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Secretária de Estado e ministro de Marrocos demitem-se para se casar. Mas ele vai ser bígamo

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Poligamia é permitida no Governo de Marrocos... desde que não embarace o primeiro-ministro.

Em linha reta, Lisboa está a 562 quilómetros da capital marroquina e é a capital mais próxima de Rabat. Apesar de quase "vizinhos", separa-nos pelo menos o mar e a prática de casamentos poligâmicos. Por isso, é provável que muitos portugueses, sobretudo as mulheres, tenham alguma dificuldade em perceber o que levou a engenheira Soumia Benkhaldoun a demitir-se do Governo marroquino. 

A ex-secretária de Estado do Ensino Superior nasceu em 1963 e é considerada uma das mulheres mais competentes do seu país. Entrou para o Governo liderado por Abdelilah Benkirane, um islamita moderado, em outubro de 2013 e aí permaneceu até se ter demitido do cargo que ocupava na última terça-feira, para casar com o seu colega dos Assuntos Parlamentares, que a partir de agora vai estar casado com duas mulheres ao mesmo tempo, já que não divorciou nem enviuvou da primeira.

O romance entre os dois ex-governantes foi noticiado por vários órgãos da imprensa internacional a meio de abril, quando anunciaram que pretendiam casar. Mas a polémica está ao rubro em Marrocos, com as organizações feministas e o secretário-geral do Istiqlal, o partido da oposição, a questionarem pública e politicamente um romance que só poderia ter ficado na esfera privada se os seus protagonistas não desempenhassem funções governativas.

"Grande parte da luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres em Marrocos foi orientada no sentido da abolição" da poligamia, escreve Abdellah Tourabi num editorial publicado a 24 de abril no jornal marroquino "TelQuel". "A poligamia é vista, com razão, como uma injustiça, a violência simbólica contra as mulheres e uma imagem de dominação masculina. A reforma do Código da Família em 2004 não pôs um fim [a esta prática], mesmo que tenha tentado limitá-la."

Ministro da Justiça também tem duas mulheres
Em 2015, Marrocos vai ter eleições municipais e esse facto terá sido determinante para que a engenheira Soumia e o seu noivo, o influente ex-ministro dos Assuntos Parlamentares, Lahbib Choubanie, se tenham demitido do Governo de Abdelilah Benkirane, evitando assim um foco de desgaste.

A verdade é que, até aqui, o islamita moderado Abdelilah Benkirane nunca teve "nada contra a poligamia", escreve o jornal espanhol "El País", lembrando que o ministro da Justiça, Mustafa Ramid, é casado com duas mulheres. 

As estatísticas dizem que os casamentos poligâmicos são pouco frequentes em Marrocos e que em 2013 só atingiram 0,26% dos contratos matrimoniais celebrados nesse ano. Ou seja, 787 casamentos num país que tem 33 milhões de habitantes. Recorde-se que a Tunísia é o único Estado que proíbe a poligamia. Boa parte dos países muçulmanos permite que um homem se case com duas mulheres e em Marrocos pode casar com quatro. 

Vamos ver como será a vida futura do homem que até terça-feira foi ministro dos Assuntos Parlamentares. Para já sabemos que Lahbib Choubani, 52 anos, cumpre o que anuncia. Casado e pai de  quatro filhos, tinha anunciado no início de abril a firme intenção de contrair matrimónio com a sua colega de Governo, Soumia Benkhaldoun, que se divorciou há dois anos, depois de ter estado casada 30.

Para agir de acordo com o estipulado na lei, Lahbib solicitou a autorização e concordância da sua primeira mulher, Malika, que a partir de agora vai partilhar o marido com Soumia. Os três cumpriram a lei que tem "como objetivo travar a poligamia sem ir contra os preceitos de Corão", escreve o "El País". Malika poderia ter optado por se divorciar... mas não o fez.