento, operações conjuntas para garantir a segurança à navegação, bem como exercícios de fogo real”. Nada que deva preocupar os países vizinhos, disse à agência TASS o general do Exército que lidera o Ministério da Defesa russo. Segundo Sergei Shoigu, “este exercício não visa qualquer país estrangeiro, nem está relacionado com a situação política nesta região". "O seu objetivo é aprofundar a amizade e a capacidade de interação das Forças Armadas dos dois países."

Desordem mundial

As relações entre a Rússia e a China seguem de vento em popa. A 9 de maio, o presidente Xi Jinping assistiu ao lado do seu homólogo russo, Vladimir Putin, em plena Praça Vermelha, ao desfile militar das comemorações do 70º aniversário da vitória dos Aliados sobre a Alemanha nazi e já devolveu o convite. A 3 de setembro comemoram-se os 70 anos da vitória chinesa sobre o Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial e Jinping também quer Putin a seu lado em Pequim.

O vice-ministro da Defesa russo esclarece a aproximação entre os dois países: “A cooperação militar demonstra o entendimento comum sobre os desafios e ameaças, bem como a necessidade de reestruturar a atual ordem mundial”. Há uma semana, em Moscovo, Putin também terá afirmado que o “desenvolvimento global” estava a ser ameaçado “pelas tentativas de criar um mundo unipolar”. E a culpa será dos Estados Unidos e da União Europeia.

Desde a anexação da Crimeia e da crise na Ucrânia, onde é público e notório o apoio da Rússia aos separatistas no Leste, americanos e europeus avançaram com um batalhão de sanções económicas procurando isolar diplomaticamente a Rússia.

“A Rússia quer mostrar aos EUA que não está isolada e que consegue realizar exercícios nas proximidades da Europa de Leste. E, em resultado da visita do primeiro-ministro do Japão aos EUA [a 28 de abril] e do reforço da relação militar entre os dois países, o presidente chinês quer mostrar aos EUA que tem boas relações com a Rússia”, disse no início do mês ao “The New York Times” Shi Yinhong, professor de relações internacionais na Universidade de Renmin, em Pequim.

Durante a próxima semana, a 20 e 21 de maio, quando os navios russos e chineses estiverem na reta final do inédito exercício no Mar Mediterrâneo, o Comité Militar da NATO estará reunido em Bruxelas. Da agenda do encontro de chefes de Estado-Maior-General das Forças Armadas, enviada esta sexta-feira de tarde às redações, consta a implementação do plano de ação de prontidão (aprovado na Cimeira de Gales), o futuro da missão Resolute Support, no Afeganistão, a KFOR no Kosovo, e a eterna necessidade de aprofundar a cooperação entre os países membros da Aliança Atlântica. Mas será praticamente impossível que os generais da NATO esqueçam o que se passa no Mediterrâneo.