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O Meu Futuro

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Saúde inova enquanto o mundo envelhece

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A tendência é os médicos usarem cada vez mais apps 
para a gestão de processos clínicos ou discussão 
de casos online. Na China, um quarto dos médicos já o faz

Thomas Tolstrup

As novas tecnologias nos cuidados médicos vieram para ficar: dos processos clínicos eletrónicos na ponta dos dedos ao papel ativo do doente no tratamento. Os sistemas e modelos do século passado têm os dias contados. As transformações estão a acontecer no plano global: no Brasil, na Índia ou na Europa já se fazem sentir

Rute Barbedo

A imunoterapia a combater o cancro; cápsulas endoscópicas para diagnósticos não invasivos; a chegada de um “robô-cirurgião” — o da Vinci — à Fundação Champalimaud; aplicações móveis que ajudam a regular os níveis de insulina; personal trainers para garantir a adesão a medicamentos; dispositivos que controlam estados de saúde remotamente para diminuir o número de hospitalizações. A inovação na Saúde não para, tentando responder aos desafios do envelhecimento global da população e da crescente procura de serviços. É uma das prioridades da Organização Mundial de Saúde (OMS), que defende a transformação de modelos baseados na cura para uma prestação de cuidados preventiva. No plano financeiro, a União Europeia (UE) prevê investir sete mil milhões e meio de euros em investigação até 2020, com o objetivo de melhorar os cuidados de saúde.

A inovação deverá provavelmente superar os planos da robótica ou da eletrónica, até porque entre 40% a 65% do crescimento das despesas em saúde têm origem na adoção de novas tecnologias, estima a Robert Wood Johnson Foundation, contrariando a sustentabilidade dos sistemas. Como demonstrou Casimiro Cavaco Dias, autor do livro “O Valor da Inovação — Criar o Futuro do Sistema de Saúde”, o problema atual “reside no facto de os sistemas de saúde terem mantido modelos de serviços do século passado, apesar dos avanços científicos e tecnológicos”.

Em Portugal, a “solução” está “numa mudança de visão, procurando-se ter uma população mais consciente do que pode fazer pela sua saúde” a par com “uma permanente procura de melhoria”, defende o economista de saúde Pedro Pita Barros. Ao mesmo tempo, “o acompanhamento na residência habitual deverá ganhar peso face ao internamento hospitalar ou noutras instituições”, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) “terá de se orientar para lidar com uma população idosa, com preferências heterogéneas no apoio” e “terá de se adaptar a uma maior parceria com os doentes no processo de decisão e seguimento das terapêuticas”. A estas mudanças deverá estar subjacente uma organização eficaz de dados. É essencial “passar a usar a muita informação que se encontra disponível mas dispersa para planeamento, conhecimento e organização” e contar, ainda, com “o acréscimo de informação que decorrerá da expansão e adoção de dispositivos móveis” são desafios do presente.

“Saúde eletrónica”
Segundo um estudo publicado pela OMS em 2012, “o uso da tecnologia para estender o acesso geográfico aos cuidados de saúde é particularmente promissor dada a escassez crítica de profissionais de saúde e a má distribuição de prestadores de serviços em muitos países”. No Brasil, 92% dos utilizadores do GlicOnLine, um software que ajuda os diabéticos a calcularem as doses necessárias de insulina e a planear a dieta, confirmaram que o sistema melhorou a sua qualidade de vida. Na Índia, a operação ASHA demonstrou que o sistema de scanners de impressões digitais, que verifica a adesão à medicação para a tuberculose, ajudou a diminuir a fração de tratamentos falhados de 60% para menos de 3%.

Noutros casos, a aposta é numa reformulação unânime que englobe a totalidade da cadeia de prestação de serviços. “Dos Estados Unidos, a Kaiser Permanente tem sido apontada como um bom modelo na ‘gestão da doença’”, aponta Pita Barros. A Dinamarca montou um sistema integrado de informação para conhecer as necessidades reais de saúde no país; a Holanda tornou os cuidados primários num pilar para manter a população saudável e reduzir custos com tratamentos especializados; a Estónia foi pioneira na implementação de políticas de e-Saúde; e a Suécia atribuiu um papel mais ativo e autónomo aos enfermeiros.

