Siga-nos

Perfil

O Meu Futuro

O Meu Futuro

Ajuda reforçada para quem toma mais medicamentos

  • 333

David Clifford

Confiança: portugueses acreditam na qualidade dos fármacos e já não receiam os genéricos. Falta divulgar os biossimilares e incentivar maiores poupanças para ter como pagar a inovação. Responsáveis do sector afirmam que chegou o tempo de rever os regimes de comparticipação para melhorar o apoio aos doentes que mais precisam

É um diagnóstico unânime entre aqueles que lidam com fármacos: os portugueses sabem mais sobre medicamentos, aprenderam a não recear os genéricos e confiam na qualidade do que é receitado pelo médico ou dispensado pelo farmacêutico. A população mostra-se interessada nos medicamentos promissores, que quer continuar a ter no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Mas estas ‘melhoras’ não são ‘cura’ e a iliteracia da população continua elevada.

“A postura de maior consciencialização não é ainda equilibrada na sociedade portuguesa, sendo a população mais idosa a que regista maiores dificuldades na compreensão total da informação em Saúde. Tal leva a que persistam hábitos de risco, como tomar um medicamento porque ‘fez bem’ à vizinha”, salienta Heitor Costa, médico e diretor executivo da Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica, Apifarma.

Notam-se, mesmo assim, passos positivos. É maior o número de utentes que vai à farmácia para clarificar informações. “Temos pessoas que vêm tirar dúvidas sobre produtos que viram na televisão. Já me perguntaram se podiam substituir o medicamento para o colesterol por um Danacol”, conta Ema Paulino, presidente da secção do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos (OF).

Nas horas ao balcão, Ema Paulino garante ser claro que o aconselhamento surte efeito e é necessário. “Já não precisamos de explicar porque é que os genéricos são mais baratos e as pessoas continuam a vir pedir aconselhamento para comprarem medicamentos sem receita. Se olharmos para os números, vemos que o paracetamol é o mais comprado fora porque é o que as pessoas conhecem melhor.”

Acontece até que seja pedido ao farmacêutico que valide o que o médico receitou. “É importante que, perante alterações à medicação decididas pelo médico assistente, os doentes possam contar com o apoio de profissionais de saúde”, reconhece Heitor Costa.

Portugueses querem mais serviços nas farmácias

A tarefa é uma de várias paralelas à dispensa de medicamentos que os portugueses gostavam de ter na farmácia. Num estudo da Universidade Católica (ver gráficos), 92% dos inquiridos referiram como importante ou muito importante o apoio no controlo de doentes crónicos, 89% a renovação automática de receitas médicas ou até a marcação de consultas (74%).

“A renovação de receituário já se faz no estrangeiro e com a informatização conseguiríamos perceber se o doente está a tomar os medicamentos no momento adequado”, explica Ema Paulino. A OF já deu parecer positivo e as farmácias garantem estar preparadas. “Estão disponíveis para avaliar melhorias de acessibilidade e ganhos em saúde gerados por esta medida, que reforcem a sustentabilidade da rede e a relação médico-doente-farmácia”, afirma Paulo Cleto Duarte, presidente da Associação Nacional das Farmácias.

A avançar, a oferta de novos serviços — alguns já negociados com o anterior Governo e outros, como a dispensa de medicamentos oncológicos, nos planos do atual Executivo — serviria também para compensar a redução nas margens das farmácias por força da descida do preço dos fármacos.

“É necessária uma profunda revisão do regime de comparticipação de forma a que permita um regime que apoia realmente os cidadãos nas terapêuticas que lhes são necessárias”, alerta o diretor executivo da Apifarma. A forma de o fazer até já está estudada. Há menos de um mês, o grupo de peritos da Iniciativa Latitude apresentou propostas.

Coordenado pelo bastonário da OF, Carlos Maurício Barbosa, o grupo de trabalho defende cinco medidas principais, assentes na ideia de que quem mais precisa tem de ser mais apoiado. “Os graus de gravidade das patologias têm impacto direto nas terapêuticas necessárias” e esta “diferenciação poderia ser um fator indutor na equidade do acesso ao medicamento”, explica o bastonário. O objetivo é “que a comparticipação acompanhe o desenvolvimento da doença”.

O grupo propõe ainda que os baixos rendimentos sejam tidos em conta. “No modelo atual estão excluídos do regime especial os cidadãos que, apesar de auferirem baixos rendimentos, não sejam pensionistas”.

