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Expresso

O Futuro do Crescimento

Fazer melhor o que já fazemos bem

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Exportar é crescer. A eficiência dos portos portugueses é um fator crítico na logística do crescimento

Rui Duarte Silva

Exportações: o modelo virtuoso de crescimento reside no turismo e na venda no exterior de produtos cada vez mais sofisticados e inovadores

De onde vem o crescimento? Não há receitas mágicas, nem soluções milagrosas replicáveis. Mas, o segredo reside nos bens transacionáveis e nos sectores exportadores, incluindo o turismo. O crescimento está tanto em florestas com elevada taxa de incorporação de valor acrescentado nacional, como na exportação de um fungicida orgânico, único no mundo, fabricado em Cantanhede para os agricultores dos Estados Unidos, ou na pera rocha do Oeste que faz as delícias dos consumidores alemães. Recuperando a lógica do relatório Porter, o importante é sofisticar nos produtos que Portugal já faz bem e está entre os melhores.

Com humildade, Daniel Bessa, diretor-geral da Cotec, duvida que “alguém saiba” a fórmula do sucesso, e adverte que nas economias mais desenvolvidas “não há sectores estratégicos”. Em todos os negócios encontram-se empresas que se destacam do pelotão, “com base nas vantagens que souberam construir”. Se já somos fortes “a exportar máquinas, cortiça, têxtil ou calçado é aí que devemos reforçar competências, produzindo mais e melhor”, defende João Koehler, o industrial que foi jurado no “Shark Tank” e preside aos jovens empresários.

O mundo está cheio de oportunidades, “mas elas não caem do céu e têm de ser construídas”, adverte Alberto Castro, presidente do Banco de Fomento. Uma solução virtuosa é “cruzar experiências, gerar sinergias entre negócios tradicionais e novas ferramentas, sofisticando o produto final”. Nos têxteis técnicos, as doses de eletrónica ou biotecnologia incorporadas concedem um estatuto multissectorial aos produtos. O professor classifica como inquinada a eterna discussão sobre se deve ser o Estado ou o mercado a liderar o crescimento, defendendo uma solução intermédia em que o Estado “promove a inovação e a competitividade”, puxando pelo tecido industrial.

Já Carlos Oliveira, o criador de empresas que preside à agência InvestBraga, diz que ao Estado cabe garantir “condições de contexto favoráveis” e depois “sair da frente”, deixando aos empreendedores decidirem da sua vida. Pedro Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade, lembra que Portugal “é o país da Europa em que as empresas perdem mais tempo a tratar de burocracias” e, sobre o papel dirigista do Estado, cita o exemplo japonês. Nos anos 50, o Ministério da Economia desencorajara investimentos na indústria automóvel por ser demasiado complexa e sofisticada. Ferraz da Costa adverte que o excesso de pequenas empresas no tecido industrial “trava o crescimento” e os resultados dos incentivos “seriam potenciados se aplicados em médias empresas, com outra escala e organização”.

João Koehler reconhece que os estados “também competem nos incentivos” e concorda com “discriminações positivas” para promover sectores, como as empresas de base tecnológica, que o país decida acarinhar.

Exportar 65% do PIB
Numa das suas últimas intervenções públicas, o governador do banco de Portugal, Carlos Costa, recordou à plateia de 200 gestores e empresários que “nem todo o crescimento é virtuoso e sustentável”, para defender depois o modelo assente em ganhos de produtividade e exportações. Um país com a dimensão de Portugal “não se pode contentar em exportar 40% do produto interno bruto (PIB), mas ambicionar atingir os 65%”, seguindo o desempenho de países como a Holanda. Para isso, é “essencial as empresas ganharem escala, conseguirem inovar e sofisticar os seus negócios”, concedendo-lhe organização, visão estratégica e gestão qualificada.

Pedro Arroja, professor e gestor de ativos, defende “estímulos de inovação nos sectores em que Portugal beneficia de competências tradicionais reconhecidas — o turismo em primeiro lugar, o vinho, o vestuário, o calçado, vários ramos da indústria ligeira, as pescas, a exploração mineira e ainda um sector de grande potencial e frequentemente esquecido — a saúde”.

E Daniel Bessa desafia: quem antecipava há uns anos que Portugal poderia brilhar na exportação hortofrutícola (frescos e transformados)? O sucesso não decorre de “vantagens de carácter natural que são as mesmas, mas da competência de novos empresários, com recurso a novos modelos de negócio e gestão”.
Carlos Oliveira deteta vantagens nos centros de engenharia, outsourcing de serviços remotos e partilhados e no papel revigorante no tecido empresarial de uma indústria com uma carga forte de software e digital. Um dos motores de crescimento reside nas empresas do conhecimento, com vocação global e projetos escaláveis, que conseguem gerar empregos mais rapidamente e exigem um investimento inicial reduzido.

Nos mercados, Carlos Oliveira aceita que se deve “seguir as regiões que prosperam”, mas introduz uma detalhe: o que o conta é o crescimento do consumo de um produto específico e qual o estado da concorrência interna. Quanto liderava a Mobicom (vendida à Microsoft), a sua estratégia era vender “para mercados mais desenvolvidos e sofisticados”, mas cabe a cada empresa traçar “a sua própria rota”, escolhendo parceiros credíveis em cada país.
Alberto Castro sugere que a avaliação seja feita por cidades e não por países — em vez de Brasil, apostar em São Paulo ou Rio de Janeiro. Defende destinos “mais exigentes e evoluídos”, como os Estados Unidos, que estimulem “a sofisticação dos produtos”. Angola, por exemplo, não encaixa neste perfil. Daniel Bessa verifica “a excessiva dependência do mercado espanhol” e, fora do espaço europeu, classifica como “perigosa a dependência do mercado angolano”, que “só poderá diminuir”.

