Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Cartas do príncipe a Blair reveladas ao fim de dez anos

  • 333

Para O príncipe Carlos, as cartas apenas revelam a sua preocupação com temas de "interesse público"

FACUNDO ARRIZABALAGA/EPA

O Governo britânico fez tudo para impedir, mas o "The Guardian" acabou por publicar um conjunto de cartas trocadas entre Carlos e o primeiro-ministro e vários dos seus governantes. Datadas de 2004 e 2005, são o testemunho das "sugestões" políticas do príncipe.

A sua publicação põe termo a uma batalha legal que se arrastou dez anos. Conhecidas por "black spider" (aranha negra), as 27 cartas trocadas entre o príncipe Carlos, Tony Blair e vários dos seus ministros, entre 2004 e 2005, foram esta quarta-feira dadas a conhecer pelo jornal "The Guardian". 'Antecipadas' como potencialmente constrangedoras ou, noutra versão, como apenas um conjunto de missivas "chatas", abordando os "bem conhecidos temas de interesse" do herdeiro do trono britânico, o facto de serem reveladas é, sobretudo uma vitória para a liberdade de informação.

Como recorda o jornal, o duro processo judicial, com vista a impedir que os memorandos fossem publicados, implicou que o Governo gastasse mais de 400 mil libras (quase 560 mil euros). Uma despesa questionável, criticam muitos, justificando o interesse público deste 'espólio' pelo dever de a monarquia estar sujeita ao mesmo grau de "transparência" que é aplicado às restantes instituições.

As cartas, escritas com "particular franqueza", segundo os próprios ministros, permitem um vislumbre sobre o modo como se passam as coisas nos bastidores e como tenta o príncipe influenciar as políticas do Governo, diz o jornal. Algo, precisamente, que a todo o custo o executivo quis evitar, por considerar que a imagem de neutralidade do futuro rei resultaria muito afetada.

Quanto ao conteúdo das cartas propriamente dito, numa delas, endereçada a Blair, Carlos recomenda a aquisição de novos helicópteros, pensando na presença britânica no Iraque: “Temo que este seja apenas mais um exemplo de que as nossas Forças Armadas estão a ser obrigadas a fazer um trabalho extremamente desafiante sem os recursos necessários".

Mas Carlos escrever também aos ministros ligados à educação, saúde, ambiente, agricultura, media, desporto, entre outros temas 'quentes'. 

Confrontado com a divulgação dos memorandos "aranha negra" (assim chamados por causa da caligrafia do princípe e do seu recurso abundante aos sublinhados e aos pontos de exclamação", Carlos reagiu, em comunicado, argumentando que estes apenas revelam a sua “preocupação” com temas de reconhecido “interesse público”. 

“O Príncipe de Gales preocupa-se profundamente com o seu país e tenta usar a sua posição única para ajudar os outros. As cartas mostram-no a expressar preocupação com assuntos que ele abordou em público. Em todos os casos, o Príncipe de Gales estava a levantar questões de interesse público e a tentar encontrar formas práticas de as abordar”.

O ponto final na batalha em torno destas cartas foi colocado pelo Supremo Tribunal.no dia 26 de março, ao dar luz verde à sua publicação.