“Os chamados ‘Gold Standards’ para o tratamento de muitas doenças estão hoje disponíveis como medicamentos genéricos e biossimilares, garantindo o melhor tratamento a um custo acessível”, salienta Paulo Lilaia, presidente da Associação Portuguesa de Medicamentos Genéricos e Biossimilares — os genéricos dos modernos fármacos biológicos. As versões mais económicas “representam uma oportunidade única para ajudar a controlar a despesa, permitindo tratar mais doentes com o mesmo orçamento e libertar recursos para financiar outros tratamentos de elevado custo”.

Os dados recentes são, no entanto, um sinal de alarme. “O mercado dos genéricos no ambulatório tem vindo a estagnar e mostrado uma tendência decrescente, o que é preocupante e se afasta do objetivo do Estado para o final de 2014: 60% de quota de mercado, que está nos 47%”, revela o presidente da Associação Portuguesa de Medicamentos Genéricos e Biossimilares. “Tendo em conta só as substâncias ativas que perderam patente este ano, estima-se que no ambulatório acresçam mais €27 milhões de poupança e no sector hospitalar mais 8 milhões.”

E Paulo Lilaia acrescenta: “Paradoxalmente, os dados de utilização europeus, e só no caso dos biossimilares, mostram-nos que são os países com o PIB mais elevado que têm tirado o maior benefício.”

O que dizem dos medicamentos os portugueses

Henrique Cruz, Estudante

Vendas à unidade
A saúde vai tendencialmente ficar mais cara, quer em termos de serviços quer no que respeita à procura. Os tratamentos alternativos vão ganhar outra importância e cada vez mais vão ser vistos como um complemento. A digitalização prejudica as relações humanas mas dá outra força à partilha de informação, o que será bom para os clientes nas farmácias. Os medicamentos vão ser mais naturais e ajudar os doentes de outras formas. Já se está a caminhar para produtos menos intrusivos e com mais benefícios e era bom que fossem vendidos à unidade. Acredito que este deve ser o caminho, mas os obstáculos, como vimos com os genéricos, são grandes.

Paula Nabeiro, Fisioterapeuta

Componentes naturais
Devia-se caminhar para tratamentos tendencialmente gratuitos, capazes de chegar a qualquer pessoa, mas isto é algo que ainda estamos longe de conseguir. Gostava que a indústria estivesse centrada na produção de medicamentos mais virados para componentes naturais e menos para os químicos. Poderia ser a abordagem que falta para a diminuição de efeitos secundários, por exemplo. Os medicamentos têm também de ser mais baratos, não pela vertente da comparticipação mas pela pressão exercida sobre as farmacêuticas. Não tenho dúvidas de que as mudanças também se vão estender à forma como os medicamentos são vendidos.

Artigo originalmente publicado no Expresso de 31 de dezembro de 2015

  • Quem ganha o salário mínimo livra-se dos impostos... no Dia do Trabalhador. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa em agosto. Os presidentes das grandes empresas uns dias antes do outono. E você?

  • O Meu Futuro: os objetivos deste projeto

    "O Meu Futuro" é um projeto que pretende ajudar as pessoas a refletir neste início de um novo ciclo político e económico para o país nas áreas centrais para os portugueses. Daremos respostas em áreas centrais para os portugueses ao longo do próximo ano nas diversas plataformas do Expresso e do grupo Impresa

  • Governo promete Simplex na Saúde

    Mudança: o novo rumo político chega a Portugal com promessas de um ciclo renovado nos cuidados assistenciais garantidos pelo Estado. Acessível, informatizado e humanizado são traços do perfil proposto para o Serviço Nacional de Saúde. Dirigentes no terreno dão voto de confiança ao novo ministro

  • População quer tratamento a tempo, afável e acessível

    Os portugueses que utilizam
o sistema público de saúde querem o mesmo que qualquer pessoa que necessita de assistência: rapidez, qualidade
e pagar pouco. As unidades do Estado não satisfazem em pleno e os utentes que economicamente podem optam cada vez mais pelo privado,
até mesmo quando a doença é muito grave

  • Ao longo dos próximos meses, analisaremos nas páginas do semanário as principais variáveis que condicionam a carga e as escolhas fiscais dos portugueses com o projeto “O Meu Futuro, o meu orçamento”

  • Novo simulador: o que muda no meu salário

    Como será o meu salário se tiver mais filhos ou mudar de estado civil? E se for aumentado? Experimente o simulador do Expresso e da EY - que integram o projeto O Meu Futuro - e veja o que pode esperar do seu orçamento