Com as economias emergentes a perder gás, Pedro Arroja sugere um esforço suplementar nos “países do círculo anglo-saxónico com Estados Unidos e Canadá à cabeça”. João Koehler subscreve e acrescenta, para romper a excessiva exposição à União Europeia, a região do Magrebe “aqui tão perto” e na qual os produtos portugueses têm uma presença reduzida.

P&R: Em debate na Cimeira

O que é o International Summit of Business Think Tanks?
É um evento que junta — em vários países — empresas, economistas e representantes institucionais de todo o mundo para debater o futuro. Chega pela primeira vez a Portugal através da Cimeira O Futuro do Crescimento, organizada pelo Expresso e a FAE (Fórum de Administradores de Empresas), com a parceria da Accenture.

Quais serão os temas debatidos?
De Onde virá o Crescimento; O Crescimento Sustentável; Novos Modelos de Crescimento; e A Força de Trabalho no Futuro.

Como acelerar a produtividade?
As empresas e os governantes dos países podem, e devem, aumentar e acelerar a produtividade sem delapidar mais recursos. O novo paradigma tecnológico sustentado em competências digitais pode ser a alavanca ao facilitar o desenvolvimento de soluções inovadoras, aproximar empresas a clientes e pôr em prática as capacidades que permitem garantir maior eficiência nas operações.

Que alavancas acionar para estimular o crescimento?
Estudos revelam que, para a maioria dos administradores, o investimento em capacidades digitais é uma prioridade para os próximos três anos. A aposta digital vai capacitar as empresas das soluções tecnológicas e parcerias que lhes permitam ser mais ágeis e aproximar-se dos clientes facilitando respostas customizadas e em tempo real, garantindo deste modo a eficiência operacional e drive necessários para acelerar o crescimento económico e regressar aos níveis pré-crise.

Qual a importância de um crescimento económico sustentável?
O impacto da recessão económica ainda se faz sentir nas economias mundiais, sobretudo nas desenvolvidas, cuja recuperação tem sido limitada e evoluído a um ritmo lento. As dificuldades na recuperação são acentuadas por disparidades que ainda se fazem sentir mas, sobretudo, pela incerteza gerada por incidentes geopolíticos e económicos. É por isso que muito embora o desenvolvimento contínuo e sustentável da economia seja fundamental para garantir a subsistência e qualidade de vida das populações e a garantia dos Estados, o foco no crescimento económico não pode ignorar problemas sociais mais prementes como a crescente desigualdade e níveis de desemprego que estão a gerar migrações maciças ou a degradação ambiental resultante da exaustão de recursos.

De onde virá o crescimento segundo os especialistas

Julio Saavedra, CESifo Munique

Quando o produto interno bruto (PIB) se torna maior ou menor do que a contribuição do trabalho e de capital, a produtividade total dos fatores (PTF) entra em jogo. Em termos simples pode-se dizer que mede a eficiência com que uma economia combina produtividade e finanças. É calculado como o aumento percentual que não está relacionado com alterações no volume de capital ou mudanças na força de trabalho. Por exemplo, se as trocas financeiras e o número de trabalhadores subirem, cada uma 2% e o crescimento total for de 3%, quer dizer que o PTF subiu 1%. Só se este valor for positivo é que as economias conseguem prosperar de forma sustentável. Os diversos fatores que determinam o PTF estão todos dependentes do progresso tecnológico que, por sua vez, depende de uma questão-chave: o conhecimento. É daqui que advirá o crescimento. O objetivo da “Agenda de Lisboa” de converter a União Europeia numa economia baseada no conhecimento acerta, por isso, na mouche. Mas a sua aplicação tem sido, até agora, patética. É aí que temos de trabalhar.

Juan Cacicedo, Círculo Empresários Madrid

Crescimento económico sustentado e balanceado é a única forma de sair da crise, criar crescimento, manter o Estado social e atingir estabilidade económica e social. Só vamos ultrapassar estes grandes desafios que ameaçam as nossas democracias se colocarmos as economias a crescer e aumentarmos o tamanho das empresas. Para atingirmos esta meta, uma estrutura institucional estável e de alta qualidade, comportamentos éticos, respeito pelo ambiente e oportunidades iguais para todos são essenciais. É muito importante que a recuperação e o bem-estar chegue à sociedade como um todo. Por isso, o conceito-chave em que os think tanks e as instituições da sociedade civil se devem focar não pode ser outro que não crescimento sustentável. Deve ser o eixo central das políticas económicas desenvolvidas no futuro.

Luís Pedro Duarte, Accenture Strategy Lisboa

É com expectativa que assistimos a uma recuperação das economias mundiais, apesar de a mesma se fazer a um ritmo lento e abaixo dos valores pré-crise, sobretudo nos mercados mais maduros. Sabendo que do lado da procura estão garantidas as condições para relançar o crescimento, revigoradas por novos padrões de consumo, cabe a empresas e governos encontrar novas soluções. Um estudo da Accenture Strategy sobre a Industrial Internet of Things, revolução tecnológica que permite a comunicação entre objetos e o ambiente, aponta para um crescimento do PIB em 10,6 biliões de dólares até 2030 em 20 países analisados. Esta previsão faz-nos acreditar que a resposta pode estar na transformação digital, enquanto facilitadora do desenvolvimento de soluções inovadoras.

Textos originalmente publicados no Expresso Economia de 12 de setembro de 2015