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População quer tratamento a tempo, afável e acessível

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A falta de resposta nos cuidados de saúde primários é a principal crítica feita pelos utentes ao sistema público

Tiago Miranda

Os portugueses que utilizam
o sistema público de saúde querem o mesmo que qualquer pessoa que necessita de assistência: rapidez, qualidade
e pagar pouco. As unidades do Estado não satisfazem em pleno e os utentes que economicamente podem optam cada vez mais pelo privado,
até mesmo quando a doença é muito grave

É uma verdade inabalável: até as pessoas saudáveis adoecem. Portanto, um dia vamos todos precisar de ser tratados. E quando o momento chegar, queremos ser atendidos rapidamente, por um profissional de saúde competente e afável e sem suportar um custo elevado. Os doentes portugueses não são diferentes. Têm as mesmas exigências, mas o sistema nacional de saúde, e em particular o serviço público, nem sempre assim responde.

“A primeira coisa que as pessoas esperam do seu Serviço Nacional de Saúde é que as atenda rapidamente: quando se sentem mal e desconfiam de que qualquer coisa não está bem. O segundo aspeto é que a relação com o profissional de saúde (médico, enfermeiro ou outro) corra bem: que sejam bem atendidas, empaticamente, e que saiam esclarecidas e orientadas”, afirma o presidente da Fundação para a Saúde, Constantino Sakellarides.

Ao “acesso oportuno” e à “qualidade do atendimento” juntam-se outras exigências. António Vaz Carneiro, presidente do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, acrescenta o “humanismo e o respeito na interação com o doente” e “o atendimento não dispendioso”. O especialista sublinha, no entanto, que “não existe nenhum sistema de saúde no mundo que consiga satisfazer completamente toda a população que serve”.

António Vaz Carneiro explica que “os doentes têm uma complexidade tal — necessidades específicas ou anseios irracionais — que não é possível satisfazer todos os que acorrem ao SNS”. Reconhece, ainda assim, que “é possível conseguir 90% a 95% de aprovação com uma organização rigorosa, profissionais dedicados e competentes e uma saúde despolitizada”. O sistema de saúde holandês é, na sua opinião, a prova disso.

Por cá, as Unidades de Saúde Familiar (USF) são tidas como o melhor exemplo. “Os inquéritos à opinião dos utilizadores têm revelado, sistematicamente, altos níveis de satisfação”, salienta Constantino Sakellarides. Segundo um estudo da Universidade de Coimbra, esses níveis rondam os 80%. O funcionamento estruturado (por exemplo, com a existência de um secretário clínico), a autonomia técnica ou a remuneração por objetivos são pequenos pormenores que parecem fazer uma grande diferença.

O modelo, que não chega a metade dos portugueses, é para expandir. Esta semana, por ocasião da apresentação dos coordenadores nacionais para a reforma do SNS, o responsável pela concretização do plano para os cuidados primários garantiu que vão ser abertas mais unidades e que a “afabilidade” vai entrar nos serviços. “A possibilidade de poder escolher, dentro do SNS, os profissionais com os quais cada pessoa sente que pode conseguir uma relação de mais elevada qualidade e confiança, necessita seguramente de outra abordagem”, defende Constantino Sakellarides.

O atendimento célere é desejado à entrada do SNS e também sempre que é necessário percorrer os vários níveis de cuidados. “As pessoas esperam que a referenciação ocorra oportunamente e sem sobressaltos, uma vez que se trata de circular numa mesma organização, o SNS. Isto, no entanto, não ocorre tão bem quanto devia”, critica.

A demora leva a que não raras vezes, sobretudo se o problema de saúde é ligeiro, muitos portugueses optem por nem entrar no SNS. Em alternativa, vão à farmácia (ver infografia ao lado) ou, quem pode pagar, ao sector privado. Um estudo feito pelo GFK em novembro, junto de 1207 indivíduos, revela que relativamente ao acesso aos cuidados “os portugueses consideram que o sector privado é globalmente melhor do que o público”. As unidades particulares ganham na facilidade de acesso e no tempo de espera entre as consultas.

O estudo — a propósito da terceira edição da iniciativa “Think Tank Inovar e Saúde” — permite ainda saber que o cancro é a doença que mais preocupa a população nacional. No caso da assistência em oncologia, as unidades particulares são valorizadas pela rapidez e melhor atendimento, enquanto ao SNS é reconhecida a mais-valia do preço acessível e comparticipação e da qualidade dos médicos. Já os pontos fracos são o custo e menos equipamentos e recursos técnicos nos privados e o tempo de espera e a má qualidade do atendimento na vertente humana no SNS.

Não é necessário nenhum estudo para atestar que Portugal é cada vez mais um país envelhecido, por isso, com mais tumores, mais doenças crónicas e mais pessoas dependentes. E chegados aqui, os portugueses não querem hospitais, sejam eles públicos ou privados. Querem a sua casa.

No “Relatório de Primavera 2015”, do Observatório Português dos Sistemas de Saúde, é referido um estudo (de Parente) deste ano dando conta de que entre os 2314 inquiridos sobre a assistência que preferiam receber em caso de perda de autonomia, 47% afirmaram preferir ficar em casa se houver condições e 11,4% estar no domicílio independentemente de existirem os requisitos necessários.

Concluem os autores do documento da primavera que, “assim, fazer face à crescente necessidade em cuidados de saúde associados à dependência no autocuidado constitui-se, no presente, um dos desafios mais significativos à inteligência coletiva dos portugueses”. E esta meta é mesmo necessária de alcançar, se mais não fosse porque as vagas na rede pública de cuidados continuados apenas chegam para menos de 30% das necessidades atuais “e ainda menos das expectáveis necessidades futuras relacionadas com o envelhecimento populacional em Portugal”.

Texto publicado originalmente no Expresso de 19 de Dezembro de 2015

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