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Nova Agricultura

Usar caroços de azeitona para fazer crescer tomate

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Paulo Maria investiu €80 mil para instalar uma caldeira, que destrói tudo o que possa ser considerado biomassa, neste caso caroço de azeitona

ABBAS MOMANI

Um agricultor de Torres Vedras está a usar caroços de azeitona para fazer crescer tomate em estufas aquecidas a biomassa. E o que ganha com isso? Antecipa a colocação do produto no mercado, a um preço mais competitivo

Rubina Freitas

Os pais de Paulo Maria queriam que ele estudasse mais uns anos, mas o rapaz queria seguir as pisadas familiares e trabalhar no campo. Bateu o pé, saiu da escola cedo e hoje aos 48 anos garante que continua a fazer o que gosta.

E o que é isso? Plantar. Sobretudo tomates na região de Torres Vedras, que permite duas culturas ao ano. Das 2,5 toneladas produzidas o ano passado na Hortomaria, sociedade que fundou em 1997, depois de vários anos a solo, duas toneladas foram de tomate, o resto ficou para a curgete, alface e feijão-verde.

Os pais já eram agricultores, mas foi Paulo Maria que iniciou a produção em estufa. "Era tudo primitivo", recorda. A rega era através de um rego. Aprendeu tudo sobre a arte, introduziu sistemas de regas mais modernos, apostou na tecnologia mais eficaz e hoje está a testar a produção de tomate em estufas aquecidas a biomassa.

Com as alterações climáticas, os riscos próprios da agricultura e as oscilações do mercado, sentiu a necessidade de inovar em Portugal para ter produção a ser comercializada em abril, altura em que Espanha é o único país da Europa a ter produção. "Se não tivermos estufas aquecidas, não temos produção ainda nessa altura e só teremos em maio ou junho, quando os preços já são mais baixos, porque a maior parte dos países europeus já está a produzir e os preços não suportam os custos de produção", explica o agricultor, esclarecendo que isso já não acontece com a segunda cultura em setembro, uma vez que na Europa não se consegue produzir nessa altura devido às altas temperaturas, atenuadas junto à costa portuguesa. "Estamos pertinho de Santa Cruz, conseguimos temperaturas melhores", assume.

Ao fim de um ano de experiências, o horticultor garante que "é possível antecipar a produção um mês", conseguindo assim preços mais competitivos. A experiência é para repetir. "Temos de fazer contas para ver se compensa o investimento", assegura. E a qualidade? "É ótima, porque no fundo estamos a dar condições ideias para a planta crescer", revela. "A temperatura ideal é de 23 graus, abaixo de 12º não cresce e temos isso em janeiro e fevereiro, muitas vezes menos", clarifica.

O investimento, de cerca de 80 mil euros, consistiu em instalar uma caldeira, que destrói tudo o que possa ser considerado biomassa, neste caso caroço de azeitona, que vem de Beja. Ao longo da estufa, instalou tubos de plástico que transportam o ar quente até junto do pé da planta.

A HortoMaria fechou 2015 com um volume de negócios de €2,4 milhões, tem 12 hectares de estufas e emprega entre 35 a 40 trabalhadores nas épocas de maior produção. O produto é vendido em exclusivo para uma organização de produtores que trata de escoar o produto. Mais de metade vai para o mercado externo, sobretudo Espanha e Inglaterra, existindo ainda um leilão diário do produto.

Até 26 de julho de 2016, acompanhe de segunda a sexta um caso nacional de inovação agrícola, com o apoio do Prémio Produção Nacional, um projeto do Expresso e do Intermarché