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Chineses dizem que os líderes ocidentais não foram "cavalheiros" nas celebrações russas

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A opinião publicada no Ocidente considera que a chanceler Merkel organizou e liderou com sucesso o boicote às grandiosas comemorações que Putin quis fazer a propósito do 70.º aniversário do fim da II Grande Guerra

SERGEI KARPUKHIN/Reuters

O mundo é global mas as perspetivas diplomáticas do Oriente e do Ocidente permanecem muito distantes. A opinião publicada ocidental destaca o puxão de orelhas de Merkel a Putin, enquanto que a chinesa diz que a chanceler alemã foi o único líder ocidental que não perdeu a face. Chegou a Moscovo um dia depois da grande parada... mas foi lá.

Fu Jing, correspondente do "China Daily" em Bruxelas, assina esta segunda-feira um artigo de opinião naquele jornal, onde destaca a atitude respeitosa da chanceler Merkel para com os 27 milhões de soviéticos mortos na II Guerra Mundial. O editorial de Fu Jing lembra que Merkel foi a única líder ocidental a comparecer em Moscovo para assistir às comemorações dos 70 anos do fim da II Guerra, no passado fim de semana.

A posição da Alemanha "merece respeito, porque honrou a memória da História, apesar da chanceler ter chegado a Moscovo "com um dia de atraso". Merkel não assistiu à grande parada militar que se realizou no último sábado na Praça Vermelha, mas no domingo foi a Moscovo e encontrou-se com o Presidente Putin.

A narrativa sobre este acontecimento muda completamente em função da 'matriz cultural' do jornalista que a relata ou comenta. Enquanto que o "China Daily"  louva Merkel e critica todos os líderes ocidentais por faltarem às celebrações,  a opinião publicada no Ocidente considera que a chanceler organizou e liderou com sucesso o boicote às grandiosas comemorações que Putin quis fazer.

 O "The New York Times" escreve que "Merkel e outros líderes ocidentais evitaram" assistir à colossal manifestação oficial" e ao desfile militar que assinalava o 70.º aniversário do fim da II Guerra Mundial, lembrando que marcharam "16 mil soldados na Praça Vermelha, ao lado do primeiro novo tanque" que os russos mostram em décadas, o T-14 Armata.

A grande preocupação chinesa
No seu artigo de opinião, o correspondente do "China Daily" diz que o Presidente chinês assistiu à parada militar porque "queria sinceramente honrar os mortos, os veteranos e suas famílias, e recordar ao mundo que não deve cometer um errro" desta natureza "novamente". Estima-se que "cerca de 70% das famílias russas  tiveram pelo menos um membro que foi morto ou desapareceu durante a guerra", escreve Fu Jing.

Mas há uma outra mensagem que paira neste artigo de Fu Jing, intitulado "A ausência ocidental às comemorações está errada". E essa mensagem é uma preocupação chinesa que ultrapassa em muito o facto de mais de metade dos 70 de chefes de Estado convidados por Putin para assistirem ao desfile comemorativo ds efeméride ter faltado à homenagem aos mortos russos.

O que preocupa os chineses é saber o que irá fazer o Japão "quando o povo chinês comemorar o 70.º aniversário da vitória na Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a agressão japonesa nos próximos meses". Ainda "é incerto como o Japão irá responder", escreve Jing.

Da Ucrânia aos jogos de cavalheiros
Para o "China Daily", os líderes ocidentais não agiram como "cavalheiros" ao "boicotarem a participação nesta celebração", estendendo assim "as sanções contra a Rússia, devido à crise na Ucrânia". Jing diz que é "uma continuação do conflito depois de o Ocidente ter excluído a Rússia do G8 logo após o início da crise Ucrânia".

E se os líderes ocidentais faltaram ao desfile militar do último sábado para punir a política externa de Putin, a Oriente o gesto deste lado do mundo foi visto como um desrespeito pelos mortos. Uma coisa é certa: daqui a uns meses Putin estará em Pequim para assistir à parada do 70.º aniversário da vitória na Guerra de Resistência do Povo Chinês.