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O Meu Futuro

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Competências mais simples dominam

De acordo com o gráfico do estudo do Expresso e da McDonald’s, os serviços técnicos e científicos são dos que mais contribuem em termos absolutos para o Valor Acrescentado Bruto português, atrás dos financeiros e à frente das imobiliárias. O que quer isto dizer? Que são dos sectores onde as soft skills têm mais impacto direto na economia

Ana Baião

Na segunda análise ao estudo da McDonald’s com o Expresso sobre o impacto das soft skills em Portugal, perceba quais os sectores que mais contribuem para a economia

Soft skills, competências inatas; hard skills, competências formais. Dá quase vontade de jogar ao “Quem é Quem” das definições económicas com base em estrangeirismos, mas não se atemorize que a resposta é muito simples. Aliás, está logo na primeira frase (cada expressão inglesa corresponde à portuguesa) o básico para se inteirar desta realidade cada vez mais premente para o retrato económico do país.

Regressados da primeira vez ou novatos, sejam todos bem-vindos à segunda parte da trilogia do Expresso dedicada ao estudo da McDonald’s — “As soft skills em Portugal: Presença, intensidade e relevância” — desenvolvido pela Augusto Mateus & Associados como parte do projeto “O Meu Futuro: as minhas competências”. Após uma edição dedicada ao impacto das soft skills na economia do país, tendo como ponto de partida (mas não de comparação direta) o Reino Unido, desta feita expomos como as competências estão distribuídas pelos sectores da economia e quais as áreas que se destacam de acordo com as métricas inovadoras apresentadas no trabalho.

O estudo — que divide as soft skills em seis (comunicação, decidir/resolver problemas, gerir-se a si próprio, liderança, profissionalismo e trabalho em equipa) — sustenta que a nível nacional se verifica que a presença das competências na economia portuguesa é mais intensa nas mais simples (que incorporam menos componentes e exigem menos interacção) e menos focada nas mais complexas. Tal acontece como resultado da estrutura produtiva e do perfil de habilitações e qualificações da população ativa portuguesa.

Profissionalismo na frente
Um “delay”, como lhe chama Maria do Rosário Frias. Para a diretora de recursos humanos da José de Mello Saúde, esta diferença entre competências justifica-se “diretamente pela evolução empresarial e económica”, com o facto de “as soft skills mais complexas estarem diretamente ligadas a fatores criativos” e, finalmente, por “as menos complexas estarem altamente correlacionadas com as habituais hard skills.”

A nível sectorial regista-se uma predominância clara do profissionalismo em atividades económicas com uma estrutura produtiva mais programada e previsível, como a pesca (48,5%) e a agricultura (46,9%), onde procedimentos e horas são prioritários. Por outro lado, denota-se uma menor incidência em áreas com uma forte componente de criatividade e improvisação, caso dos serviços técnicos e científicos (4,3%) ou da informática (7,9%).

Para o diretor-geral da COTEC, Jorge Portugal, “surpreendente” é que “o coeficiente de gerir-se a si próprio, ou seja, eficiência, proatividade, ética, integridade e investir na formação profissional, seja muito diferente entre sectores”. Algo que choca Carlos Abrunhosa de Brito, presidente da Agência para o Desenvolvimento das Indústrias Criativas, para quem “estando diretamente relacionadas as capacidades de aplicação das soft skills ao maior grau de habilitações, não deixa de continuar a surpreender que tendo Portugal a população mais habilitada de sempre, não deixe de revelar níveis baixos no benefício dessa nova realidade.” Ainda assim a relação entre ensino e competências está bem estabelecida, com impacto claro na distribuição regional e sectorial. Não será um choque verificar no gráfico sobre o estudo nesta página que a área metropolitana de Lisboa lidera em todos estes indicadores e fica também à frente na contribuição das soft skills; enquanto o Algarve é, por sua vez, a que aborda de forma menos expressiva para a economia as competências consideradas.

Diferenças ligadas (mas não exclusivamente) às características estruturais dos diferentes sectores mais presentes em cada área, cujo volume de emprego, perfil dos recursos humanos e natureza das tarefas desempenhadas têm influência direta na distribuição das competências, seja nos sectores primário, secundário ou terciário. Se parecerá óbvio que neste último é que as soft skills estão mais concentradas, tal nem sempre se verifica. Pelo contrário. Tendo em conta todos estes fatores e nuances, é possível constatar que atividades como os serviços financeiros, telecomunicações ou indústria farmacêutica são dos que mais se destacam, enquanto do outro lado do espectro encontramos a agricultura e silvicultura, os correios ou o comércio e retalho. “Admito que fiquei surpreendida ao verificar a intensidade das soft skills em sectores industriais pesados”, atira, por exemplo, Maria do Rosário Frias. Importa realçar que a presença de competências per se pode não ter o mesmo reflexo em proporção face à economia portuguesa, em virtude das diferentes dimensões das atividades. Daí que o imobiliário, a saúde e o comércio, sejam mais relevantes para o Valor Acrescentado Bruto do que as suas soft skills fariam supor, ao contrário do que se regista no audiovisual e na indústria extrativa.

As características inerentes a cada sector bastam para explicar as diferenças? A acreditar no estudo e na opinião prevalecente, provavelmente não. Carlos Abrunhosa de Brito acredita que enquanto houver “um desajustamento entre as necessidades e as capacidades existentes, entre sectores e soft skills, continuará a verificar-se uma diferença entre a presença das soft skills e os sectores.” Quando o fosso entre a oferta de trabalho e as competências necessárias está a aumentar (o skill gap), para Jorge Portugal, a resolução encontra-se numa mistura entre políticas públicas e investimento privado. “Uma estratégia de capital humano alinhada com a estratégia da empresa.”

Artigo originalmente publicado no Expresso Economia de 18 de fevereiro de 2017