Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Chuka Umunna. O preferido de Blair avança

  • 333

Tem 36 anos e fez um vídeo quase descuidado em que parece que está simplesmente a comentar, mas na verdade é para se anunciar: que é candidato, que quer liderar os trabalhistas. Os do Reino Unido.

O vídeo não parece ter uma produção muito cuidada. Nele, uma cara conhecida de quem segue a política britânica explica que decidiu deslocar-se a Swindon para falar com muita gente. Em seguida, troca impressões sobre os resultados das legislativas com Mark Dempsey, candidato trabalhista (derrotado) a um dos círculos eleitorais desta cidade do sudoeste de Inglaterra. Só quando o filme já vai a mais de meio é que o seu autor, Chuka Umunna, diz ao que vem: “Serei candidato a líder do partido”.

Chuka Harrison Umunna tem 36 anos e é a aposta mais insistente da comunicação social britânica desde que Ed Miliband se demitiu, na sequência da derrota de 7 de maio. Com o vídeo que publicou esta terça-feira no Facebook, confirmou o que muitos já suspeitavam. No fim de semana, os jornais chegaram a apontar o facto de ter aparecido em público com a namorada como sinal de que iria avançar. É visto como o preferido do antigo primeiro-ministro Tony Blair.

Um artigo publicado no sábado no diário de centro-esquerda "The Guardian", com título “Onde o Partido Trabalhista errou e o que temos de fazer para o corrigir”, foi um forte sinal de que tal ia suceder. O texto reflete sobre o fracasso na conquista de votos ao centro. “Falámos ao cerne do nosso eleitorado, mas não às classes médias com aspirações. Falámos do fundo e do topo da sociedade, do salário mínimo e de contratos a zero horas, mansões e contribuintes não-domiciliados. Mas tivemos pouco a dizer à maioria das pessas, que está no meio”.

Umunna explica que quis estar em Swindon para fazer o seu anúncio porque é em “cidades como esta” que os trabalhistas têm de recuperar votos se quiserem ser alternativa aos conservadores, que venceram as legislativas com maioria absoluta. E confessa: “Tinha de me afastar de Londres!”. Note-se que foi em Swindon que o primeiro-ministro David Cameron apresentou o seu programa eleitoral para este ano.

Vitorioso no meio das derrotas

Deputado eleito por Streatham (arredores da capital) em 2010 e reeleito na semana passada, Ummuna é ministro-sombra da Economia. Londrino de nascimento, tem ascendência nigeriana e foi corista em miúdo. Formado em Direito pela  Universidade de Manchester, trabalhou em advocacia e, desde 2006, destacou-se no grupo de pressão Compass, próximo dos trabalhistas. Começou a aparecer nas páginas de meios como The Guardian, New Statesman ou Financial Times e em programas de televisão e rádio. Chegou a ter uma revista política digital,  The Multicultural Politic.

Reuters

Umunna chegou ao Parlamento num ano de derrota para o Partido Trabalhista, 2010. Passados cinco anos, em noite de novo desaire, aumentou a sua maioria em Streatham, o que o posicionou para a corrida à liderança. Durante a legislatura cessante foi colaborador próximo de Ed Miliband (a quem apoiara na disputa interna) e foi secretário de Estado-sombra para as Pequenas e Médias Empresas e ministro-sombra da Economia.

Elegante no vestir, o deputado é considerado um homem bem-parecido, mas não gosta de dar nas vistas por esse motivo. “Penso que o que uma pessoa se propõe fazer, e as suas ideias e convicções, são bem mais importantes”, disse numa entrevista. “A minha família diverte-se, os meus amigos gozam comigo que nem doidos. O que é bom, porque nos mantém os pés no chão. Os meus amigos acham que é hilariante. E é assim que deve ser”, prossegue.

A luta que se segue

Até agora Umunna só tem uma adversária declarada: a deputada Liz Kendall, que se tem dedicado a questões de saúde, da maior relevância num país onde o sistema nacional de saúde está permanentemente na mira dos cortes orçamentais. Ambos são vistos como potenciais “recentradores” de um partido que os críticos acusam de ter guinado à esquerda sob Ed Miliband.

É certo que surgirão mais candidatos. O ministro-sombra da Saúde, Andy Burnham, visto como incontornável, já teve divergências com Umunna, que criticou as propostas de Burnham para restringir a venda e publicidade ao álcool, tabaco e alimentos pouco saudáveis. Outros possíveis aspirantes são Yvette Cooper, ministra-sombra do Interior, ou Tristram Hunt, ministro-sombra da Educação. 

Quem já se excluiu foi o irmão do líder demissionário. David Miliband, derrotado por Ed em 2010, vai permanecer em Nova Iorque, onde dirige uma organização humanitária. A eleição do novo líder ainda não tem data marcada, mas sabe-se que decorrerá sob a regra “um eleitor, um voto”, tendo-se eliminado o colégio eleitoral tripartido entre militantes, deputados e sindicatos que determinou a vitória de Ed Miliband em 2010.