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Utentes e tecnologia: motores de mudança

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Nicolau Santos, diretor-adjunto do Expresso, moderou uma das sessões de debate com António Raposo de Lima, presidente da IBM, José Martins Nunes, administrador do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, e Salvador de Mello, presidente do Grupo Mello

Luis Barra

Conferência Saúde 2025: Prestação de cuidados vai mudar em tudo. O cancro será a maior ameaça.     

É uma conclusão unânime: tudo vai ser diferente na Saúde daqui a uma década. Os cidadãos, os profissionais, as infraestruturas, as terapêuticas, a organização ou o financiamento não serão os mesmos dos nossos dias. Os doze responsáveis de unidades com intervenção na prestação de cuidados que, na quarta-feira, participaram na conferência do Expresso para antecipar como será a Saúde em 2025 foram unânimes na convicção de que a mudança é inevitável e imparável. 

A evolução terá diferentes velocidades em cada vertente, mas terá os mesmos motores: tecnologia e população. “Quem vai guiar a Saúde até 2025 será o cidadão, dado ser consumidor de produtos e de tecnologias de saúde (...). O sistema estará acelerado e a informação à distância um clique.” A afirmação é do ministro da Saúde, Paulo Macedo, que acrescenta que “o utente deixará de ser passivo para ser ativo a regular a sua saúde”. 

Informados, os cidadãos vão aumentar o escrutínio sobre a medicina. “40% da nossa prática não tem evidência científica e isso vai mudar”, garantiu Luís Campos, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. A consequência será a hiperespecialização: “Profissionais a saber cada vez mais sobre cada vez menos.” 

O trabalho em equipa será mais necessário e incluirá o doente e a tecnologia. “Uma peça fundamental vai ser a medicina digital — a ubiquidade do médico — e terá mais impacto do que a medicina personalizada”, disse o presidente do IPO-Porto, Laranja Pontes. “A questão do acesso às tecnologias é central. Há 20 anos ninguém pensava pagar a conta da água com o telefone e hoje é vulgar”, reforçou Sérgio Ferreira, diretor da Divisão de Negócio Empresarial da Samsung Portugal. 

Presidente do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, José Martins Nunes, prevê uma “medicina de precisão”. A IBM e o Centro de Cancro MD Anderson, da Universidade do Texas, têm um projeto inovador. Um computador com capacidade para aprender está a reunir milhões de dados de doentes com cancro. 

“O Watson sintetiza informação do doente e dá acesso à evidência clínica publicada e às opções de tratamentos recomendadas e priorizadas e faz o acompanhamento do tratamento”, revelou Daniel Gomez, radiologista oncológico do MD Anderson. “Há tanta informação que os médicos não têm tempo para se manterem sempre atualizados e o Watson permite isso.” 

Para o presidente da IBM, António Raposo de Lima, “o Watson está a acelerar a medicina personalizada; é o início de era cognitiva, com informação em segundos”. Na sua visão, “estamos a pouco tempo de uma análise ao sangue ser suficiente para mudar hábitos e evitar 60% dos cancros”. 

E, se o cancro vai ser uma ameaça, a genética será uma arma poderosa. “O futuro não é daqui a dez anos, é agora. Já estamos a assistir às mudanças. Vamos ver mais tratamentos com base em testes genéticos, inclusive no cancro”, salientou Purificação Tavares, administradora do CGC Genetics. 

“Hoje já temos 300 doenças para as quais há painéis [de testes].” Falta um passo decisivo, para o qual a médica fez um apelo: “Recolher o ADN dos doentes terminais de cancro para que a família possa beneficiar.” A expressão genética, como se manifesta a nossa sequência genética, será o ‘princípio ativo’ dos tratamentos, olhando para o que é particular em cada um. 

 “A noção de hospital vai alterar-se por completo. O hospital não pode viver sozinho. Teremos hospitais de fim de linha e centros de cuidados 
de proximidade, que vão referenciar os casos mais complexos”, defendeu o presidente da José de Mello Saúde, Salvador de Mello. 

O grupo “vai ligar a CUF a 50 clínicas do país através da telemedicina até ao final de 2016” e o próprio Serviço Nacional de Saúde (SNS) está a criar centros de referência. Há ainda avanços, por exemplo, no registo informático, com o cancro (inicialmente só da pele) a ter notificação obrigatória. 

Portugal tem dado outros passos na realidade sem papel. “O sistema informático já acompanha o utente ao longo da vida: do boletim da grávida até ao óbito”, salientou Artur Trindade Mimoso, das Serviços Médicos Partilhados do Ministério da Saúde. 

O progresso terá custos maiores. “Deve ser discutido se o financiamento do SNS deve ser indexado ao PIB”, sugeriu o responsável de Coimbra. Para os privados, “o pagamento baseado no ato médico vai evoluir no sentido dos resultados”, antecipou Gustavo Barreto, diretor de Estratégia e Novos Negócios da Médis. A ideia tem o apoio dos Mellos e do ministro. 

Diretor do Programa Gulbenkian “Inovar em Saúde”, Jorge Soares colocou o ‘dedo na ferida’. “A população portuguesa tem uma grande iliteracia em Saúde e os mais velhos são infoexcluídos. Não podemos ter tecnologias que as pessoas não vão saber usar.”

Factos

5
anos é o tempo suficiente para duplicar o conhecimento médico

40%
dos atos médicos não são baseados na evidência científica

247
milhões de descarregamentos de aplicações de saúde para smartphones e tablets foram feitos no ano passado nos EUA

80%
dos médicos gostavam que os doentes monitorizassem os parâmetros básicos em casa. E 70% dos utentes aceitariam estar ‘ligados’ ao médico

6
meses a um ano é o tempo 
que os responsáveis do Centro 
de Cancro MD Anderson, no Texas, estimam ser necessário para libertar 
a plataforma geral do Watson