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Pensar o País com Música de Fundo

1 ideia para compor o país: o canto das sereias loucas

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Tiago Miranda

Fernando Ribeiro é a mais recente das personalidades da Gestão, da Política e da Música que o Expresso convidou para responderem à questão: Que ideia tem para compor o país? Conheça a reflexão do vocalista dos Moonspell, nesta rubrica do projeto Pensar o País com Música de Fundo, do Expresso e do Deutsche Bank, que pode acompanhar no nosso site.

"Que Portugal anda desafinado, todos sabemos. Aliás, é público que o nosso primeiro-ministro, esse barítono de papo cheio, nos quer levar em cantigas, mas estes navegadores de agora, toda a nossa massa cinzenta e empreendedora, já não cai no canto da sereia. É preciso mudar o disco, apanhar o ritmo. Na verdade, o fatalismo do Fado que exportamos ora com capa alegre, ora com sorriso triste, ou açucarado com outrora nas fazendas do Brasil, é coisa que nos colou à pele e já não sai. Seremos então todos fadistas de vocação e destino, teremos todos este F tatuado na testa? O hip-hop deixou de ser social, a maioria pelo menos, e passou a ser conto de fadas romântico para damas e princesas. Dali nem uma pedra sairá para afugentar as moscas do charco. A música clássica é a das tardes do CCB para burguês ver e tentem entrar numa Gulbenkian ou num S. Carlos de jeans e tatuagens ao léu, e todos os olhares ainda se voltarão para vocês, com exactamente há quinze anos atrás quando fui ver o Fausto de Gounod, porque gosto, porque me encanta e porque fui para ver e não para ser visto.

 

As feiras por esse país fora encerraram-se na brejeirice do tem fio o nabo, ao som de concertinas televisionadas, onde se dão mais subsídios em cartão que a todo o teatro de autor em Portugal. O que interessa é o cabaz no fim, o vermelho das chouriças e das caras e das pernas das bailarinas Brasileiras. cheias de frio em Melgaço. Que mais? O novo Pop ruma até ao passado e somos todos Heróis do Mar outra vez, todos Variações outra vez mas sem a acutilância, apenas letras inofensivas do fui ali e já volto ao Bairro Alto, apesar da crise os copos ainda são baratos, e os amigos altamente impressionáveis. Por fim entregámos o título de cantores de intervenção às pessoas mais betas do mudo, para as quais está sempre tudo bem, que dizem sempre o correcto, que estão no sítio certo á hora certa fingindo-se de parvos e vítimas para uma geração que muito mais que lutar, quer fazer a luta sentada, com os amigos ao lado, algo suave, que não seja muito alto, que dê para um pezinho de dança mas que fique tudo na mesma, quando discutimos os resultados da mania entre imperiais e tremoços no Cais.

 

Sou suspeito, muito suspeito mas acho que falta ao país a dinâmica do Rock em todo os seus sentidos: o Punk, o Metal, o Stoner, que não sendo também eles intervenção pura, existem enquanto sociedade organizada de insatisfeitos limitada, uma panelita de pressão que pode ensinar muito acerca de como se faz as coisas com pouco, sem a mãozinha por baixo do estado e dos institutos que tal como na política, se recusam a experimentar a mudança radical e foram construindo um bloco central de música, povoado por burgueses e seus clientes, um lobbying que nos faz andar em círculos, mas sem tentar morder a própria cauda para sentir se estamos vivos.

 

Por isso: mudar a dinâmica, berrar, tocar rápido, ir ao fundo das coisas é o que necessitamos: uma nova música, um novo paradigma, uma nova era. Sim vão votar no PS e no PSD outra vez, sim comprem sempre os mesmos discos, enganem-se com fados abrasileirados ou com kizombas ocidentais. O segredo da política em proveito próprio é manter tudo como estava. Eu continuarei a acreditar no Rock como sinónimo de mudança, nos partidos que nunca governaram, na CDU ao poder, porque não? O que temos a perder? Às vezes temos de levantar o rabo das cadeiras dos auditórios, mandar fora toda a tralha publicitária com que nos enchem as mãos nos festivais e pegar na foice, no martelo, nas guitarras altas e bom som e gritar a plenos pulmões: basta! É tempo de acertarmos o ritmo, melhorar o conteúdo e deixarmos de ser ratinhos na roda. Pergunto outra vez, o que temos a perder?

 

Let's rock'n'roll!!!"

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