Siga-nos

Perfil

O Meu Futuro

O Meu Futuro

“Sistemas de saúde não vão conseguir pagar a inovação”

  • 333

José Caria

Dennis Helling: Professor da Faculdade Skaggs de Farmácia e Ciências Farmacêuticas, da Universidade do Colorado, nos EUA

Especialista na área farmacêutica, Dennis Helling inovou na profissão. No maior prestador não lucrativo de cuidados médicos nos EUA, com mais de dez milhões de beneficiários, derrubou barreiras entre médicos e farmacêuticos e ergueu um modelo que garante ser melhor para quem trata, quem é tratado e quem paga o tratamento. Em Portugal para partilhar experiências, garante que o país está pronto para ensaiar o conceito.

É reconhecido por ter criado serviços farmacêuticos inovadores. Quais?
Os mais conhecidos estão associados à presença de um farmacêutico ao lado do médico nos cuidados primários, em serviços clínicos onde usam as suas competências para assistirem diretamente os médicos. Significa que estão ao lado do consultório do médico para lhe dar apoio em casos com tratamentos mais complexos ou na gestão de doenças crónicas, como hipertensão, problemas cardíacos...

E nos cuidados hospitalares?
Fiz o mesmo. Nos EUA, os farmacêuticos acompanham o médico nas visitas aos doentes para os ajudarem nas questões terapêuticas. Tudo isto permitiu-nos concluir que é necessário ter um farmacêutico clínico para cada oito a dez médicos.

Qual a grande vantagem da parceria entre farmacêuticos e médicos?
É sobretudo o respeito mútuo pelas competências de cada um, o trabalho de equipa, que inclui também enfermeiros, e a melhoria dos resultados obtidos no tratamento do doente.

Que melhorias são essas?
Está demonstrado que melhora o controlo da tensão arterial, baixa o colesterol e os triglicerídeos, melhora o controlo da diabetes, melhora o acompanhamento de doentes com asma...

Porque o farmacêutico está mais disponível ou porque conhece melhor os medicamentos?
Estes farmacêuticos são especialistas em tratamentos com fármacos e em conseguir a adesão do doente à medicação, que é um desafio em todo o mundo. No modelo que criei, o médico tem um elemento na equipa que está focado em garantir que o doente toma a medicação certa — na dose e durante o tempo certo, educando-o como tomar os medicamentos de forma segura —, e em verificar se as indicações médicas são cumpridas.

E há vantagens económicas?
Os nossos farmacêuticos são especialistas em informação isenta e dão aos médicos avaliações sobre quais os fármacos mais eficazes, seguros e custo efetivo e com isso reduzimos a despesa. Temos prescrição eletrónica e os médicos têm as receitas no registo clínico eletrónico — e os farmacêuticos e enfermeiros podem incluir notas — e quando o doente vai às nossas farmácias tem lá toda a informação.

Portugal tem prescrição eletrónica, a receita sem papel está a avançar e está em avaliação a possibilidade de doentes crónicos serem acompanhados nas farmácias. É o caminho certo?
No meu centro somos mimados com sistemas informáticos e em outras unidades a prescrição eletrónica é muito popular, embora sem partilha de ficheiros clínicos. O caminho vai no sentido de ter cada vez mais partilha de dados. É melhor para a qualidade do tratamento e para a equipa de médicos e farmacêuticos, que, por exemplo, podem alertar quando o doente não cumpre.

Defende que os farmacêuticos devem estar preparados para o exercício interprofissional.
Nos EUA, a formação inclui o treino ao lado de médicos e enfermeiros, permitindo que todos valorizem o conhecimento interprofissional. Assim, quando vão para as unidades estão habituados a trabalhar juntos.

Reforçar o papel do farmacêutico não ameaça a separação entre quem trata e quem dispensa o tratamento?
Vejo a questão de outra perspetiva. Está bem demonstrado nos EUA que a equipa assistencial consegue bons resultados porque trabalha unida. O doente mantém a sua relação com o médico, que tem uma multiplicidade de especialistas para o ajudarem a concretizar o tratamento. Todos os estados norte-americanos têm Protocolos Colaborativos para definirem quem faz o quê e alguns permitem ao farmacêutico ajustar a medicação.

Está a ser avaliada a dispensa de medicamentos para a sida ou para o cancro nas farmácias. Faz sentido?
Já devia ter sido feito há muito tempo. Nas várias vezes em que estive em Portugal, ouvi falar das queixas de doentes sobre as dificuldades de acesso a esses medicamentos essenciais. Os farmacêuticos estão bem treinados, sabem como aconselhar e monitorizar os doentes e como comunicar com os médicos quando há alguma preocupação. O doente é o centro do sistema e se não tem acesso ou não adere aos medicamentos, a doença não está controlada.

