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O Meu Futuro

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Poupanças recuam 50 anos

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Thomas Lohnes

Com a poupança dos portugueses a bater nos mínimos é legítimo pensar num plano nacional de poupança? É uma das saídas. As outras soluções são os PPR e os certificados. Entretanto, saiba o que precisa para ter uma boa reforma

O que é que um artigo sobre poupanças para a reforma tem a ver com a ponte 25 de Abril ou os quatro golos do Eusébio à Coreia do Norte? Em princípio, nada. Mas quando se observa melhor o sobe e desce da linha azul que atravessa estas páginas, percebe-se que a poupança dos portugueses baixou tanto desde os máximos dos anos 80, que é preciso recuar meio século para encontrar outro ano em que os portugueses tenham posto tão pouco dinheiro de parte como em 2015.

De facto, esta série longa da poupança bruta dos particulares da Pordata, que já desconta o efeito da inflação ao longo dos anos, permite comparar quantos milhares de milhões de euros sobram todos os anos depois de todos os gastos e compras dos portugueses. Apesar do rendimento disponível ser hoje incomparavelmente maior, a verdade é que o dinheiro poupado em 2015 recuou a mínimos nunca vistos desde 1966, ano da inauguração da ponte sobre o Tejo e daquela reviravolta épica dos Magriços nos quartos-de-final do Mundial de Inglaterra.

Hoje os portugueses estão a poupar um terço dos milhões que economizaram no pico dos anos 80 e um terço da média da área do euro. Por cada €100 de rendimento disponível, os europeus poupam €12. Os portugueses apenas €4. A taxa de poupança é mais do dobro em Espanha e só quatro países do euro aforram menos dinheiro do que Portugal: a Letónia, a Lituânia, o Chipre e a Grécia.

As gerações mais velhas compraram casas e assumiram encargos que impediram maiores poupanças pois confiaram que a pensão pública chegaria para assegurar a reforma. As gerações mais novas estão demasiados preocupadas em saber se vão ter emprego, receber salário e ter como pagar a renda no fim do mês para sequer poupar para daqui a 10, 20 ou 30 anos.

O último boletim económico do Banco de Portugal vê com preocupação a quebra da poupança das famílias e não espera uma grande recuperação no futuro próximo.

Plano nacional de poupança

Entre os especialistas escutados pelo Expresso, a antiga secretária de Estado da Segurança Social, Margarida Corrêa de Aguiar, é das maiores defensoras de um plano nacional de poupança, que consciencialize os portugueses para a necessidade de prepararem melhor o futuro, incluindo economizarem para a reforma. A decisão é individual mas o incentivo público e privado ajuda. Quanto ao Estado, a especialista critica a “ziguezagueante” política fiscal e a “injustiça” de quem fez poupanças complementares para a reforma ter sido atraiçoado por uma das mais polémicas medidas de austeridade da troika: a contribuição extraordinária de solidariedade (CES). Quanto aos gestores e empresários, insta à responsabilidade social das empresas através da criação de planos complementares de reforma a favor dos seus trabalhadores e da adoção de políticas salariais que englobem a componente de benefícios diferidos, assumindo o seu custo como um investimento de longo prazo e apoiando os trabalhadores a fazerem escolhas responsáveis.

Trocar presente pelo futuro

Quem pretende trocar algum do consumo atual pela poupança, não conte com decisões fáceis. No que toca a instrumentos de poupança, não há uma opção melhor do que todas as outras pois todas têm os seus prós e contras. De todos os conselhos escutados pelo Expresso, os mais importantes são talvez os mais óbvios: informar-se bem antes de aplicar o dinheiro, não perguntar só aos balcões dos bancos, ouvir os corretores de seguros que podem comparar as ofertas de todas as seguradoras, nunca pôr os ovos todos no mesmo cesto e diversificar, não ter receio ou vergonha de tirar todas as dúvidas (ver caixa das perguntas) ou lembrar-se que as verdadeiras desvantagens sobre cada produto não são explicadas obviamente por quem o vende, mas indiretamente pelo concorrente do lado...

Os depósitos a prazo estão garantidos até €100 mil pelo Fundo de Garantia de Depósitos mas rendem 0% ou até menos com o agravar das comissões bancárias. Para quem confia que o Estado paga a sua dívida, os certificados de aforro e demais obrigações do Tesouro rendem mais para quem pode aplicar alguns milhares de euros a médio e longo prazo. Desde 2008, aos balcões da Segurança Social também é possível subscrever certificados de reforma e descontar mais um pouco do salário todos os meses para complementar a pensão pública (ver caixa), mas convém pensar noutras aplicações porque o dinheiro só é disponibilizado aquando da reforma ou em caso de invalidez absoluta.

O instrumento mais popular de poupança a longo prazo é mesmo o PPR, sigla do plano poupança para reforma lançado em 1989. Pode descontar só €25 por mês e retirar o dinheiro em caso de aflição como o desemprego de longa duração ou o pagamento do crédito à habitação. Ainda pode descontar no IRS embora já não ofereça os benefícios fiscais que durante décadas convenceram centenas de milhares de portugueses.

Artigo originalmente publicado no Expresso de 28 de maio de 2016