A Manuel Alegre pergunta-se se apoia ou não a greve geral. Ele responde o óbvio: que a compreende. E visita às centrais sindicais, num sinal político que não podia ser mais claro. Mas o guião das contradições entre o PS e o Bloco de Esquerda já está escrito e não devemos deixar que a realidade perturbe uma boa ideia feita.
Se se perguntasse a Cavaco Silva ele responderia que a greve é um direito. Seria suficiente. E mais não se pediria, porque nunca mais nada se pede a Cavaco Silva. O seu guião também está escrito: é ponderado e nunca diz muito do que pensa.
A Manuel Alegre pergunta-se como votaria o Orçamento. Coisa a que nenhum candidato a presidente, por não ser candidato a deputado, responderia. Mas logo se escreve: está com um pé dentro e outro fora. A Cavaco não se pergunta nada. Nunca disse o que realmente pensa deste orçamento. Apenas que deveria ser aprovado. Porque Cavaco não tem de ter opinião sobre nada. Mesmo que, não as tendo, nunca se engane. E raramente tenha dúvidas.
A Alegre pergunta-se sobre as suas relações com o Partido Socialista. Cavaco está isento de explicar as suas interferências crónicas, a partir de Belém, na vida interna do maior partido da oposição, de que a participação directa na escolha do representante do PSD nas negociações do Orçamento, numa clara violação do seu dever de neutralidade, foi o último exemplo. Cavaco é independente, mesmo que nunca o seja.
A Fernando Nobre escrutina-se as rendas da sua sede de campanha. A Cavaco nunca se pergunta quem financia e financiou as suas campanhas. Nem as suas relações antigas com o BPN e a protecção descarada que garantiu a Dias Loureiro. Cavaco Silva é sério, apesar das companhias que se lhe foram conhecendo. Está escrito e que ninguém se atreva a pô-lo em causa.
A todos os candidatos se fazem perguntas sobre as suas incongruências, as suas contradições, os seus erros passados, presentes e futuros. Cavaco passeia sem nunca ter tido de explicar os seus delírios sobre umas escutas que imaginou e que depois negou sem realmente negar.
Cavaco faz, há décadas, política sem debate, propaganda sem perguntas difíceis, erros sem censura mediática. E basta ler os jornais para perceber que a tradição vai continuar a ser o que era.