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Expresso

O Futuro do Crescimento

Sustentável, 
SA : a alternativa mora aqui

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Sector elétrico tem procurado tecnologias mais eficazes 
na redução das emissões

PATRICK PLEUL

Sustentabilidade: mais do que uma agenda política, o ambiente entrou na estratégia das empresas em busca de uma viabilidade de longo prazo

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

Sustentabilidade ambiental, responsabilidade social e resultados económicos. “Este triângulo é, na atualidade e para o futuro, totalmente indivisível.” Quem o diz é Rui Teixeira, administrador da EDP que durante sete anos comandou a área financeira da EDP Renováveis. O gestor conhece bem, portanto, o desafio de conciliar a aposta numa energia limpa (a eólica) e a missão essencial de qualquer empresa, que é ganhar dinheiro.

Rui Teixeira nota que a dimensão ambiental do crescimento sustentável se traduz não só no aproveitamento de energias limpas mas também no “cumprimento integral das medidas ambientais desenvolvidas e acordadas com as autoridades dos diferentes países”. Por outro lado, o conceito de crescimento sustentável — tema que será debatido no dia 22 na Cimeira o Futuro do Crescimento organizada pelo Expresso e a FAE e com parceria da Accenture — contempla a integração das empresas na sociedade. “A dimensão social resulta do envolvimento das comunidades locais, com particular enfoque durante o desenvolvimento e construção dos projetos, bem como o desenvolvimento de programas nacionais no desporto, cultura, educação e ação social”, acrescenta o gestor da EDP.

E como podem as empresas equilibrar os desafios ambientais do planeta com o crescimento? Parte da resposta às alterações climáticas pode passar por sermos mais eficientes no uso dos recursos, mas também há, diz Rui Teixeira, “bons exemplos” de como os desafios ambientais podem ser oportunidades de crescimento. Nesse cabaz de oportunidades o executivo mete os investimentos em energias limpas, a eletrificação de zonas rurais e as soluções de mobilidade elétrica.

Fernanda Pargana, secretária-geral do BCSD Portugal (Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável), nota que “o crescimento económico, o progresso e o bem-estar virão da conjugação de fatores e de pessoas que, em comum, reconhecem as oportunidades que a transformação para uma economia de baixo carbono traz”. A mesma responsável defende que “as empresas têm interesse em contribuir para esse objetivo, porque não sobreviverão numa sociedade que não prospera”.

O BCSD Portugal vem tentando evidenciar o contributo das empresas para uma economia de baixo carbono e, segundo Fernanda Pargana, há “muitos e bons exemplos”. É o caso da CUF Químicos Industriais, de Estarreja, que investiu numa nova fábrica de ácido nítrico que reduziu o seu consumo de gás natural em 35%. E da Herdade do Esporão, que já reduziu os custos com energia e água: investiu em painéis solares e, paralelamente, baixou o consumo de água de 3 para 1,6 litros por cada litro de vinho.

Ganhos para as boas práticas
Grande parte das soluções tem passado pela poupança de energia e pela reciclagem. Mas a ideia de crescer de forma sustentável tem incluído outras iniciativas, como permitir aos colaboradores da empresa reservar parte do horário de trabalho para ações de voluntariado, canalizar verbas para mecenato cultural ou apoiar o envolvimento da comunidade local na proteção do ambiente. Mas é claro que uma empresa sustentável só o será enquanto os resultados económicos forem positivos e a própria existência da empresa não esteja ameaçada.

Há ainda ganhos indiretos com as “boas práticas”. Várias empresas portuguesas, entre as quais a Galp e a EDP, fazem parte dos Dow Jones Sustainability Indices, que classificam companhias cotadas em bolsa em função de indicadores de sustentabilidade. Rui Teixeira enfatiza a importância disso na notoriedade da empresa no mercado de capitais. Segundo o gestor, há investidores socialmente responsáveis que “têm como missão investir em companhias que cumpram critérios muito estritos de sustentabilidade e que utilizam estes índices para identificar oportunidades de alocação de capital”.
A Galp tem encetado esforços para minimizar o impacto ambiental das suas plataformas petrolíferas. “Nas atividades de exploração e produção que desenvolve, a Galp privilegia a utilização de equipamentos de última geração na fronteira da tecnologia no que refere à eficiência energética”, indicou fonte da empresa ao Expresso, lembrando que também na reconversão das suas refinarias em Portugal conseguiu uma maior eficiência.

Para muitas empresas a grande crise financeira global travou o acesso ao crédito. As limitações de tesouraria introduziram na gestão dos negócios uma elevada pressão. Preocupados em conseguir pagar aos fornecedores, terão os empresários tido tempo para se preocupar com o tema da sustentabilidade? E esse desígnio é mais fácil numa grande companhia do que nas pequenas e médias empresas (PME)?

Fernanda Pargana reconhece que em alguns casos a dimensão é relevante para obter ganhos de escala, mas sublinha que “as PME que hoje são competitivas sabem que para lá chegar têm que ser eficientes e transparentes”. “É cada vez maior o número de empresas que têm exigências de desempenho ambiental e social aos seus fornecedores”, aponta a secretária-geral do BCSD Portugal. E em muitos mercados externos, acrescenta, há exigências de reporte ambiental e social que podem ser “autênticas barreiras para quem não fez o trabalho de casa”.

Rui Teixeira acredita que a dimensão da empresa não é o mais relevante. “O importante é ter uma ‘cultura de sustentabilidade’, com a participação ativa dos nossos colaboradores no processo, objetivos bem definidos e a manutenção do foco no sucesso desta estratégia”, diz o gestor da EDP.