Peritos defendem que a maioria dos medicamentos não deve ser vendida fora das farmácias porque não há aconselhamento. Concorda?
Portugal está certo ao querer ter a certeza de que os doentes têm acesso ao aconselhamento farmacêutico. Só o farmacêutico pode ajudar, permitindo até que ao doente poupe dinheiro por não comprar um produto só porque o viu na televisão. Nos EUA, isto está fora de controlo.

Em Portugal não é permitido publicitar medicamentos...
Nos EUA é, e foi um grande erro. Todos os medicamentos que são anunciados nas televisões nos EUA são originais e requerem prescrição, nada de genéricos. Isto cria uma procura elevada e um aumento dos custos e, mais perigoso, uma pressão maciça sobre os médicos. O doente entra no consultório e diz especificamente: “Esta é a doença que tenho e este é o medicamento que quero.”

Como vai ser a farmácia do futuro?
A farmácia do futuro vai proteger a sociedade. Será o local para a preparação, vigilância e dispensa de medicamentos de elevada qualidade. Vai estar mais focada na saúde pública e na assistência ao sistema de saúde, como na vacinação, e em ajudar o médico a alcançar os seus objetivos em doentes com doenças agudas — por exemplo, explicando que o antibiótico é para tomar até ao fim — e sobretudo crónicas. Será também o local de recurso para esclarecimentos sobre os medicamentos não sujeitos a prescrição, nutrição...

E como devem ser remuneradas?
O sistema de remuneração tem de ser muito justo e equitativo para todos. Em primeiro lugar, precisa de remunerar a farmácia pela missão social e pela proteção do doente, ao garantir-lhe medicamentos de grande qualidade e uma dispensa segura.

Vai ser possível continuar a pagar a inovação que chega ao mercado?
Os sistemas de saúde não vão conseguir continuar a pagar a inovação e estou muito preocupado. Temos de voltar a ter um pagamento justo: para quem investiga continuar a inovar mas com moderação no que cobra para os doentes terem acesso. São precisos mais genéricos de qualidade. Espero que em outros países seja possível negociar.

Nos EUA não se negoceiam preços?
Só as seguradoras. Para os mais idosos, o Sistema de Saúde não negoceia e há problemas porque cobre muita coisa, mais do que o Governo federal, e alguém tem de pagar a conta. Portanto, é desejável um equilíbrio.

Artigo originalmente publicado no Expresso de 16 de abril de 2016

  • O Meu Futuro: os objetivos deste projeto

    "O Meu Futuro" é um projeto que pretende ajudar as pessoas a refletir neste início de um novo ciclo político e económico para o país nas áreas centrais para os portugueses. Daremos respostas em áreas centrais para os portugueses ao longo do próximo ano nas diversas plataformas do Expresso e do grupo Impresa

  • Governo promete Simplex na Saúde

    Mudança: o novo rumo político chega a Portugal com promessas de um ciclo renovado nos cuidados assistenciais garantidos pelo Estado. Acessível, informatizado e humanizado são traços do perfil proposto para o Serviço Nacional de Saúde. Dirigentes no terreno dão voto de confiança ao novo ministro

  • População quer tratamento a tempo, afável e acessível

    Os portugueses que utilizam
o sistema público de saúde querem o mesmo que qualquer pessoa que necessita de assistência: rapidez, qualidade
e pagar pouco. As unidades do Estado não satisfazem em pleno e os utentes que economicamente podem optam cada vez mais pelo privado,
até mesmo quando a doença é muito grave

  • Ajuda reforçada para quem toma mais medicamentos

    Confiança: portugueses acreditam na qualidade dos fármacos e já não receiam os genéricos. Falta divulgar os biossimilares e incentivar maiores poupanças para ter como pagar a inovação. Responsáveis do sector afirmam que chegou o tempo de rever os regimes de comparticipação para melhorar o apoio aos doentes que mais precisam

  • Ao longo dos próximos meses, analisaremos nas páginas do semanário as principais variáveis que condicionam a carga e as escolhas fiscais dos portugueses com o projeto “O Meu Futuro, o meu orçamento”

  • Novo simulador: o que muda no meu salário

    Como será o meu salário se tiver mais filhos ou mudar de estado civil? E se for aumentado? Experimente o simulador do Expresso e da EY - que integram o projeto O Meu Futuro - e veja o que pode esperar do seu orçamento

  • Quem ganha o salário mínimo livra-se dos impostos... no Dia do Trabalhador. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa em agosto. Os presidentes das grandes empresas uns dias antes do outono. E você?

  • Saúde inova enquanto o mundo envelhece

    As novas tecnologias nos cuidados médicos vieram para ficar: dos processos clínicos eletrónicos na ponta dos dedos ao papel ativo do doente no tratamento. Os sistemas e modelos do século passado têm os dias contados. As transformações estão a acontecer no plano global: no Brasil, na Índia ou na Europa já se fazem sentir

  • Mapa do genoma à venda nas farmácias

    A informação vai guiar o mundo moderno. Na Saúde, a comum análise ao sangue dará lugar à sequência dos genes. Peritos recomendam “melhoria radical da prevenção”