Siga-nos

Perfil

Expresso

Pensar o País com Música de Fundo

1 ideia para compor o país: nem o silêncio se ouve

  • 333

D.R.

Luís Represas é o quarto entre as 30 personalidades da Gestão, da Política e da Música que o Expresso convidou para responderem à questão: Que ideia tem para compor o país? Conheça a reflexão do músico, numa rubrica do projeto Pensar o País com Música de Fundo, do Expresso e do Deutsche Bank, que pode acompanhar no nosso site.

Nem o Silêncio se ouve. Nada. O Som parou. Porque o Som anda. Caminha pelas veias da vida que se comove e rejubila. O Som tanto corre lento como caminha rápido, tanto é frio e impiedoso como tíbio e frágil, ou quente e vulcânico. Mas não para. Pelo menos nunca o ouvi parar. Porque se parasse tudo pararia. Porque o Som empurra tudo, voa tudo, navega tudo. O Som não para porque nunca lhe disseram como. Se a Terra não para, se o Universo não para, se o Som afasta as galáxias num não parar eterno, se o Som enaltece o Criador, porque o Criador disse Fiat Sonus, como é que o Som parou?

Triste e mal tratado, escorraçado e estripado pelo anti tudo, o Som abateu-se sobre si próprio. E é tão grande que não se pode a ele mesmo. Está parado esperando-se. À espera de se mover. Mas o anti tudo, rapina atenta, não deixa que se mova. Porque quer as veias da vida estradas secas e vazias. E o Som por onde anda deixa coisas. E essas coisas juntam-se e aprendem com o Som a soar. E entendem-se cavalheirescamente, com alguma cerimónia. Não se atropelam, andam em frente. O Som vai passando, as coisas vão sendo mais sonoras, mais corpo só, mais relógio que se articula em infinitas peças e termina em hora certa. Mais Música. A Música é a Borboleta do Som. Aos milhares esvoaçam e toldam os sentidos do anti tudo que em si mesmo tropeça e se desmembra no seu próprio Silêncio. Aí se quer, enterrado sem lajedo nem sinal.

Volto ao Som imóvel. Tenho no bolso uma corda. Deu-ma o Futuro, uma criança da rua esperta como um gato que não se contenta. Não se contenta, ponto. Aproveito o momento em que o anti tudo se auto elogia e bajula. Patético. Ato a corda à mão do Som e puxamos por ele. A criança e eu. Incrédulo o Som levanta-se num golpe de rins e ensaia o primeiro passo. Prontamente, a primeira coisa cai. Ouve-se. Outro passo e a segunda. Ouve-se também. O caminho da veia em frente, para andar e andar em andamentos que as coisas vão criando à medida que se somam. Música, e eu danço e a criança dança e o Som lá vai. Deixando cair mais coisas que se abraçam a nascer mais Música. Tanta Música.

Sem lajedo nem sinal o anti tudo parou. E assim ficou. Até quando?