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O Meu Futuro

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“As soft skills são decisivas”

Luis Barra

O secretário de Estado do Emprego, Miguel Cabrita, deixa a sua opinião sobre o papel que as competências podem desempenhar no desenvolvimento da economia

Miguel Cabrita, Secretário de Estado do Emprego

Olhando para o futuro, há um debate intenso sobre a importância das soft skills vs. hard skills. Qual deve ser a aposta?
A aposta não pode ser numas em detrimento de outras, tem de ser no equilíbrio entre respostas de educação e formação que potenciem a aquisição de competências dos dois tipos. As chamadas soft skills são hoje cada vez mais decisivas, mas não dispensam a solidez da formação, académica ou outra, em questões mais substantivas — pelo contrário, podem potenciar o seu exercício. É evidente que existem várias nuances neste equilíbrio, desde logo em função dos segmentos do mercado de trabalho que estejam em causa. Por exemplo, nos segmentos mais qualificados dos jovens, as soft skills são decisivas e podem fazer a diferença na transição para o mercado de trabalho. Mas muitas vezes este défice de competências é confundido com falta de experiência profissional. São questões distintas, porque as soft skills também podem e devem ser objeto de treino, em todas as fases da vida. Dito isto, de facto, a inserção em contextos de trabalho potencia quer as chamadas soft skills quer as competências profissionais mais tradicionais. É por isso que a promoção de mecanismos de aprendizagem em contexto de trabalho, seja do lado das políticas públicas seja do lado das empresas e dos próprios trabalhadores, é tão importante. Por fim, não podemos esquecer-nos de que uma parte muito significativa da nossa população adulta não concluiu sequer o ensino secundário e que, mesmo entre os jovens, apesar de todos os progressos, há ainda assimetrias. Muitos jovens NEET, por exemplo, não acabaram o secundário e somam a um perfil de baixa escolarização a escassez de experiência profissional. Continuamos, também, a ter um nível elevado de desemprego de longa duração. Nestes casos, a aquisição de soft skills tem também um grande valor acrescentado, porque favorece o regresso ao mercado de trabalho das pessoas.

Há ainda alguma assimetria regional no contributo das soft skills para o PIB. O que é que pode ser feito?
As variações no peso das soft skills para a produtividade e para o crescimento económico, quer do ponto de vista regional quer ao nível sectorial (e que se manifestam também na comparação internacional), decorrem, em parte, do grau de modernização e do ritmo de mudança das dinâmicas organizacionais de cada sector, de cada região. Do mesmo modo, há ainda heterogeneidade no valor atribuído às chamadas soft skills, sobretudo se considerarmos as competências mais complexas deste âmbito (comunicação, liderança), mas a tendência será para o crescimento da relevância atribuída a este tipo de competências, cuja definição precisa e aprofundamento de referenciais continua a ser objeto de debate e aprofundamento — como, aliás, sucede com todos os referenciais de competências. Assim, nesta fase, é fundamental afinar os instrumentos de mensuração do contributo das soft skills para a criação de valor acrescentado. Estes instrumentos serão também críticos para integrar estas competências nos diagnósticos e na antecipação de necessidades de competências.

Opinião originalmente publicada no Expresso de 25 de fevereiro