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O Meu Futuro

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Sofisticação das competências fará a diferença

Espaços onde a informalidade prevalece têm como objetivo promover a criatividade e inovação, soft skills cada vez mais pedidas pelos empregadores. No futuro, locais de trabalho como os escritórios da plataforma online Etsy, em Nova Iorque, serão cada vez mais comuns, seguindo o exemplo pioneiro de empresas como a Google ou Facebook

Getty Images

Estabelecido o impacto das soft skills na economia portuguesa, é hora de perceber em que competências apostar no horizonte mais próximo, na terceira parte da análise ao estudo do Expresso e da McDonald’s

O futuro está já ao virar da esquina. Mais próximo do que imagina. Prestes a ter impacto direto na sua vida. Com as soft skills em primeiro plano.

As competências mais informais vão continuar a cimentar a sua relevância no panorama académico e económico. Mas quais vão assumir maior importância e como vão evoluir? Um retrato complexo, tal como estas competências. E aqui fica a primeira palavra a reter — complexas.

São as soft skills menos simples e com mais estrutura que vão prevalecer no panorama económico que se avizinha de acordo com o estudo “As soft skills em Portugal: Presença, intensidade e relevância”, apresentado pelo Expresso e pela McDonald’s como parte do projeto “O Meu Futuro: as minhas competências”, que temos vindo a analisar ao longo das duas últimas edições. Se em Portugal, como já revelámos, são as competências mais simples que imperam, o país deve agora enfrentar um processo de transição para promover as de cariz mais sofisticado — exigidas pelas atividades com maior capacidade de criação de valor e emprego qualificado do futuro.

“Existem, de facto, soft skills que nos potenciam como profissionais, competências que se associam ao desempenho de funções mais complexas e exigentes e nos levam a atuar perante situações inesperadas. Mas acredito que o ponto-chave está nas soft skills mais complexas, relacionadas com atividades mais exigentes e criativas, ou seja, na capacidade de comunicação e liderança”, atira Gonçalo Costa Andrade. Tal não significa que certas soft skills vão desaparecer. Para o diretor da Cloud Division da IBM, competências como a “capacidade de gestão por objetivos, de gestão de equipas e liderança, assim como de comunicação escrita e a comunicação presencial” serão sempre de elementar importância. “E há uma razão válida para isso: é que hoje é impensável contar com um colaborador que não as tenha. São imprescindíveis.”

De acordo com o estudo desenvolvido pela Augusto Mateus & Associados, as competências mais relevantes no futuro serão aquelas que incorporam mais atributos e componentes, que exigem maior interação entre elas e que possuem maior margem de progresso. Serão parte integrante na afirmação competitiva das cidades, das regiões e dos países através do aumento da eficácia nos processos de criação de riqueza, o que reflete uma maior capacidade de conversão de condições em resultados. Ou seja, as soft skills serão condicionadas pela evolução do perfil das atividades económicas, associadas a certos tipos de funções e atividades. “O que distingue as mais relevantes daquelas que vão perder importância são as competências sociais, as relações, a capacidade de gerar empatia e comunicar com eficácia”, na opinião do diretor comercial e de marketing da GEFCO Portugal, José Costa Faria. Com a ressalva que “não há uma fórmula única para todas as atividades, profissões e funções”. Mas há vetores de análise que permitem traçar um horizonte provável.

Desenvolvimento tecnológico
Neste caso, o aprofundamento da especificação das soft skills permite conjeturar uma segmentação mais pormenorizada das tendências de futuro, aproximada ao respetivo grau de sofisticação. Retrato gizado em função de dois fatores: o desenvolvimento tecnológico e a costumização e diferenciação.

O primeiro está associado ao nível de inovação técnica incorporada no desempenho de tarefas ou de funções, tendo implícito os princípios orientadores da economia do conhecimento, da era digital, da fragmentação produtiva e do impacto que a tecnologia possui na eficiência produtiva. Já o segundo relaciona-se com as dinâmicas específicas de processos adaptativos que têm em conta a relação com os consumidores, a criatividade, o desenvolvimento de soluções e a identificação de novas formas de colaboração e cooperação, num contexto de interação que estimula a inovação. É o ponto de partida apresentado pelo estudo para perceber o que vai mudar nas seis competências-base — comunicação, decidir/resolver problemas, gerir-se a si próprio, liderança, profissionalismo e trabalho em equipa — tendo em conta a evolução social e económica.

“É evidente que as transformações no mundo do trabalho e da organização empresarial, induzidas sobretudo por inovações tecnológicas, determinarão a cada momento as competências mais exigidas”, garante o antigo ministro da Educação, Roberto Carneiro. O professor da Universidade Católica não tem dúvidas que “temos perdido tempo demais numa hesitação doentia em mudar os ambientes educativos, o papel dos docentes, a sua formação” e “as formas de avaliação dos alunos”. Estas continuam a “relegar os percursos comportamentais para um plano inexistente”. Sem esquecer que “não haverá mudança sustentável sem um empenho sério dos docentes e das famílias das crianças sobre quem repousa a responsabilidade pelo nosso futuro coletivo”.

Importa destacar o papel cada vez mais essencial das soft skills para os atores competitivos das economias de pequena dimensão (caso da nossa) e como elas se podem assumir como um fator de destaque. O papel do ensino não deve ser subestimado, sobretudo na implementação do paradigma da aprendizagem ao longo da vida, que postula que a articulação entre soft e hard skills ganhará relevância acrescida na valorização plena de uma formação académica sólida. Umas competências não podem viver sem as outras e qualquer política ou medida tem que ter este princípio em conta. “Se pudesse utilizar uma imagem, diria que é preciso ter noção que são as competências técnicas ou hard skills que nos permitem chegar a uma entrevista de trabalho, mas são as soft skills que nos ajudam a ficar com o lugar”, aponta Gonçalo Costa Andrade.

“Os portugueses têm características que deveriam colocar-nos no quartil superior das soft skills”, acredita José Costa Faria. “A facilidade com que interagimos e comunicamos, a abertura aos outros, a nossa secular mundividência deveria destacar-nos.”

Apesar da evolução registada nos últimos anos, os resultados ainda não são suficientemente consistentes para dizer que passámos de nível. Em termos macroeconómicos, há que perceber o papel que as soft skills podem assumir no progresso social, na medida em que materializam competências pessoais capazes de influenciar a afirmação do indivíduo e da sociedade.

Agora, como nunca, é altura de apostar nestas competências para que estejam em sintonia com o futuro. Para Roberto Carneiro, “se soubermos aliar os nossos pontos fortes de competências a um maior rigor de gestão” estaremos em condições “de liderar o campeonato mundial das soft skills 4.0, tal como elas se apresentam como sustentáculo de uma economia 4.0”. Num universo económico onde tecnologia, sofisticação e complexidade são conceitos já do presente, qualquer vantagem competitiva é de aproveitar.

Artigo originalmente publicado no Expresso de 25 de fevereiro de 2017