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Nepal, um castelo de cartas que rui

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NAVESH CHITRAKAR / Reuters

Presidente da AMI, que esteve no Nepal até domingo e que tem uma equipa no local, conta o que viu e anteviu num país em que as construções rudimentares são a principal ameaça: "Ao mínimo abalo vem tudo abaixo". O Nepal voltou a sofrer esta terça-feira - um sismo matou 60 e feriu mais de mil, depois daquele que levou oito mil pessoas há duas semanas.

Fernando Nobre diz que o número de vítimas do sismo ocorrido esta terça-feira será “nitidamente inferior” ao do dia 25 de abril - quando morreram mais de oito mil pessoas -, uma vez que a maioria da população encontrava-se em tendas ou centros de acolhimento, face ao receio de novas réplicas. O presidente da AMI também não tem dúvidas de que o “pânico voltou às ruas” e que as autoridades não estavam preparadas para um novo abalo de tanta intensidade.

“Nós escolhemos como área de intervenção uma zona perto do epicentro terramoto desta terça-feira, a cerca de 150 km do epicentro do sismo anterior. Fomos a 10 aldeias que estavam destruídas em 80% e 90%, que ficam acessíveis a cerca de três a quatro horas de jipe. Percebemos que ninguém tinha recebido apoio até nós lá chegarmos, por isso duvido que o Governo nepalês esteja capaz de responder de forma adequada a este novo sismo.”

A juntar às vítimas, o presidente da AMI considera que o que cria “instabilidade” e “caos emocional” é o facto de os abalos terem sido registados em pouco mais de duas semanas, havendo receio da existência de um terceiro. A equipa de quatro elementos da AMI que se encontra no local já comunicou com Fernando Nobre: explicaram que o abalo foi muito forte, tendo ocorrido quando estavam a sair do hotel em Katmandu onde permanecem hospedados.

“O hotel só não colapsou porque tem outra estrutura arquitetónica, com barras de betão. O maior problema é que a maioria das casas não foi construída com cimento nem com placas de betão armado.”

NAVESH CHITRAKAR / Reuters

Fernando Nobre relatou ter testemunhado um cenário de devastação total na semana que esteve no Nepal a liderar a equipa da AMI, apontando para a destruição da parte histórica, considerada património mundial da Unesco.

“No que diz respeito a Katmandu, a Praça Darbar (Durbar Square), que é a zona de grande cariz turístico, com templos, foi toda arrasada. A parte histórica foi praticamente toda destruída Na altura, as casas estavam muito atingidas e rachadas. Os edifícios que não cederam com o anterior sismo terão ruído com o abalo desta terça-feira.”

Segundo o líder da AMI, a maioria das construções no Nepal são tradicionais e rudimentares, sendo que ao “mínimo abalo vem tudo abaixo”. “É uma espécie de castelo de cartas que ruiu. Volta-se a pegar nas cartas e a construir tudo de novo de forma frágil.”

O foco do auxílio

A agravar a situação do Nepal, defende Fernando Nobre, está o facto de a maioria das equipas de ajuda internacional – entre sul-coreanos,  japoneses e alemães – terem já abandonado o país depois de prestarem assistência imediata face ao sismo de há duas semanas, que causou mais de 8 mil mortos.

Observando que a “grande sorte” foi que as colheitas de milho e arroz – que constituem a base da população rural – já terem sido feitas, Fernando Nobre sustenta que a prioridade, além de fornecer bens alimentares à população que não tem acesso, é disponibilizar medicamentos e apoio psicológico numa primeira fase, antes de se prosseguir com a reabilitação das infraestruturas, em especial de várias escolas que foram afetadas pelo abalo.

“A ajuda que será canalizada para a reconstrução do Nepal não dará possivelmente para recuperar nem a zona histórica de Katmandu, que é considerada património mundial da UNESCO, quanto mais reabilitar as zonas mais distantes e rurais. Deve ser esse o foco do auxílio internacional.”

Esta terça-feira, um sismo de magnitude 7.3 voltou a fazer tremer o Nepal, causando pelo menos 42 mortos e mais de 1.000 feridos no Nepal e ainda 17 mortos Índia e um no Tibete, onde o abalo foi também sentido.