Siga-nos

Perfil

Expresso

projeto saude 2025

Saúde vai evoluir de um direito para um dever

  • 333

Luis Pereira mostra como funciona o Teleye, um instrumento português "único no mundo" para fazer videoconsultas

António Pedro Ferreira

Futuro: Tratar vai exigir que o médico e o doente sejam parceiros, 'ligados' pela tecnologia. A vida será longa, mas a longevidade não será gratuita. As doenças da velhice vão dominar e ficar de fora do hospital, lugar hi-tech para os casos complexos e que fogem à normalidade. A 25 de abril, o Expresso vai iniciar o Saúde 2025, um projeto para debater, durante um mês, as grandes questões do sector daqui a dez anos.

Uma das poucas certezas que temos na vida: vamos todos ser doentes. Quando esse dia chegar, seja qual for a idade ou a doença, teremos mais em comum: querer estar em casa. O desejo vai ser possível para quem for capaz de participar no tratamento da doença e esse futuro não só está pouco longínquo, como a tecnologia já começou a antecipá-lo. 

Os primeiros passos devem ser dados para capacitar os cidadãos para as escolhas que vão ter ao dispor. A literacia em Saúde, reduzida em Portugal, é uma peça essencial no puzzle da medicina do futuro. Sem ela será impossível, por exemplo, estar em casa sob 'controlo remoto'.

A autogestão de problemas de Saúde está cada vez mais próxima e as ferramentas não param de aumentar. Das aplicações para telemóveis ou tablets até aos sensores, há hoje múltiplos acessórios para a prática de uma espécie de 'medicina-bricolage'. E estamos só no princípio. 

O volume de dados biométricos vai aumentar 50 vezes nos próximos cinco anos, estima a empresa de consultoria em dados clínicos Drbonnie360. A IDC, outra consultora, prevê a chegada de 135 milhões de dispositivos do género. Juntar-se-ão muitos outros para uso médico exclusivo: do diagnóstico à cirurgia robotizada. 

Nas Faculdades de Medicina, os alunos já começaram a aprender a 'anatomia' do novo mundo. Mudará a relação médico-doente? Quem acredita que sim, está igualmente convicto de que será para melhor. Está garantido pelo modo como vivemos - com saneamento e alimentos acessíveis, por exemplo - que a longevidade será cada vez maior. Dentro de dez anos, nenhum país terá uma esperança média de vida inferior a 50 anos e homens e mulheres viverão, pelo menos, até aos 73. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), seremos 8,1 mil milhões, 10% dos quais com mais de 65 anos. 

Com uma população envelhecida, a Saúde sofrerá uma grande pressão. Os especialistas afirmam que o prognóstico é evidente: quem sobreviver ao cancro, ao AVC ou ao enfarte, as principais causas de morte, continuará a ter de enfrentar as doenças crónicas, como a diabetes ou a artrite reumatoide; ou mentais, como Alzheimer. 

São expectáveis pequenos passos que vão dar um grande avanço à medicina, mas continuarão a faltar curas. Desde logo para as neoplasias. A OMS estima que 31 mil portugueses vão receber um diagnóstico de cancro em 2025. Projeções dos registos oncológicos regionais  acrescentam que os cancros da mama, cólon e pulmão vão continuar na liderança, no entanto, os tumores malignos do sangue (linfoma) e da pele (melanoma) vão 'alastrar', e já daqui a cinco anos.

A oncologia não trará surpresas muito positivas, mas as restantes doenças, sobretudo as associadas ao envelhecimento, também não. "As patologias crónicas vão afetar oito em cada dez europeus com mais de 65 anos", afirmam os autores do "Livro Branco Europeu para a Saúde", apresentado na semana passada pela farmacêutica Abbvie e pela Philips.   

Desejam os responsáveis do sector que os doentes crónicos, tendo uma patologia para a vida, aprendam a vigiar-se, permitindo o tratamento em ambulatório. Os hospitais, cada vez mais sofisticados, tenderão a ter as portas abertas para o que é urgente ou complexo. As alternativas ao modelo serão poucas, pois o financiamento e os recursos humanos vão ser, ainda mais, escassos. 

"Todos temos de participar na mudança. Vemos a saúde como um direito, mas terá de ser um dever, que exija responsabilização", defende Vincenzo Atella, professor de Economia em Roma e um dos autores do documento europeu. Os doentes não vão ser penalizados por falta de comportamentos saudáveis, vão ter uma palavra sobre o que querem para a sua saúde. 

"O último século foi dos médicos e este vai ser dos doentes. Se atuarem sobre o tabaco, o álcool, o sedentarismo e a obesidade será suficiente para prevenir a maioria das doenças que afetam os europeus", garante Walter Ricciardi, relator do "Livro Branco Europeu". O caminho é longo.

50

mil milhões de objetos do quotidiano estarão ligados entre si. Em 2025, telefones, sensores, implantes e outro tipo de ferramentas funcionarão em rede. Segundo a organização norte-americana Pew Research Center, em 2013 este universo incluía apenas 13 mil milhões de dispositivos interligados

8,1

mil milhões de pessoas vão coabitar no planeta em 2025 e  800 milhões terão mais de 65 anos. Estima a Organização Mundial da Saúde (OMS) que venham a existir 31 idosos por cada 100 jovens com menos de 20 anos 

63%

das mortes na próxima década serão notificadas acima dos 65 anos. O cancro liderará a mortalidade nos países desenvolvidos, enquanto as doenças infecciosas serão as mais letais nas áreas em desenvolvimento. Só em Portugal são esperados 31 mil novos doentes com cancro. A OMS afirma que a deteção precoce aliada ao tratamento eficaz somente curará um terço das neoplasias 

Artigo originalmente publicado na edição do Expresso de 28 de março de 2015