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Dez pregos no caixão do nazismo

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A bandeira vermelha com a foice e o martelo flutua sobre as ruínas de Berlim em Maio de 1945

Yevgeny Khaldei / Getty Images

Faz hoje 70 anos, rendiam-se as tropas alemãs. Terminavam as hostilidades na Europa mas, no Pacífico, a II Guerra Mundial iria continuar até Agosto. Dez pontos-chave para entender o que foram os últimos dias do regime nazi.

1. Dia da Vitória  
Ainda que os soviéticos tivessem conquistado Berlim a 2 de maio e que o contingente alemão na Holanda já tivesse deposto as armas a 28 de abril, a rendição só foi assinado a 7 de maio de 1945 pelo general Alfred Jodl, em nome do Governo alemão. As hostilidades deveriam cessar até à meia-noite do dia seguinte e o acordo só deveria ser divulgado a 9. No entanto, correspondentes de guerra ocidentais deram a notícia dia 8, seguindo-se festejos em massa nos países aliados. Na URSS mantiveram-se as celebrações para a data combinada, pelo que o feriado do Dia da Vitória na Europa (França, Reino Unido, etc) ficou a dia 8, enquanto ainda hoje na Rússia se celebra o fim da Grande Guerra Patriótica no dia seguinte.

Aviões soviéticos de ataque ao solo Ilyushin Il-2 Sturmovik sobrevoam Berlim em abril de 1945

Aviões soviéticos de ataque ao solo Ilyushin Il-2 Sturmovik sobrevoam Berlim em abril de 1945

AFP / Getty Images

2. Desorientação 
É num ambiente de Götterdämmerung (crepúsculo dos deuses) wagneriano que se dá a queda da Alemanha nazi. Reina o que hoje chamaríamos má gestão: Hitler e o seu estado-maior não sabem se hão de usar um caça a jato revolucionário do qual foram construídos 1400 exemplares para intercetar os bombardeiros aliados ou como avião de ataque ao solo; a 5 de março 600 tanques, incluindo os temíveis Tigre II, abrem uma brecha de 30 km nas planícies húngaras, mas no dia seguinte acaba-se-lhes a gasolina, são abandonados pelas tripulações e os soviéticos ficam com o caminho aberto para Budapeste, Praga e Viena. 

3. Conspiração 
A iminência da derrota abre brechas ao mais alto nível na cúpula nazi. A 29 de abril, Hitler, depois de se casar com Eva Braun no “bunker” da chancelaria, manda prender o ministro do Interior, Himmler, e demite o ministro da Aviação, Goering, ambos por traição, ou seja por tentarem negociar a paz com os anglo-americanos. Nenhuma destas ordens teve efeito prático e no dia seguinte Hitler, Goebbels e respetivas famílias suicidar-se-ão. Na véspera, Mussolini e Claretta Petacci tinham sido presos e mortos por guerrilheiros no norte da Itália.

4. Bunker 
A obsessão de Hitler pelas instalações monumentais remonta aos primeiros dias da II Guerra Mundial. Para acompanhar a invasão da URSS mandara construir um complexo de 80 edifícios, a Wolfsschanze (Cova do Lobo) em Rastenburg (Prússia Oriental, hoje Polónia). Abandonadas estas instalações em novembro de 1944 perante o avanço soviético, Hitler passou a usar o “bunker” berlinense construído junto à Chancelaria (também pesadamente fortificada). As instalações eram auto-suficientes (30 salas, dois pisos) e à prova de bomba (cinco metros de profundidade, quatro metros de betão) mas isolavam, ainda mais, o Fuhrer da realidade. A sua última aparição pública será a 20 de abril. 

5. Pontes do Reno 
Nada ilustra melhor o colapso da máquina de guerra nazi que o episódio das pontes sobre o Reno. Todas tinham sido mandadas demolir, mas a 7 de março soldados americanos descobrem uma ponte ferroviária intacta em Remagen, conquistam-na e entrincheiram-se na margem direita do rio, repelindo todos os contra-ataques, que incluíram disparos de mísseis balísticos V2. De surpresa ou sob cobertura aérea, os aliados não tardarão a passar o rio em dezenas de locais, passando a dominar 320 km da margem oriental do Reno a 31 de março.

6. Bandeiras brancas 
Apesar da ordem para resistir e dos fuzilamentos para dar o exemplo, a partir de 11 de abril, quando o IX Exército britânico chega ao rio Elba e a Magdeburgo, multiplicam-se casos de cidades alemãs que se rendem sem luta. Só os regimentos fanatizados das SS continuam a combater até à morte.…

Prisioneiros de Auschwitz, campo libertado pelos soviéticos em fevereiro de 1945

Prisioneiros de Auschwitz, campo libertado pelos soviéticos em fevereiro de 1945

Votava / Imagny / Getty Images

7. Campos de morte
Os soviéticos já tinham libertado Auschwitz, na Polónia, no princípio do ano, mas para os soldados anglo-americanos chega a hora da descoberta do lado mais negro do nazismo: os campos de extermínio. A 15 de abril a II Divisão Blindada britânica chega a Bergen-Belsen, campo de concentração perto de Hannover. Nas valas comuns descobre 40 mil cadáveres. Dos 38 mil prisioneiros libertados, 28 mil morreriam nos dias seguintes por estarem irremediavelmente enfraquecidos pela fome e doença. 

8. Corrida entre aliados
A tomada das travessias do Reno põe Berlim ao alcance dos anglo-americanos mas a 14 de abril o supremo comandante Eisenhower, para desespero dos britânicos, declara que a prioridade não é tomar a capital, mas sim consolidar os flancos norte (Dinamarca e Noruega) e sul (Áustria e Baviera). Para Estaline fica o objetivo mais simbólico da guerra: Berlim. Entretanto, receando represálias soviéticas, gera-se um movimento de rendição em massa de tropas alemãs aos anglo-americanos.

9. Potsdam
Em Ialta, a 11 de fevereiro, os aliados tinham acordado a estratégia do assalto final à Alemanha nazi e a arquitetura da Europa do pós-guerra. Atingido este objetivo, voltarão a reunir-se a 17 de julho, em Potsdam, para concertar o cerco ao Japão (que se renderá em setembro, após os ataque nucleares de Hiroshima e Nagasaki). Estaline é o único sobrevivente do encontro anterior, já que Truman substitui Roosevelt, falecido a 12 de abril, e Atlee subtitui Churchill, derrotado nas eleições de julho.

10. Armas inúteis
No final da guerra os alemães têm caças a jato (ME 262) mas não os suficientes para recuperar a superioridade aérea. Inventam a primeira espingarda de assalto, a Sig 44, conciliando a precisão de uma espingarda com o poder de fogo de uma pistola-metralhadora e na qual Kalashnikov se inspirará para criar a AK-47. Contudo, só algumas unidades a receberão. Têm mísseis de cruzeiro (V1) e mísseis balísticos (V2) mas já quase não há rampas para os lançar nem sistemas de pontaria. Tanques como o Tigre II têm mais blindagem e poder de fogo que qualquer concorrência aliada mas são poucos, e já não há combustível para os abastecer. Para estas e muitas outras armas surgidas durante o crepúsculo nazi aplica-se o aforismo: muito poucas e muito tarde…