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Jean-Marie avança com novo partido e ataca os “lindinhos” amigos de Marine

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BENOIT TESSIER / Reuters

Guerra entre os le Pen não abranda em França. Depois de ter sido suspenso das funções militantes, o extremista Jean-Marie le Pen, fundador da Frente Nacional, ameaça com uma cisão e ataca Philippot, braço direito da sua filha Marine, com uma alusão quase direta à sua homossexualidade.

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris

Todos os dias há crises e coisas novas na acesa guerra entre o pai e a filha, no seio do partido nacionalista francês, Frente Nacional (FN). Depois de a ter “repudiado” – aconselhando Marine le Pen, atual líder do movimento, a mudar de nome – Jean-Marie le Pen não se cala e cada vez vai um pouco mais longe nos seus ataques.

O velho patriarca de extrema-direita francesa, hoje com 86 anos, anunciou que vai criar uma nova formação política, com orientações mais radicais do que as seguidas pela atual direção da FN. Mas nas últimas horas foi muito violento na sua reputada perfídia: acusou Florian Philippot, número dois do partido e “soberanista” moderado (é antigo “chevementista”, corrente fundada pelo ex-ministro socialista Jean-Pierre Chevènement), de ter criado uma “máfia” para controlar o partido e aludiu quase diretamente à sua assumida homossexualidade. “Vemos bem que ele tomou as rédeas do poder e que colocou os seus homens, os seus lindinhos, em todo o lado”, disse Jean-Marie le Pen.

Com o anunciado novo movimento, o pai de Marine le Pen pretende continuar a existir politicamente e criar o que diz ser “um paraquedas contra o desastre”. “Vamos recolher todos os que se sentem indignados com a linha atual do partido e lutar para restabelecer a que tem sido seguida desde há dezenas de anos”, explicou o fundador da FN. “Eles querem dinamitar a FN”, acrescentou Jean-Marie le Pen, que se encontra hoje em evidente minoria no seio do partido.

O objetivo do pai de Marine le Pen é claro. Deseja colocar a filha em dificuldades e reunir os seus apoiantes para pesar no próximo congresso partidário, previsto para dentro de três meses e durante o qual ele deverá, segundo tudo indica, ser destituído do cargo de “presidente honorário” do partido.

Beijo de morte

A ideia de Jean-Marie le Pen, que também é conhecido como “o menhir”, é juntar os mais extremistas para contestar os “socialo-gaullistas” que, segundo ele, dominam a direção da FN e estão a influenciar negativamente a filha.

A atual crise no seio da FN foi provocada por repetidas declarações e provocações antissemitas de Jean-Marie le Pen. Os seus mais recentes ataques contra o braço direito de Marine criam mal-estar no partido, onde o próprio Philippot conhece alguns problemas por designadamente se declarar – “demasiadas vezes”, segundo alguns dirigentes históricos da FN – admirador do general de Gaulle.

Por agora, Floriam Philippot tem recebido o apoio incondicional da chefe da FN. Mas esta guerra atual coloca-lhe reais problemas, porque a FN foi criada pelo pai de Marine com teses de extrema-direita e com uma marca claramente machista muito pouco compatível com a partilha do poder partidário com homossexuais.

Marine le Pen mantém-se por agora silenciosa sobre os últimos desenvolvimentos da guerra interna, mas mais tarde ou mais cedo vai ter de optar e tomar decisões sobre o futuro político do pai.

De momento, Marine mantêm uma boa imagem em França, mas ela e o seu número dois receberam um apoio inesperado de… Jean-Luc Mélenchon. Na realidade, este “apoio” pode ser um autêntico “beijo da morte”, porque vem de um dos principais chefes da esquerda não socialista e velho inimigo da FN. “Felicito Florian Philippot por nos ter desembaraçado deste velho fascista, porque nós não o conseguimos fazer”, disse o antigo candidato às presidenciais.

  • A extrema-direita ganha terreno no Reino Unido ou na Finlândia em nome de um egoísmo nacional que se mascara de defesa da soberania democrática. Em França, como uma frente popular e patriótica em defesa de adquiridos sociais. Na Grécia, como reação à miséria e à humilhação nacional. Baseia-se em problemas reais para dar respostas simples. A única coisa que ainda nos protege desta gente são as suas idiossincrasias, bem visíveis no delicioso confronto entre Marine Le Pen e o seu pai. Mas são apenas dores de crescimento. Depois delas, a extrema-direita vai parecer menos indigesta. Quem, nesta Europa em processo de autodestruição, lhes preparou o caminho que carregue na sua consciência o legado político que deixa aos nossos filhos.