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Aviação. Acidentes têm diminuído, mas os recentes são mais mortais

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Destroços do avião da Germanwings que caiu nos Alpes

FOTO REUTERS

Os números provam ou não a perceção de que há mais acidentes aéreos? Apesar das tragédias que têm marcado os últimos tempos, a taxa de acidentes tem vindo a diminuir nos últimos anos e em 2014 foi "historicamente baixa". Mas "qualquer acidente é de mais".

Raquel Albuquerque (texto) e Sofia Miguel Rosa (infografia)

De ano para ano há cada vez mais aviões a cruzarem os céus todos os dias pelo mundo inteiro. Ao longo de 2014 registaram-se 38 milhões de voos, mais cinco milhões do que em 2009. Em média, houve 104 mil aviões por dia a descolar e a aterrar em diferentes partes do mundo, transportando 3,3 mil milhões de pessoas. Só que apesar de no ano passado ter-se registado um recorde no número de voos, 2014 foi também o ano com menos acidentes.

Olhando para as tragédias aéreas que marcaram o ano passado, a perceção pode no entanto ser contrária à que os números transmitem. O desaparecimento do voo da Malaysia Airlines em março, a queda de um Boeing da mesma companhia abatido na Ucrânia em julho e a queda do avião da AirAsia no Mar de Java em dezembro ficaram na memória. Apesar de as histórias continuarem presentes, as estatísticas da Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA) mostram que, na verdade, 2014 teve uma taxa de acidentes aéreos "historicamente baixa". Outro dos dados da IATA mostra que a taxa de perda total de um avião no ano passado foi de um em cada 4,4 mil milhões de voos.

"Qualquer acidente é de mais e a segurança é sempre a primeira prioridade da aviação. Apesar de a segurança aérea ter estado nas notícias em 2014, os dados mostram que a aviação continua a melhorar o seu desempenho de segurança", diz Tony Tyler, diretor-geral e CEO da IATA, no comunicado da instituição que dá a conhecer as estatísticas mais recentes, publicadas no início do mês.

Só que apesar do registo de menos acidentes, as estatísticas mostram que em 2014 o número de mortos foi três vezes superior ao do ano anterior. Registaram-se 641 vítimas, enquanto em 2013 os acidentes aéreos provocaram 210.

Os números da IATA não contam com a queda do voo MH17, abatido na Ucrânia, por ficar de fora dos critérios de classificação daquilo que é tido como um acidente aéreo. Se estivesse incluído, às 641 vítimas juntar-se-iam mais 298 mortos. Do total de acidentes, 16% foram fatais - uma proporção abaixo da média de 22% dos últimos cinco anos.

Álvaro Neves, diretor do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves (GPIAA), lembra que nos principais acidentes de 2014 estiveram envolvidos aviões grandes, dos quais não resultou nenhum sobrevivente, o que pode explicar o aumento do número de mortos, apesar da diminuição dos acidentes.

"Com o aumento de voos da aviação civil nos últimos anos, se analisarmos bem há um rácio de acidentes extremamente baixo, sobretudo ainda se for comparado com outro tipo de transporte", aponta. "Continuo a considerar que a aviação civil é segura."

E a confiança nas companhias low cost? O acidente com o Airbus A320 da Germanwings, que se despenhou nos Alpes franceses provocando a morte a 150 pessoas, foi o primeiro com um avião de uma companhia low cost na Europa e isso traz outra pergunta. Poderá este acidente ser capaz de abalar a confiança nas companhias de baixo custo?

"Independentemente de ser ou não uma low cost, isso não interessa. Elas têm de seguir as mesmas regras de segurança que uma companhia regular. Nesse prisma não há que ter receio", responde Álvaro Neves.

No mesmo sentido, também o comandante António Ribeiro, da Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea, sublinha a diferença. "Esta low cost [Germanwings] não tem nada que ver com outras low cost. É uma filial da Lufthansa, tem todas as condições impostas pela Lufthansa."

Questionado sobre se existe algum risco acrescido nas companhias de baixo custo em termos de segurança, o porta-voz da ICAO (Organização Internacional da Aviação Civil), Anthony Philbin, diz ao Expresso não existirem diferenças. "As companhias aéreas, low cost ou outras, devem aderir às regulamentações da aviação civil de cada Estado. Os padrões da ICAO e as práticas recomendadas são usadas pelos Estados quando desenvolvem ou aplicam as suas regulamentações locais, de maneira a assegurar que regras e procedimentos semelhantes são postos em prática onde quer que os aviões voem. A harmonização global é importante para assegurar uma segurança e eficiência gerais na rede aérea de todo o mundo."

Sobre o assunto, Álvaro Neves lembra que uma companhia low cost consegue oferecer preços mais baratos devido à sua estrutura e ao "rácio de otimização" dos serviços. "Está fora de causa que uma companhia não cumpra os mesmos critérios de segurança de uma companhia regular."

Álvaro Neves acrescenta que ao longo de um dia "até podem morrer na Europa 150 pessoas em acidentes de viação", mas "o impacto direto" de uma catástrofe aérea consegue surtir um efeito muito forte nas pessoas.

E como é que se recupera a confiança? "A aviação é a forma mais segura de transporte. Acidentes anómalos desta natureza são a exceção e não a regra", responde o porta-voz da ICAO. "O compromisso do nosso sector em relação à segurança, assim como os resultados de segurança que atingimos de ano para ano, são as melhores ferramentas que temos para salvaguardar a confiança pública na nossa rede."

Artigo publicado a 25 de março de 2015