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Pensar o País com Música de Fundo

1 ideia para compor o país: deixemo-nos embalar pela possibilidade de alternativas

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Marcos Borga

Gabriela Canavilhas é a terceira das 30 personalidades da Gestão, da Política e da Música que o Expresso convidou para responderem à questão: Que ideia tem para compor o país? Conheça a reflexão deputada e pianista, numa rubrica do projeto Pensar o País com Música de Fundo, do Expresso e do Deutsche Bank, que pode acompanhar no nosso site.

"Começo com o início do Prélude à l’Apré-Midi d’un Faune de Debussy em mente. Nada como o solo de flauta do Prélude para descrever o tempo que vivemos, neste momento em que se sente o prenúncio do fim de um ciclo político e o princípio de um novo tempo. Foram 4 anos, punitivos e moralizantes na substância, acanhados e rígidos na forma. Este solo de flauta, que desconstruiu harmonia e a métrica formal, ficou para a história da música como o início do modernismo, como a marca do rompimento definitivo das amarras do tonalismo. Foi o princípio da abertura para os novos caminhos da música ocidental no século XX. Sigamos pois o flautista em direção ao futuro e deixemo-nos embalar pela possibilidade de alternativas.

O discurso de desvalorização dos políticos ganhou pontos nos últimos anos. É um caminho perigoso. Porque valoriza, em vez deles, os businessmen, os entrepreneur: “Money money money, always sunny, in a rich man’s world” soam ainda os ABBA, e vejam o que o domínio da economia sobre a política fez ao mundo: a desregulamentação do sistema financeiro internacional sem rosto e sem pátria e o ataque às dívidas soberanas, com o consequente empobrecimento propositado de milhões de europeus para salvaguardar juros e mais-valias - uma espiral especulativa que ciclicamente rebenta e penaliza sempre os mais fracos.

Liza Minelli cantara que “Money makes the world go around…the word go around…” sobre as cinzas de outra grande crise financeira.

Mas Cosi fan tutte, diz o povo sobre os políticos. O mesmo dizia Lorenzo da Ponte, libretista de W. A. Mozart nesta sua ópera deliciosa. Só que, na ópera, Tutte é feminino. Para ele, elas são todas iguais na dissimulação. Pois, mas quando ouvimos as árias feministas da personagem Despina, revoltamo-nos com as mortes de mulheres às mãos dos companheiros no nosso Portugal de brandos costumes.

É um país de contradições, o nosso. Caramba, já cantava Sérgio Godinho: “Ó senhor da loja (…) Está-se p’rá aqui a dançar na corda bamba, sem saber para que lado é que se cai, nem com que pé é que se samba, Sei Lá, Sei Lá”. Tal e qual: muitas vezes não se soube e dançou-se com o pé errado. Para muitos, significou o desemprego e a emigração – ao todo, mais de 600 mil portugueses. Para outros, aumentou a riqueza a ponto de nascerem mais 85 milionários em Portugal, desde a crise de 2011.

Celebrou-se o Fado e o Cante Alentejano, mas desvalorizou-se a Cultura enquanto instrumento político. Cantaram-se Aleluias e Grândolas, dentro e fora do Governo, e ficou para a história uma interpretação fora de tom, inesquecível. José Afonso teria adorado.

Termino com J. S. Bach, porque a sua música, apesar de quase toda sacra e dedicada a exaltar Deus, sempre me deu vontade de dançar. É a música mais cerebral e simultaneamente mais epidérmica jamais escrita. Com a Partita nº 1 BWV 825 tocada em piano por Maria João Pires pode-se imaginar uma ordem cósmica que dá sentido à vida. É disso que Portugal precisa: estrutura, ritmo, energia, humanismo, profundidade nos objetivos e regras claras que evitem a dissonância – mas, dentro delas, espaço para a inovação. Bach tem tudo isto. Para além de um irresistível apelo à vida, que Portugal já tem. Só precisa do resto."