No plano social, surge uma outra questão. Se uma empresa, para poder manter a solidez económica e financeira, reduz custos despedindo trabalhadores, pode ser classificada como sustentável? Fernanda Pargana assume que o desemprego em Portugal é preocupante mas nota que “isso é algo que uma empresa, num contexto competitivo, não consegue resolver sozinha”. A resposta que as empresas podem dar ao nível da empregabilidade deverá passar por uma adaptação do sistema de ensino. “Sem querer simplificar um problema que é estrutural e de grande complexidade, parte do desemprego resulta também de um desajustamento entre as competências que as empresas precisam e o que os alunos aprendem nas escolas”, frisa a porta-voz do BCSD Portugal.

P&R

Em debate na cimeira

O Crescimento Sustentável é um dos temas em discussão no International Summit of Business Think Tanks de dia 22. Porquê crescer de forma sustentável?
O modo de vida atual não é sustentável. Segundo a OCDE a cada ano consumimos 50% mais do que repomos. O crescimento da população e as desigualdades sociais ameaçam intensificar o problema sendo necessário produzir nos próximos 40 anos as mesmas quantidades de alimentos que produzimos nos últimos 8000 anos, o que significa que até 2050 teremos de quadruplicar a produtividade global de recursos. O crescimento sustentável obriga à mudança do paradigma atual. É nesta conjuntura que entra a denominada Economia Circular.

O que é a Economia Circular?
Economias e empresas têm explorado recursos de forma linear, extraindo matérias-primas e transformando-as em produtos que são utilizados e mais tarde descartados. Numa economia circular o crescimento é dissociado do uso de recursos escassos por via de tecnologias disruptivas e modelos de negócio que apostam na longevidade, renovação, reutilização, partilha e desmaterialização.

Como transformar lixo em riqueza?
A promessa é bilionária: 4,5 biliões de dólares nos próximos 15 anos. Um estudo da Accenture Strategy estima que eliminando o conceito de lixo e adotando modelos circulares as empresas ganham vantagem competitiva sobre empresas tradicionais ficando mais ágeis e alinhadas às necessidades dos consumidores. Tomemos como exemplo um berbequim elétrico e utilizado durante 20 minutos, quando é necessário um furo, e a acumular pó uma vida inteira. E se os utilizadores tivessem acesso conveniente à ferramenta apenas quando necessário? Este conceito pode e está a ser aplicado a muitos outros produtos e negócios.

Qual a relevância do digital no processo de transformação?
A adoção de modelos circulares obriga empresas a capitalizar não só na venda mas também no pós-venda, e a criação de lucro passa a estar na otimização da performance dos produtos ao longo do seu ciclo de vida. O conceito não é novo mas a sua adoção maciça é hoje uma realidade potenciada por novas tecnologias. Um exemplo paradigmático é a Airbnb, uma empresa que permite alugar quartos ou casas a membros através de uma plataforma online que já destronou as maiores cadeias hoteleiras em número de quartos. As tecnologias digitais, ao permitirem a visibilidade e controlo remoto de ativos e troca em tempo real de informação, agem como um enorme facilitador de modelos de negócio circulares alterando a forma como empresas e consumidores interagem.

O P&R é feito em parceria com a Accenture Strategy

O crescimento sustentável segundo os especialistas

Paulo Carmona Presidente ENMC, Portugal

A sustentabilidade está apoiada em três esferas em constante equilíbrio: social, ambiental e económica. Nenhuma delas pode alcançar uma predominância. Se olharmos apenas para a ambiental corremos o risco de perder competitividade, aumentar o desemprego, com consequências no desenvolvimento económico e social das populações. A sustentabilidade social não pode tomar prioridade sobre as restantes, pois necessita de ser financiada pelo crescimento económico, e o bem-estar das populações não pode causar danos irreparáveis nos biossistemas e na biodiversidade. E a sempre esquecida esfera económica não pode criar desajustamentos e desigualdades passíveis de provocarem ruturas sociais, nem a exploração desenfreada de recursos pode condenar o planeta a um declínio irreversível. O equilíbrio das três esferas é fundamental.

Joseph J. Minarik, vice-presidente CED, EUA

Historicamente, o capitalismo aumentou os salários e diminuiu a pobreza. Mas, recentemente, as nações capitalistas enfrentaram a maior crise financeira no espaço de um século. O moral das pessoas e a vida económica sofreram. Quer os críticos estejam bem ou mal, o certo é que precisamos de uma economia saudável em que os cidadãos tenham confiança. Um país sem um consenso público não pode chegar a um compromisso doloroso para o interesse comum. É necessário que os líderes financeiros demonstrem o papel do capitalismo na ligação entre interesses individuais e comuns. Precisam de explicar as vantagens e os limites do capitalismo na criação de trabalho e no aumento de prosperidade. É importante colocar o capitalismo nos eixos, torná-lo sustentável e unir pessoas de sensibilidades diferentes à volta do princípio base que o nosso sistema económico pode funcionar para todos.

Aníbal Fernandes Presidente ENEOP, Portugal

Quando se aborda o tema da sustentabilidade em Portugal é incontornável falar da ENEOP. A empresa foi criada para concorrer a um concurso público internacional para o aproveitamento do vento na produção de eletricidade. Tendo ganho o concurso com mérito excecional, criou uma nova fileira industrial no país para o fabrico dos aerogeradores que se propunha instalar. Com esta abordagem, foram construídas sete novas fábricas e associadas 29 empresas nacionais num cluster cujo investimento se cifrou em €223 milhões. Criaram-se 1953 novos postos de trabalho qualificado. O investimento nos parques eólicos foi de €1623 milhões, parques esses que produzem 3640 GWh de energia limpa que, por isso, evitam a importação anual de combustíveis fósseis de cerca de €170 milhões. É, por tudo isto, o projeto estruturante mais importante das duas últimas décadas na área da energia em Portugal.