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Pensar o País com Música de Fundo

1 ideia para compor o país: uma canção sem melodia é um acompanhamento à procura de rumo

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Ana Maria Baião Correia

Rui Massena é uma de trinta personalidades da Gestão, da Política e da Música que o Expresso convidou para responderem à questão: Que ideia tem para compor o país? Conheça a reflexão do maestro, numa rubrica do projeto Pensar o País com Música de Fundo, do Expresso e do Deutsche Bank, que pode acompanhar no nosso site.

"Por princípio quando a música toca apenas consigo ouvir. Formação profissional. Afinal exige-se isso de mim e fica-me bem dizê-lo...

Aceito perfeitamente a música como um acto de entretenimento, de ocupação de tempo livre através do desenvolvimento dos sentidos, da estética. Acho até que, seja qual for o seu uso, é sempre uma nobre companhia: uma boa música a pontuar uma conversa ou acto de amor. A educação do gosto faz-nos mais exigentes mas mais interessantes.

A minha dificuldade está em aceitar a música no fundo, no fundo de uma sociedade, sem a importância que eu gostaria que tivesse e, ainda pior, sem a dignidade que lhe deveria ser reconhecida.

Pensar um País é certamente uma tarefa hercúlea e para o fazermos, com o mínimo de acerto possível, seria preciso cruzar dados e integrar raciocínios no conhecimento do todo. É aqui que começa o problema. Sem a visão do todo não conseguimos obter a forma da obra, nem tão pouco optar pelos planos sonoros em que distinguimos a melodia da harmonia, as linhas principais das secundárias, no fundo, as opções que um Maestro tem que tomar quando confrontado com a interpretação de uma grande obra musical. Quando a parte pretende assumir a plenitude do todo, sucumbe por não ter a perspectiva global: uma canção sem melodia é um eterno acompanhamento à procura de rumo. A parte só encontra a sua função na articulação com o todo. E sem esta articulação, uma sucessão de partes é apenas uma sucessão de partes; para perfazerem um todo, necessitam de integração.

Da mesma forma, devemos pensar a Criatividade não como gestos circunstanciais mas articulados com a sociedade, implica assumi-la como património de todos e não entretenimento das elites, implica ter a ambição de posicioná-la como estruturante e não relegá-la a acto isolado.

Acabo agora de ir ao leitor colocar o Idílio de Siegfried de Wagner. É impossível ouvi-lo e falar ao mesmo tempo, contudo, posso escrever e pensar no quanto gostaria que este compositor aqui tivesse vivido para que eu, os meus filhos, pais e avós ainda se lembrassem de histórias da sua vida numa determinada cidade, e de como a estreia de determinada obra marcou quem a ouviu. Gostaria ainda que na escola se estudasse o tal compositor, que ainda hoje nos orgulha pelo que a sua música demonstra da nossa identidade nacional. E também que os empresários celebrassem a música fruindo-a em complemento dos seus labores diários. Por outras palavras, gostaria que houvesse familiaridade com a música; para tal, temos que construir a nossa tradição!

Que orgulho! Aquilo que eu quero é que a música de fundo seja a harmonia que sustenta a melodia. Aquilo que eu quero é que o meu país seja o berço do orgulho na criatividade das suas gentes e que a discussão seja levada para o que só a existência nos proporciona. Eu produzo, tu produzes, ele produz... Nós produzimos e somos Portugal. Música de Fundo em vez da música no Fundo."