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Gerir menos recursos com mais tecnologia

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A tecnologia vai ser fundamental no diagnóstico 
e no tratamento

Martin Schutt

Desafio: apertos orçamentais não devem impedir modernização dos hospitais do país.

As despesas anuais com saúde nos países da Europa Ocidental vão crescer 2,4% até 2018, segundo previsões  da consultora Deloitte. Portugal não deverá acompanhar esta tendência. Os constrangimentos orçamentais continuarão a pressionar os profissionais e os utentes do sector. Fazer mais com menos vai continuar a ser a regra. 

Marta Temido, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, faz um ‘prognóstico reservado’ sobre o que vai acontecer no sector. “A dimensão dos desafios que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) enfrenta vai obrigar a escolhas, explícitas ou implícitas, que são difíceis e não vai haver mais dinheiro para a Saúde.” 

Se dúvidas existissem, o próprio ministro da Saúde, Paulo Macedo, afirmou na última semana, na conferência do Saúde 2025, organizada pelo Expresso, que “as estruturas de saúde vão ter de ter menos custos para poderem ter tecnologias com custos maiores”. Ou seja, Portugal terá de continuar a fazer um esforço de investimento em tecnologias da saúde, mesmo que não o faça à mesma velocidade de outros países. 

A nível mundial não restam dúvidas que a inovação nas tecnologias da saúde será uma constante. O estudo da Deloitte “Previsões para 2020 da Saúde e Ciências da Vida” prevê que as vendas do sector vão saltar de 363,8 mil milhões de dólares para 513,5 mil milhões de dólares em 2020.

Perante este dilema de conter a despesa e, ao mesmo tempo, ter de investir para manter a atualização tecnológica dos serviços de saúde, Marta Temido diz que “valerá a pena debater sinceramente de que forma podemos preservar aquilo que queremos e atingir as metas que ambicionamos”. 

Hospitais sem paredes?

Voltando ao evento do Expresso da semana passada. Os gestores sentaram-se para debater o futuro e reuniram algumas ideias centrais sobre o que terá de mudar nos hospitais. Gestão integrada da doença (colocando o doente no centro dos cuidados); melhor organização interna; adaptação da oferta ao perfil das doenças crónicas (como já acontece para a doença renal e para infeção VIH); e mais trabalho em equipa foram algumas das transformações consideradas imprescindíveis. 

Os doentes, cada vez mais informados e exigentes, tenderão a ser parceiros dos sistemas de saúde. “As redes sociais e as comunidades de pacientes online vão crescer exponencialmente e tornar-se em ricas fontes de informação das ‘multidões’ (em lógica crowdsourcing)”, aponta o mesmo estudo da Deloitte.

Por outro lado, o doente crónico, que necessita de cuidados de várias áreas médicas, deverá ter essa assistência de forma coordenada. A abolição dos serviços dentro dos hospitais é tida como essencial. O doente é internado e são os vários especialistas que se deslocam até ele, por exemplo, sob a coordenação dos médicos de medicina interna. Os especialistas ingleses chamam-lhe hospitais sem paredes. 

Nos Estados Unidos, a escassez de especialistas médicos e enfermeiros, fez com que a Mercy, a quinta maior rede católica de hospitais, tivesse criado o programa SafeWatch que funciona como uma central de telemedicina que monitoriza 450 doentes de 25 unidades de cuidados intensivos, 24 horas por dia em alguns estados norte-americanos. O resultado foi a redução do índice de mortalidade entre 15 e 20% e a redução de 20% das ocupação de camas.

Em Portugal, a ideia de ter hospitais mais ‘abertos’ aplica-se também à sua relação com as unidades de saúde envolventes, como hospitais menos diferenciados e centros de saúde. Haverá unidades de referência, que recebem os casos mais complicados e dão apoio aos centros mais generalistas. A estratégia está em marcha no Serviço Nacional de Saúde, por agora, para as doenças mais complexas, como o cancro. 

Mesmo com todas as transformações que vão acontecer — com a tecnologia a permitir, por exemplo, ter o médico a trabalhar em vários áreas ao mesmo tempo —, o hospital continuará a ser indicado para doentes graves e urgentes. Os restantes devem continuar a ser assistidos nos cuidados de proximidade ou domiciliários.

Luís Campos, presidente da Conselho Nacional para a Qualidade em Saúde, defende a descentralização dos cuidados. “Temos de incentivar a hospitalização domiciliária, nas áreas em que tem benefícios, e a criação de centros ambulatórios que congreguem no mesmo espaço os médicos assistentes do doente (de medicina familiar e de medicina interna), com outros especialistas, exames, cirurgias de ambulatório e hospital de dia, num ambiente seguro que permita a realização de tratamentos complexos.”

Saber o estado de saúde no relógio

Nas últimas semanas e no âmbito do projeto Saúde 2025, o Expresso pediu a quatro dos seus jornalistas para avaliarem, minuto a minuto, o seu estado de saúde. Recorrendo a um smartphone e a aplicações como o SHealth da Samsung, medimos tensão arterial, níveis de stresse, horas de sono e exercício físico, avaliando assim as diferenças e os ritmos num jornal que, sendo diário no digital, fecha igualmente à quinta e à sexta os principais cadernos do semanário. Os resultados — apesar de não relevarem um padrão entre os quatro jornalistas analisados (entre os quais diretores) — mostram o que poderá ser o futuro da saúde a curto prazo, com medições ao minuto, reportes diários e grandes quantidades de dados. Num futuro onde a prevenção será essencial para antecipar doenças e onde os médicos poderão estar permanentemente em contacto com os seus doentes, há questões relevantes. Como serão protegidos os dados pessoais? É um risco receber dados sobre a nossa saúde sem o acompanhamento de um médico? Como vão responder os hospitais e unidades de saúde aos novos — e mais informados — doentes? Algumas das respostas a estas e outras perguntas estão no projeto Saúde 2025, que pode acompanhar no site do Expresso.