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Expresso

O Futuro do Crescimento

Tecnologia, a nova ‘mãe’ da riqueza multinacional

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Novos modelos de negócio para o crescimento foi o tema do último painel da cimeira do Futuro do Crescimento. Oradores: Javier Targhetta, da Freeport-McMoRan de Espanha; Johannes Koenen, da alemã CESifo; e Luís Filipe Pereira, presidente da portuguesa FAE

Tiago Miranda

Plataformas digitais Negócios planetários como a Uber, o Spotify ou a Netflix mostram que a internet cria novos mercados e faz disparar vendas

Não faltam exemplos de novos modelos de negócio que aumentaram as vendas nas empresas e que criaram os seus próprios nichos de mercado. Mesmo assim, há quem admita que “só loucos ou economistas acreditam no crescimento da economia”, como aludiu, com humor, o presidente do Fórum de Administradores e Gestores de Empresas (FAE), Luís Filipe Pereira. Isto quer dizer que, por mais baixas que sejam as expectativas dos empresários em relação ao crescimento da atividade económica, há novas formas de sustentar o crescimento futuro — que esta semana foram debatidas num painel da conferência internacional de think tanks de negócios, moderado pelo diretor do Expresso, Ricardo Costa.

Centrando o debate nos problemas diários com que são confrontados os gestores, Luís Filipe Pereira considera que as novas tecnologias têm vindo a criar oportunidades empresariais até em sectores tradicionalmente liderados por grupos consolidados, que passaram a ter novos concorrentes, rentáveis, que entraram no mercado recorrendo precisamente a novos modelos de negócio.

O exemplo paradigmático dos novos modelos de negócios é o da companhia aérea texana Southwest Airlines que, desde finais dos anos 60, passou a oferecer voos a preços baixos, dirigidos a um segmento de clientes constituído por estudantes e agregados familiares de baixo rendimento — recordou o presidente da FAE.

Esta foi a génese do modelo de negócio das low cost. Cinco décadas depois do arranque da Southwest Airlines, as companhias de baixo custo controlam hoje parte significativa do transporte aéreo. Ryanair, Easyjet ou Vueling são algumas das que passaram a disputar quotas significativas dos voos no mercado português.

Mas os novos modelos de negócio têm vindo a ser multiplicados sobretudo pela inovação tecnológica disponível na internet, através de aplicações que utilizam bases de dados, onde a oferta de bens e serviços é cruzada com as necessidades dos consumidores em quase todas as áreas.

“A Uber é um desses casos”, refere Luís Filipe Pereira, explicando que recorre a uma plataforma digital disponível em smartphones, que partilha uma grande base de dados, em vários continentes, de potenciais clientes para serviços de mobilidade concorrentes com os táxis tradicionais.

Este modelo de negócio só se tornou viável devido ao desenvolvimento tecnológico da respetiva plataforma digital, oferecendo serviços que respondem às necessidades de mobilidade das pessoas, pelo custo mais baixo.

Mais. “A tecnologia do iPhone da Apple esteve na origem de muitos outros exemplos de modelos de negócio que abriram novas oportunidades de criação de valor e fomentaram estratégias empresariais sustentáveis”, comentou o presidente do FAE, considerando que “todas elas tiveram como objetivo permitir que os seus clientes tivessem acesso a bens e serviços aos melhores preços do mercado, assegurando a rentabilidade dessas novas atividades e com impactos ambientais favoráveis”.

Javier Targhetta, responsável pela multinacional do sector mineiro Freeport-McMoRan — um dos maiores produtores mundiais de cobre, ouro e gás natural não convencional (o designado shale gas) — considera que “o desenvolvimento de novos modelos de negócio tem dado resposta a mudanças muito rápidas nas necessidades de consumo”.

No sector das matérias-primas, “apesar das contrações no crescimento económico registadas em várias zonas geográficas, aumentaram as necessidades mundiais de produção de cimento, aço, cobre e carvão”, refere Javier Targhetta, ou seja, “o crescimento total não abrandou”. “A Índia está a crescer 7% ao ano e já é considerada a nova China, e há outros países que contribuem para o crescimento mundial como o Paquistão, o Bangladesh, as Filipinas ou a Malásia”, diz.

De resto, a atividade da Freeport-McMoRan na produção de shale gas integra-se no grupo de empresas que operaram uma das “revoluções” mais rápidas no sector da energia. Em muito pouco tempo, o novo modelo de negócio do shale gas forçou a descida dos preços internacionais do gás natural e tornou os EUA autossuficientes na produção de gás.

Para Johannes Koenen, economista da CESifo — grupo alemão especialista em estudos económicos —, mais importante que identificar a tecnologia que vai liderar a criação de novos modelos de negócios é garantir a consolidação do principal fator que potencia o crescimento futuro e que é a formação das populações, a educação.

Atualmente, a tecnologia chega a todo o lado, e a utilização da internet tende a aumentar, mas é preciso melhor formação para fazer a triagem eficaz dos fluxos de dados que estão acessíveis a milhões de pessoas. “Não há estatísticas sobre o impacto destas tecnologias na produtividade das empresas”, comenta Johannes Koenen. Além disso, considera que “os novos modelos de negócio estão sobre uma pressão constante, o que leva empresas do mundo digital a entrarem em sectores que não são o seu core, como é o caso da Apple com o sector automóvel”.

A velocidade a que crescem alguns novos modelos de negócios também não tem paralelo com a evolução clássica das empresas. Exemplos como o Spotify (serviço digital que fornece conteúdos musicais), o Netflix (filmes e séries online), ou a Amazon (multinacional de comércio eletrónico) criaram novos padrões de rentabilidade de negócios e novos tipos de consumo e de marketing.

