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Soft skills acrescentam 7,9% de valor ao país

QUASE NO CÉU: decorria 1966 quando Eusébio e Nobby Stiles disputavam esta bola nas meias-finais do Mundial em Inglaterra. Duas equipas com skills diferentes. Os anfitriões, uma equipa experiente nestas andanças, ganhou o troféu e o investimento equivalente hoje a €25 milhões teve um impacto local: mudou infraestruturas e ajudou a trazer competências mais complexas. Nos portugueses foi notório o profissionalismo e a resolução de problemas para chegar longe, soft skills que ainda hoje são as mais predominantes no pais

Central Press

Portugal ainda está na fase embrionária do reconhecimento das soft skills como instrumento fundamental de desenvolvimento e exemplos como o Reino Unido podem oferecer novas perspectivas

Ponto prévio: antes de enveredar por este texto importa esclarecer o que são exatamente soft skills. Porque se as definições podem ser várias e ainda não se encontrou uma universalmente aceite, é cada vez mais consensual que vale a pena aprender esta expressão. Por oposição a hard skills (as competências técnicas e académicas mais tangíveis, formalmente adquiridas), soft skills referem-se a um “conjunto de qualidades e atributos necessários para ter sucesso a nível profissional. Estas competências abrangem uma pluralidade de capacidades, umas relativas à combinação da eficiência e da eficácia nos mundos do trabalho e dos ambientes profissionais e outras que dizem respeito à resiliência das atitudes e comportamentos”.

A definição pertence ao estudo “As soft skills em Portugal: Presença, intensidade e relevância” — desenvolvido pela Augusto Mateus & Associados e que apresenta um dos primeiros retratos abrangentes destas competências no panorama económico português — que postula ainda que estas competências se dividem em seis campos: comunicação, decidir/resolver problemas, gerir-se a si próprio, liderança, profissionalismo e trabalho em equipa. O objetivo é perceber a verdadeira dimensão do seu impacto e dar às soft skills novo estatuto como fatores explicativos dos níveis de produtividade dos países como, por exemplo, as diferenças que marcam o sul e o norte da Europa. Claro que as realidades estruturais são completamente distintas e comparar diretamente países como piores ou melhores é um exercício falacioso à nascença. O que não impede de olhar para outros sistemas e perceber o que podemos aprender com eles.

Um papel desempenhado nesta narrativa em particular pelo Reino Unido, onde a McDonald’s (promotora deste estudo) já tinha estado na origem de outro trabalho dedicado ao tema — “The value of soft skills to the UK economy”. “O Reino Unido colocou na agenda política a necessidade de medir as competências (quer as hard quer as soft) enquanto fator relevante para o aumento da produtividade e competitividade do país, das suas regiões, sectores e empresas. As estatísticas, metodologias e métricas para tratamento da informação estão até certo ponto consolidadas”, atira Norma Rodrigues, presidente da Associação Industrial Portuguesa.
Investimento na formação

Em terras de sua majestade, os últimos 15 anos têm sido pródigos em análises cada vez mais sistematizadas dos fatores que contribuem para a competitividade da economia, sobretudo para perceber o que separa o país dos seus grandes competidores, como os EUA, a França ou a Alemanha, em termos de produtividade. Um retrato marcado por algumas disparidades regionais, com destaque para Londres, que concentra quase um quarto (23%) da presença destas competências. A nível educativo, implementou-se uma estratégia que reconhece desde cedo o papel das soft skills no aumento da eficácia das hard skills, como competências inatas a serem validadas e desenvolvidas ao longo da vida e que facilitam a entrada no mercado de trabalho. Uma realidade reconhecida pelas autoridades e que poderá beneficiar “do maior desenvolvimento de áreas como o empreendedorismo, ambiente, sustentabilidade, ecoeconomia, mais apelativas ao desenvolvimento destas competências” segundo Manuel Laranja, professor de inovação e empreendedorismo no ISEG. Fatores que contribuem para o aumento do impacto das soft skills até 2025, quando deverá chegar aos £127 mil milhões (€149 mil milhões), mas que ainda assim deixam no skill gap (diferença entre os empregos existentes e as competências necessárias) mais de meio milhão de trabalhadores. Custo: perdas anuais estimadas em £8,4 mil milhões (€9,9 mil milhões).

Estágio inicial
Se já chegou até aqui (com a expressão soft skills na ponta da língua, porventura), prepare-se para a entrada de Portugal em cena. Literalmente, porque só recentemente estas competências começaram a ser mais reconhecidas pelos diferentes atores. Estamos num “estágio ainda inicial do desenvolvimento destas competências na nossa economia” concede o presidente da Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional, Gonçalo Xufre da Silva. É um facto que, de acordo com o estudo, a presença na economia portuguesa é mais intensa nas soft skills mais simples — que incorporam menos componentes e exigem menos interação — com profissionalismo, decidir/resolver problemas, gerir-se a si próprio e trabalho em equipa a corresponderem a 82% das competências identificadas. Na distribuição geográfica, o destaque vai para a área metropolitana de Lisboa, acima da média nacional na maioria dos casos.

Algumas são características que o calão português celebrizou como desenrascanço, o que não surpreende Manuel Laranja. Acontece é que “a criatividade e improvisação, quando desenquadradas ou desacompanhadas de outro tipo de competências têm uma contribuição muito menor.” É aqui que a educação pode fazer a diferença. Para o professor seria importante “dar mais relevo ao ensino e às metodologias didáticas que privilegiam o desenvolvimento destas competências” e reconhecermos “como no Reino Unido, que as ciências naturais e exatas não podem continuar a ser vistas pela sociedade como as arenas favoritas”. Ou seja, realçar mais as ciências sociais. Do lado institucional, Gonçalo Xufre da Silva revela que o Quadro Nacional de Qualificações já inclui as soft skills e que a sua sistematização no ensino está prevista, enquanto “o processo de desenho das qualificações em função dos resultados de aprendizagem também deu os primeiros passos”. O responsável não tem dúvidas que “a aposta continuada no ensino profissional irá ajudar a fazer a diferença”. Sem esquecer o saldo positivo do sistema educativo que provocou uma melhoria qualitativa no capital humano. Registam-se, ainda assim, desajustes entre recursos humanos e competências necessárias na empresas, com impacto negativo para a economia.

Pela primeira vez em Portugal estamos perante uma abordagem académica que permite entender de forma mais tangível a relevância das competências informais para a economia. Como recorda Norma Rodrigues, “importa trabalhar para a consciencialização crescente da importância das soft skills”. Identificados os problemas e as mais-valias, resta definir um caminho.

Panorama das competências Olhar global e números do estudo

1,57
é a percentagem que representa 
o custo económico dos nem-nem (mão de obra em idade ativa que não tem emprego, não procura 
e não estuda) para o PIB português 
e cuja falta de competências contribui negativamente 
a nível macroeconómico. 
No Reino Unido é de 0,6%

88,5
mil milhões de libras 
(€103, 79 mil milhões) é quanto representam as soft skills 
para o valor acrescentado bruto 
da economia britânica de acordo com o estudo “The value of 
Soft Skills to the UK Economy”.
Em Portugal, o número equivalente ascende a €11,721 milhões

7,9
por cento é o contributo 
das soft skills dos diferentes 
sectores da economia nacional 
para a formação do valor acrescentado bruto (VAB) 
português, revela o trabalho 
da Augusto Mateus & Associados. No Reino Unido esse valor é de 6,5%, segundo os dados mais recentes

Artigo originalmente publicado no Expresso Economia de 11 de fevereiro de 2017