Apesar da qualidade na prestação de serviços apontada ao SNS português, em 2015, o Boston Consulting Group indicava o seu “calcanhar de Aquiles”: entre 2010 e 2012, Portugal foi o país da Europa Ocidental com menor taxa de aprovação do reembolso de fármacos inovadores e o segundo mais lento no processo de comparticipação. A consultora aconselhou, por isso, a transição do modelo de preço fixo para um sistema de maior partilha de risco entre o Estado e as companhias farmacêuticas (ver entrevista com Kenneth Kaitin nesta página), como é tendência noutros sistemas.

Acesso aos medicamentos
Contudo, melhorar o acesso a tratamentos também passa pela inovação nas farmácias, que, em muitos países, estão a ganhar mais autonomia. Portugal não é exceção: este ano prevê-se que os farmacêuticos possam renovar receitas de doentes crónicos, em casos específicos. Em paralelo, “o sector tem sido pioneiro na informatização dos serviços”, explica Miguel Lança, da Associação Nacional de Farmácias. Lembrando a nova prescrição médica eletrónica (o Governo quer que até final do primeiro semestre de 2016 pelo menos 80% das prescrições no SNS sejam eletrónicas) e a emergência de aplicações móveis que originem o autocontrolo do estado de saúde do utilizador, Miguel Lança acredita que as grandes inovações passarão por plataformas “que permitam uma maior fluidez de comunicação entre os prestadores de saúde, médicos, farmacêuticos, enfermeiros, nutricionistas”, entre outros atores, para uma visão mais global e um melhor acompanhamento de cada utente. Porém, os profissionais ainda têm “um caminho grande a percorrer”, alerta.

Em debate no Congresso das Farmácias

No próximo fim de semana, dias 15 e 16 de abril, realiza-se o 12º Congresso das Farmácias, no Centro de Congressos de Lisboa, um evento ao qual o Expresso se associa. A Inovação é transversal ao debate. Confira os grandes temas e os principais oradores:

Dia 15 — “Inovar nos Sistemas de Saúde”, com Elias Mossialos (diretor do London School of Economics Health) e António Rendas (reitor da Universidade Nova de Lisboa)

“Inovar na Relação com o Consumidor”, com Philip Evans (Boston Consulting Group) e Francisco Pinto Balsemão (presidente do grupo Impresa)

Dia 16 — “Inovar nas Tecnologias da Saúde”, com Kenneth Kaitin (diretor do Tufts Center for the Study of Drug Development), António Vaz Carneiro (diretor do Centro de Estudos de Medicina Baseados na Evidência) e Hélder Mota Filipe (Conselho diretivo do Infarmed)

“Inovar na Contratualização”, com Dennis Helling (Escola de Farmácia e Ciências Farmacêuticas Skaggs da Universidade de Colorado), George Tambassis (presidente do Pharmacy Guild of Australia), Rajesh Patel (Associação Nacional de Farmácias do Reino Unido) e Miguel Gouveia (professor de Economia na Universidade Católica de Lisboa)

Artigo originalmente publicado no Expresso de 9 de abril de 2016

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    "O Meu Futuro" é um projeto que pretende ajudar as pessoas a refletir neste início de um novo ciclo político e económico para o país nas áreas centrais para os portugueses. Daremos respostas em áreas centrais para os portugueses ao longo do próximo ano nas diversas plataformas do Expresso e do grupo Impresa

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    Mudança: o novo rumo político chega a Portugal com promessas de um ciclo renovado nos cuidados assistenciais garantidos pelo Estado. Acessível, informatizado e humanizado são traços do perfil proposto para o Serviço Nacional de Saúde. Dirigentes no terreno dão voto de confiança ao novo ministro

  • População quer tratamento a tempo, afável e acessível

    Os portugueses que utilizam
o sistema público de saúde querem o mesmo que qualquer pessoa que necessita de assistência: rapidez, qualidade
e pagar pouco. As unidades do Estado não satisfazem em pleno e os utentes que economicamente podem optam cada vez mais pelo privado,
até mesmo quando a doença é muito grave

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