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Desejos de continuidade, travessias no deserto e alguém com algo a dizer

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Larry, o gato de Downing Street, é uma de várias caras que permanecem após a vitória de David Cameron

HANNAH MCKAY

Depois das surpresas e das quedas, das confirmações e das ascensões, o Reino Unido restabelece-se após se ter decidido nas urnas.

É esta segunda-feira que os políticos britânicos regressam ao trabalho. Os 650 deputados eleitos nas legislativas da passada quinta-feira dirigem-se a Westminster - sede do poder legislativo - enquanto o primeiro-ministro prepara o seu segundo Governo. No entanto, os principais rostos do novo Executivo foram divulgados ao longo do fim de semana. E dão conta de um desejo de continuidade.

É certo que David Cameron já não terá Nick Clegg como vice-primeiro-ministro. O Partido Conservador teve uma maioria absoluta, ao eleger 331 deputados, pelo que os liberais-democratas deixaram de ser necessários para a governação. Dizimados nas urnas (passaram de 57 a oito deputados), iniciam a travessia do deserto após a demissão de Clegg. 

Para as funções de n.º 2 do Governo, o primeiro-ministro escolheu George Osborne, que além de manter a pasta das Finanças passa a ser Primeiro Secretário de Estado (na prática, vice de Cameron). Também mantêm as pastas Theresa May, ministra do Interior (e, como Osborne, forte candidata à sucessão do chefe do Executivo, que já anunciou que este é o seu último mandato); Philip Hammond, nos Negócios Estrangeiros; e Michael Fallon, ministro da Defesa. Os titulares do Trabalho e Pensões, Iain Duncan Smith, e da Educação, Nicky Morgan, ficam igualmente nos seus postos. Sajid Javid será ministro da Economia e John Whittingdale da Cultura.

Outro potencial sucessor de Cameron, Boris Johnson - que é presidente da Câmara de Londres e agora foi eleito deputado - não deverá ter pasta ministerial por agora. Falta-lhe um ano de mandato autárquico e diz querer dedicar-se à capital o mais que possa. Mas será ouvido pelo primeiro-ministro quanto às principais decisões políticas.

Michael Gove, que foi ministro da Educação anterior Governo, antes de passar para líder parlamentar dos Conservadores, volta ao Executivo para ocupar a pasta da Justiça. Chris Grayling será Líder da Câmara dos Comuns (equivalente a ministro dos Assuntos Parlamentares) e Mark Harper será líder do grupo parlamentar. Terá um papel importante, pois a maioria de Cameron não é muito alargada e podem surgir divergências entre deputados, nomeadamente no tocante à integração do Reino Unido na Europa.

A imprensa britânica informa que Cameron tenciona aumentar o número de mulheres na sua equipa. Hoje foram anunciadas Priti Patel para secretária de Estado do Emprego, Amber Rudd para a pasta da Energia e Tina Towell para as relações com a Câmara dos Lordes.

Oposição reorganiza-se
Na bancada fronteira da Câmara dos Comuns, os conservadores terão uma oposição que oscila entre o eufórico e o decapitado. O Partido Nacional Escocês, que subiu de 6 para 56 deputados (tendo vencido em todos os círculos eleitorais da Escócia menos três), já olha com ambição para certos privilégios parlamentares que o êxito eleitoral lhe deve assegurar, como participação em comités parlamentares e mesmo a presidência de alguns e garantia de intervenção nos debates semanais com o primeiro-ministro.

Mas que o tom de festejo não nos engane: a maior força da oposição, com 232 deputados, continua a ser o Partido Trabalhista. Traumatizado por uma derrota de dimensões inesperadas, perdeu o líder Ed Miliband e já há quem conte espingardas para a corrida à liderança. Andy Burnham (que já concorreu a líder em 2010) e Chuka Ummuna são vistos como favoritos, mas hoje há uma voz que todos querem ouvir: a de David Miliband, que há cinco anos era considerado o herdeiro e foi derrotado pelo irmão Ed.

A dirigir uma organização humanitária em Nova Iorque, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Gordon Brown fez saber que falará hoje sobre as eleições e o futuro do Partido Trabalhista. "Terei algo a dizer", informou, o que levou os jornais a especular sobre um eventual regresso a Londres para conquistar o partido que lhe fugiu há cinco anos. Outros putativos candidatos são Yvette Cooper (cujos apoiantes registaram um domínio de Internet em seu nome), Liz Kendall (que já anunciou esse desejo), Tristram Hunt ou David Lammy, todos deputados. Ainda não há um calendário definido.

No campo liberal-democrata, há um favorito para substituir Nick Clegg: Tim Farron. Mas terá de competir com Norman Lamb. Ambos são deputados, dois dos escassos oito que o partido conseguiu reeleger na quinta-feira.