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Expresso

Pensar o País com Música de Fundo

“Cada um de nós faz parte de uma composição”

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Rui Duarte Silva

Casa da Música acolhe o projeto ‘Pensar o País com Música de Fundo’, um  debate para discutir o país aos olhos da cultura.

Já dizia Wagner: “A imaginação cria a realidade.” Este sentimento do compositor alemão (do qual se ouviu um recital no final) ecoou durante toda a conferência ‘Pensar o País com Música de Fundo’ na Casa da Música, no Porto. A instituição, que se encontra a celebrar dez anos, foi o palco natural do arranque deste projeto do Expresso em conjunto com o Deutsche Bank, que pretende encontrar novas formas de pensar e ver o país ao ritmo das referências musicais.

Foi num auditório da imponente estrutura desenhada por Rem Koolhaas que Pedro Norton, CEO do Grupo Impresa, deu o pontapé de saída nesta discussão ao revelar que não sabe tocar “nenhum instrumento musical”, uma das suas grandes desilusões. Acabaria por direcionar a sua energia criativa para outras vertentes, “como a escrita”, que acompanha sempre com música. “Fiz duma frustração uma fonte de inspiração”, confessou. No final, desafiou os oradores a terem a “ousadia de percorrer novos caminhos e participar num novo tipo de debate.”

Quartetos improváveis

Um apelo a que Bernardo Meyrelles não se mostrou indiferente. O presidente do Deutsche Bank em Portugal destacou o “carácter inspirador” que a música pode ter e como fazer analogias com a situação de Portugal “faz todo o sentido.” Se o país é uma orquestra, o responsável acredita que temos que estar em harmonia para tudo funcionar melhor. “Cada um de nós integra uma composição que tem que ser tocada por todos com mestria, empenho e paixão. Daí resultará um país próspero e de futuro”, garantiu.

O ato seguinte coube a quatro personalidades de áreas completamente distintas. Um quarteto composto pelo presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, pelo escritor e professor universitário Jaime Nogueira Pinto, e pelo maestro Rui Massena, com moderação do diretor do Expresso, Ricardo Costa. 

A “enorme capacidade da cultura em aproximar gerações” foi defendida pelo autarca nortenho no início do debate. Ao chamar a atenção para a efemeridade dos planos culturais em Portugal, Rui Moreira defendeu que a cultura é como “a lâmpada do Aladino, pois às vezes não é preciso uma nova. Basta esfregar”. Mas a necessidade de só querer fazer acordos de fundo para algumas medidas mereceu duras críticas: “Estou farto de ouvir falar de consensos. Há que fazer fraturas quando elas são precisas.”

Jaime Nogueira Pinto optou por traçar um retrato geopolítico, com centro em Portugal, para dar contexto às nossas peculiaridades sociais. Uma vez que não estivemos tão expostos a violência como a grande parte dos povos europeus, “nunca tivemos tanto esse sentido do trágico, que se reflete em muita música.” Situações que ajudam a explicar porque somos um país que vive muito “do líder, do maestro” e onde “não é a união que faz a força mas a força que faz a união.”

Investimento na perceção

Perante as referências à cultura, Rui Massena explicou que preferia a palavra criatividade, uma vez que “tem mais a ver com pessoas que vão contra a prudência, que são ativas”. Ao comparar a arte de governar a uma partitura, “que leva muitos anos a conhecer”, insurgiu-se contra a falta de planos estruturados de quem está no poder, por não darem a continuidade necessária às valias culturais. A exemplo do Guimarães — Capital Europeia da Cultura 2012, onde dirigiu uma orquestra, o maestro perguntou mesmo: “Se não se mantêm os modelos de sucesso, que modelos temos?”

O caminho poderá passar por “abandonar as zonas de conforto e ir à procura de novos públicos”, segundo Rui Moreira, até porque “nos sítios mais improváveis é possível fazer alguma coisa”. O autarca acredita que se deve atrair o mecenato com a capacidade de gerar “emprego e riqueza” dentro da área da cultura, bem como mais cosmopolitismo. “Sem copiar outros”, fez questão de realçar. Claro que “a sociedade não pode mudar de um dia para o outro”, afiançou Jaime Nogueira Pinto, que não se coibiu de mencionar a “profunda ignorância histórica da esmagadora maioria dos nossos dirigentes políticos”.

Rui Massena mostrou-se em sintonia com os colegas e vincou ser necessário perceber que “a cultura não vive sem subsídios porque não pode dar lucro. É um investimento na qualidade de perceção de um povo”. Por isso, mais do que “pagar tudo” o Estado deve “provocar dinâmicas” e agitar a sociedade civil. Para que os artistas não estejam “isolados no palco”.

Como Wagner pensou o país

No final da conferência Expresso/Deutsche Bank assistiu-se a um tema e variações de uma sonata de Beethoven e um excerto de “Tristão e Isolda” de Richard Wagner. Trata-se de uma das obras mais famosas do compositor alemão, ouvida pela primeira vez em Munique, a 10 de junho de 1865, e baseada na versão de Gottfried von Straßburg da clássica história. É uma narrativa trágica de amor que granjeou enorme apreciação e continua a ter profunda influência na cultura ocidental. Mais controverso é o pensamento político do músico, que é visto por muitos académicos como tendo um carácter antissemita. Citado pelo “Deutsche Welle”, o investigador Jens Malte Fischer diz que Wagner foi um dos responsáveis por levar a discriminação judaica de “bares e panfletos” para o domínio artístico da classe média. Sem esquecer que era o compositor favorito de Adolf Hitler e do regime nazi. Contudo, há outro lado menos conhecido e explorado das opiniões do alemão que surpreende. O compositor foi influenciado pelas revoluções liberais europeias de 1848 e, nesta fase, defendia o fim da ordem política e social estabelecida, sendo um dos líderes na agitação revolucionária de Dresden, em 1849, que o obrigou a abandonar o país. Uma visão esquerdista que foi mudando à medida que o idealismo de Wagner na mudança se transformou em pessimismo, com grande influência das ideias do filósofo e compatriota Arthur Schopenhauer. A utopia social do compositor transformou-se em algo mais conservador e acabou por moldar a forma como pensava o país.