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Alemanha (e não só) desafia a Grécia a avançar com um referendo

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FABRIZIO BENSCH / Reuters

Atenas já tinha admitido fazer um referendo sobre um eventual acordo com os credores. Perante o contínuo impasse nas negociações, o ministro das Finanças alemão diz que talvez seja mesmo o melhor. "Não devem ter medo da vontade do povo."

Foi chegar, falar e não hesitar. “Se a Grécia quiser fazer um referendo, poderá ser útil”, disse Wolfgang Schäuble, esta segunda-feira, à entrada para mais uma reunião do Eurogrupo, em Bruxelas. O ministro alemão das Finanças já tinha dito no sábado que não está muito crente num acordo entre credores e Grécia na reunião desta segunda-feira e agora, perante a provável manutenção do impasse, não manifesta oposição a um referendo, hipótese que já tinha sido avançada pelo próprio governo grego.

“O governo tem o amplo apoio popular, é um mandado recente, não devem ter de maneira nenhum medo da vontade do povo”, sublinhou o governante germânico. Que não está sozinho na análise: o Presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, admite possibilidade semelhante. “Um referendo sobre a presença da Grécia no euro é possível, mas isso cabe ao Governo grego decidir e não me cabe a mim julgar essa situação”, afirmou.

Mas Schulz quer ver mais dos gregos - já esta segunda-feira. “Tenho a expectativa que agora apresentem um plano de reformas mais concreto do que aqueles que fizeram até agora.”

No final de abril, e perante a hipótese de a Grécia ser confrontada com um acordo que ultrapasse as "linhas vermelhas" definidas pelo Governo de coligação liderado pelo Syriyza, Alexis Tsipras não excluiu a possibilidade de ouvir os eleitores. "Se no final eu tiver um acordo que me coloca nos limites, eu não vou ter outra solução. O povo vai decidir, obviamente sem eleições, eu quero tornar isso claro."

Certo é que esta segunda-feira é dia de sentar à mesa as partes envolvidas - novamente. De um lado reclama-se mais cedência, abertura e disponibilidade. Do outro pede-se exatamente o mesmo. A Grécia está na agenda da reunião do Eurogrupo em Bruxelas, mas apenas para que seja feito “um ponto de situação”. Apesar da falta de um acordo que desbloqueie os 7,2 mil milhões de euros de que os cofres gregos precisam, o governo de Alexis Tsipras tem mostrado otimismo quanto ao resultado da reunião

O primeiro-ministro grego disse este domingo que espera que do encontro do Eurogrupo resulte uma “declaração clara” que sublinhe os avanços conseguidos nas negociações com os credores. Uma declaração conjunta final teria o efeito de fazer os 19 ministros da moeda única falarem a uma só voz – dirigida aos mercados – que deixasse antever que gregos e credores estão mais perto de chegarem a um acordo. 

No entanto, fonte europeia disse ao Expresso que não houve desenvolvimentos “a nível técnico” durante este fim de semana e que, apesar do melhor clima de negociação com as instituições da troika, o governo grego continua a não querer fazer cedências nas chamadas “linhas vermelhas”. 

O próprio coordenador grego das negociações com a Comissão Europeia, o BCE e o FMI, reconhece que Atenas e as instituições estão ainda “politicamente distantes” quando o assunto são os cortes nas pensões e nos salários e as questões laborais. Euclid Tsakalotos disse que estas são matérias que “ficarão em aberto até ao último minuto”. 

O governo grego continua a tentar chegar a um entendimento sem quebrar promessas eleitorais e sem recorrer a mais austeridade. No entanto, fontes europeias e diplomáticas adiantam que não é possível fechar um acordo sem tocar nos dossiês das pensões, das privatizações e da reforma do mercado laboral. 

Perante toda esta situação, e quando questionado no sábado sobre se o governo alemão está preparado para um eventual incumprimento da Grécia, Schäuble respondeu assim: "Há perguntas a que um político responsável não deve responder".