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Piloto. "Algo de muito dramático aconteceu para o avião ter ficado abaixo da altitude de segurança"

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A zona do acidente, onde já se iniciaram os trabalhos de procura e recuperação dos destroços. Uma caixa negra já foi encontrada

FOTO REUTERS

Comandante com mais de 8000 horas de voo em Airbus A320 diz ao Expresso que só um problema estrutural, como por exemplo uma porta mal fechada ou algum acontecimento inesperado no interior do aparelho, poderá explicar o acidente desta terça-feira de manhã com o avião da Germanwings. Morreram 150 pessoas.

Carlos Abreu

Algo de grave terá acontecido dentro do avião ou com a estrutura do A320 da Germanwings para que os pilotos tenham sentido a necessidade de iniciar uma descida de emergência sobre os Alpes, afirma ao Expresso o comandante António Reis, da Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea, afastando, desde logo, uma possível falha de motores.

"Sabemos que o avião pediu ajuda e que logo a seguir iniciou uma descida de emergência, mas esta, que levou cerca de nove minutos, foi perfeitamente normal. Algo de grave aconteceu", afirma este piloto com mais de 8000 horas aos comandos de um A320, acrescentando: "Tudo o que altere a estrutura normal do aparelho e possa alterar a pressurização, como por exemplo uma porta mal fechada, deverá ser entendido como um problema estrutural".

"Os Alpes são o ponto mais alto da Europa e existem cuidados redobrados quando voamos nestas rotas. Se tivermos de fazer uma descida de emergência ao sobrevoar uma região montanhosa, esta deverá ser feita sempre para territórios mais planos", explica António Reis. "Algo de muito dramático aconteceu para que tenham feito uma descida de emergência para cima dos Alpes e tenham ficado abaixo da altitude de segurança que nesta zona é de 16.800 pés (5121 metros)", insiste.

Segundo o site Flight Radar, o avião descolou de Barcelona rumo a Düsseldorf às 10h02 (menos uma em Lisboa) e atingiu a altitude cruzeiro (38.000 pés ou 11.582 metros) cerca de 25 minutos depois. Pelas 10h32 iniciou uma descida de emergência a uma cadência de 3200 pés (975 metros) por minuto sem se afastar da rota. Os destroços do A320-211, incluindo uma das caixas negras do avião da companhia low cost Germanwings, já foram localizados a cerca de seis mil pés de altitude (1829 metros) na região da Barcelonette, no sul dos Alpes franceses.

"Se fosse uma falha de motores, um A320 teria de continuar a voa acima da altitude de segurança dos Alpes", explica ao Expresso o comandante António Reis. "Uma falha de motores não é um daqueles problemas que obrigue a fazer uma descida de emergência. Nesses casos desce-se devagarinho e eles desceram depressa", sublinhou.

António Reis recusa ainda estabelecer qualquer paralelismo entre o acidente ocorrido esta terça-feira de manhã e queda de um A320-216 da AirAsia no Mar de Java, a 28 de dezembro do ano passado, quando fazia a ligação entre Surabaya, na Indonésia, e Singapura. Desde logo porque as condições meteorológicas eram completamente diferentes. "O clima estava bom e o teto alto", afirma o piloto, reiterando que era possível voar sem especiais limitações.

Ao Expresso, o piloto com mais de 8000 horas aos comandos de um A320 defende ainda que, apesar de este modelo ter cerca de 25 anos, é um avião "relativamente jovem", onde "todas as peças são mudadas". "É um aparelho sofisticado com radares meteorológicos de altitude. É um avião topo de gama."