No entanto, tudo se resume a satisfazer as necessidades de cada indivíduo, sem ninguém ter a certeza que existe a regulação adequada a estes novos modelos (desde as questões laborais, às implicações fiscais). Javier Targhetta defende que, nesta fase de mudanças rápidas, o mais importante será conseguir dar à população mundial oportunidades iguais.

P&R
Em debate na cimeira

Qual é o papel do digital na criação de novos modelos de negócio?
Um estudo conjunto da Accenture Strategy e da Oxford Economics sobre o nível de digitalização das economias mundiais revela existir uma relação direta entre a penetração de tecnologias digitais e o aumento da produtividade e competitividade. Nos últimos anos temos assistido a um boom de modelos de negócio disruptivos cuja disseminação tem sido potenciada pela aptidão que as tecnologias digitais têm de reduzir tempos, necessidade de recursos, custos e distâncias.

Que novos modelos vão surgir? Com que impacto?
À velocidade a que o mercado está mudar, produtos e serviços podem surgir e desaparecer de um momento para o outro. A facilidade no acesso a capacidades e clientes tem permitido a empresas emergentes conquistar espaço, com uma oferta mais barata. Ao abrir as portas a mercados em que é fácil entrar e conquistar domínio sem grandes recursos, o digital está não só a promover novos modelos de negócio como a obrigar empresas a redefinir os seus modelos. Se antigamente demorava décadas a construir uma empresa bilionária, hoje empresas como a Airbnb e o Facebook mostram que em cinco ou dois anos é possível, da mesma forma que empresas que não se adaptem, como a Kodak, podem colapsar.

Como ser competitivo?
Para agarrar oportunidades e continuar competitivas, as empresas devem ser mais ágeis, elásticas e responsáveis. Ágeis porque, à semelhança de start-ups de sucesso, conseguem reduzir custos fixos e burocracias, garantindo uma entrega mais veloz e barata. Elásticas porque sabem tirar partido do facto de tecnologias digitais estarem a romper barreiras e gerar convergência entre indústrias, criando parcerias com outras empresas para alargar e diversificar o portefólio. Responsáveis porque respondem às expectativas de consumidores e de todos aqueles que possam ser beneficiados ou afetados pela sua atuação, o que, numa sociedade conectada, é imperativo para garantir a aceitação da sua atividade e pode ser diferenciador.

Que modelos são garantia de êxito?
Empresas líder estão a abraçar a mudança, a fórmula de sucesso está em estratégias que apostam na simplificação e eliminação de redundâncias que lhes permite reduzir custos e reinvestir poupanças no seu crescimento e diferenciação. Apostando em capacidades digitais para colocar o cliente no centro da operação, as empresas estão não só a garantir maior produtividade dos recursos mas também a redefinir a sua oferta por via de parcerias e/ou integração de capacidades que lhes permitem diversificar o portfólio e antecipar a entrada de emergentes, não se deixando intermediar por novos modelos.

O P&R é feito em parceria com a Accenture Strategy

Os novos modelos de crescimento segundo os especialistas

Emanuel Agostinho
Accenture , Portugal

A aposta em tecnologias digitais é já um imperativo para a maioria das empresas portuguesas. Segundo um estudo da Accenture Strategy, 62% dos executivos investem em digital com o objetivo de aumentar a eficiência de processos e reduzir custos. Não obstante, estão atentos ao facto de a tecnologia estar a potenciar a criação de novas empresas e modelos de negócio que, tirando partido do digital, reduzem a necessidade de recursos e atendem a necessidades não satisfeitas dos consumidores. Como tal, não será de estranhar que os executivos também destaquem o papel do digital enquanto alavanca na satisfação das necessidades dos seus clientes (30%) e fazer face a novos concorrentes (20%). O desafio que se coloca às empresas está portanto na combinação entre tecnologia e negócio que as capacite para contrapor ou abraçar os modelos de negócio do futuro, garantindo-lhes não só maior agilidade operacional mas também estar mais próximas dos clientes.

Frédéric Félicité, Institut Entreprise, França

Há alguns anos que é difundida a ideia de que o crescimento perpétuo seria uma anomalia. Durante um longo período, a norma seria a “estagnação secular”. Afastar esta hipótese sombria depende das empresas porque são elas que estão na origem da inovação que gera crescimento. O problema é que esta abordagem tem dificuldade em convencer: para lá da sua utilidade pontual, que crescimento adicional geram o Apple watch (aparelho de luxo), a impressão 3D (uma gota de água no oceano industrial) ou a Uber (substituto para serviços que falham)? Uma resposta simples: com quem, para quem, como inovar? Com quem: a inovação precisa de investir no capital humano, através de sistemas competentes de educação e formação contínua. Para quem: a transição energética é, hoje, o desafio tecnológico lançado às empresas. Como: a revolução digital é a alavanca mais potente de transformação, difusão e aceleração deste novo crescimento.

Luís Filipe Pereira Presidente FAE, Portugal

O crescimento para as empresas está normalmente ligado à evolução dos mercados em que atuam ou a novos mercados em termos geográficos. Existem, porém, outras fontes de crescimento para as empresas resultantes de novos modelos ou formas de negócio (new business models), os quais são originados pela evolução das tecnologias e/ou pelas mudanças culturais e de valores da sociedade. Surgem assim oportunidades de crescimento que derivam da satisfação de novas necessidades (ou de uma forma nova e diferente de as satisfazer) e da evolução tecnológica. Por exemplo, a nova abordagem da Uber, desafiando e competindo com a tradicional oferta prestada pelos táxis, é possível pela existência de um novo business model que se baseia de facto na evolução tecnológica (apps e smartphones) e na evolução da procura pelos consumidores que procuram satisfazer as suas necessidades de forma diferente (mudança cultural).