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O Meu Futuro

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Mapa do genoma à venda nas farmácias

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Philip Evans na sua palestra sobre novas tecnologias

Tiago Miranda

A informação vai guiar o mundo moderno. Na Saúde, a comum análise ao sangue dará lugar à sequência dos genes. Peritos recomendam “melhoria radical da prevenção”

Vivemos uma nova era: antever o futuro já não chega, agora a ciência quer “prever o presente”, afirma Philip Evans, do Boston Consulting Group, especialista em novas tendências. A quantidade de informação acessível e partilhada através das novas tecnologias nunca foi tão grande e a sua utilização está a abrir caminhos até há pouco tempo inimagináveis. A saúde é dos bens mais valiosos e à medicina moderna já não é só pedido que trate, é exigido que previna para só ter de tratar cada vez mais tarde.

A informação vai tomar o lugar do doente no centro do sistema, fazendo com que muitas das práticas hoje seguidas pelos médicos sejam preteridas por outras mais assertivas e personalizadas. Os peritos acreditam que a genética guiará a prática clínica e que a outrora visionária sequenciação do genoma vai ser rotina, pedida a cada doente como hoje se prescreve uma análise ao sangue, com preços acessíveis e à venda, por exemplo, em farmácias.

No mais recente congresso da Associação Nacional das Farmácias (ANF), na semana passada em Lisboa, Philip Evans garantiu que nada será como dantes, que os primeiros ‘sintomas’ já se manifestam e “são só o princípio do que aí vem”. A internet, as bases de dados gigantes, a inteligência artificial e os dispositivos portáteis são “quatro forças da mudança”, que na Saúde já ditaram um novo diagnóstico. “Passámos da medicina centralizada no hospital para o doente e os cuidados em casa, da doença para o bem-estar, de doentes passivos para informados, de medicina reativa para preventiva, do tratamento baseado na experiência para a evidência científica.”

Twitter substitui ciência
O desafio está agora em “encontrar novas formas de agregar toda a informação que existe” e assim dar um passo decisivo para uma “medicina genómica em ambulatório [com a genética fora dos meios muitos especializados], para a inovação aberta a todos [o ‘segredo não é alma do negócio’], para a internet na prática médica, para a realidade personalizada, para formas sofisticadas de integrar a informação, para a previsão do presente”. E parte desta nova era já está a acontecer.

Atualmente, o sofisticado Centro de Controlo de Doenças (CDC) norte-americano, em Atlanta, utiliza o Twitter para determinar o início da época de gripe. “Pelo número de vezes que são escritas palavras como febre, tosse ou dores no corpo, os peritos conseguem prever o início dos surtos em poucas horas e com o mesmo rigor que o método tradicional, apenas capaz de produzir resultados após uma semana”, contou Philip Evans.

Apesar dos avanços, os especialistas salientam que a mudança na área da Saúde não é tão rápida como em outras — basta pensar que hoje “há mais telemóveis a funcionar do que população no planeta”, sublinhou Evans. Há várias resistências à inovação. Elias Mossialos, da London School of Economics, afirmou que o problema é multifatorial e deu um exemplo: “Só uma pequena parte do orçamento da Saúde é utilizada para resultados baseados na evidência, seja em medicamentos, dispositivos, tecnologias...”

Com maior ou menor resistência, o especialista em financiamento de políticas de Saúde avisou que os sistemas vão ter mesmo de mudar. Desde já, estão identificadas cinco alterações em curso: “Organizações que têm em conta os sistemas e as populações, prestação integrada de cuidados, por exemplo entre a Saúde e a Segurança Social ou entre a saúde física e mental; melhoria radical da prevenção, modelos de prestação de cuidados mais eficientes e estratégias com o envolvimento de todos os parceiros.”

Novas especialidades 
farmacêuticas
No caso concreto da farmácia e do farmacêutico, Elias Mossialos defendeu que é tempo de abrir a porta a um novo paradigma. A integração efetiva nos cuidados primários, trabalhando em parceria com os demais profissionais de saúde, sobretudo médicos; o desenvolvimento de competências ou a prestação de novos serviços, como o acompanhamento de doentes crónicos ou a dispensa de medicamentos exclusivos dos hospitais. E por tudo isto, outro modelo de pagamento.

“Os farmacêuticos [nas farmácias de rua] são a única profissão de saúde que é paga pela venda de um produto e não pela prestação de um serviço.” O especialista defendeu, por isso, ser necessário substituir a atual remuneração em função de uma percentagem sobre os produtos vendidos por um valor associado aos serviços assegurados à população. A receita prescrita agrada ao sector.

“Para os portugueses, somos a base do sistema de saúde, o ponto de partida. E para muitos deles, no interior do país, sem recursos, somos o único acesso que têm à saúde”, afirmou a bastonária da Ordem dos Farmacêuticos (OF), Ana Paula Martins, na abertura do congresso. A valorização dos 15 mil profissionais em Portugal é, por isso, um dos objetivos a curto prazo. “Estamos a trabalhar num modelo de qualificação profissional assente na aquisição de competências e na atribuição de especialidades baseadas nessas competências”, explicou a bastonária da Ordem.

Farmácias com valor fixam troca de genéricos
Paulo Cleto Duarte, presidente da ANF, garantiu que as farmácias estão prontas para os desafios que se avizinham. “Nunca esperámos que nos dissessem do que precisam os portugueses. Estivemos sempre na linha da frente à procura de novas soluções e novas respostas.” Entre elas, “estamos prontos para uma assistência farmacêutica diferenciada, se necessária ao domicílio, aos idosos e aos doentes com mais dificuldades para gerir autonomamente a sua saúde no dia a dia”.

Presente no auditório, o ministro da Saúde garantiu que a palavra dada, no caso no programa do Governo, sobre a valorização do sector será cumprida. Adalberto Campos Fernandes adiantou que as farmácias vão ter um valor fixo, ainda em definição, pela dispensa de medicamentos mais baratos e sobretudo de genéricos. O médico e governante explicou que a atual quota de mercado de pouco mais de 40% deverá aumentar para 60% até ao final da legislatura.

Texto originalmente publicado no Expresso de 23 de abril

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