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Nova Agricultura

Inovação que vem nos genes e dá prémios aqui e lá fora

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Galardoado com o Prémio de Projeto Mais Inovador da Europa, Henrique Silvestre Ferreira brinca que nasceu "no meio das uvas"

Nuno Botelho

Henrique cresceu numa família de produtores, mas preferiu não ficar à sombra destes, criando a própria produção de uvas sem grainha numa terra onde, garantiam, não daria nada

Rubina Freitas

Quando Marcelo Rebelo de Sousa o felicitou por ter ganho o prémio para o Projeto Mais Inovador da Europa, Henrique Silvestre Ferreira, 27 anos, não podia ter ficado mais contente. "Senti que era um prémio para Portugal", entusiasma-se o agricultor de Ferreira do Alentejo, que já tinha sido galardoado em Portugal e que não caiu no sector da produção por acaso. "Nasci no meio das uvas", brinca.

A verdade é que nem é o primeiro da família a receber distinções de Belém. O pai recebeu uma comenda agrícola pelas mãos de Cavaco Silva e já o avô já tinha recebido igual distinção mais lá para trás. E isso acarreta responsabilidades acrescidas. Foi o avô da zona de Torres Vedras quem descobriu o oásis alentejano para a agricultura. Começou primeiro por transportar produtos das zona Oeste para Ferreira do Alentejo, para depois começar a produzi-los. O único problema era a água, numa altura em que a barragem do Alqueva nem sequer era miragem. Fez furos, venceu as adversidades da terra e começou a plantar melão, tomate e favas na zona. "O meu pai diz que o meu avô chegou a ter mais de 1000 pessoas no campo para a colheita", assume. "Naquela altura era completamente inovador", diz. Está nos genes.

Quando veio a revolução de Abril, a família que já estava no negócio das uvas, perdeu as terras e foi para o Brasil, onde se instalou em Maringá, no Paraná, e manteve-se no sector, com a criação de gado e a agricultura de mãos dadas. O avô voltaria ao Alentejo, mas o pai de Henrique ficou pelo Brasil, onde os filhos nasceram. Foi lá que começou a plantar uva sem grainha depois de ver um artigo na “Time”, que o levou a mandar um funcionário à Califórnia adquirir exemplares.

A morte do avô ditou o regresso da família a Portugal, onde o pai herdou a propriedade Vale da Rosa e se dedicou ao negócio que já prosperava no Brasil. Henrique Silvestre Ferreira cresceu neste ambiente. "Estudei em Lisboa, mas ansiava pelos fins de semana para regressar ao Alentejo", assume. Quando chegou a hora de escolher o curso superior, preferiu Engenharia Agrónoma em Évora, para estar mais próximo das origens. Fez Erasmus em Madrid, onde aprendeu muito de horticultura, e especializou-se em uva sem grainha em Inglaterra, numa empresa exportadora das uvas da família. O pai deu-lhe 100 hectares de terra, que nunca tinha sido cultivada. "Estava cheia de pedra e os mais velhos garantiam-me que não sairia nada dali", recorda.

A ideia era plantar vinhas e apostar na uva sem grainha, mas não tinha dinheiro. "Era um miúdo de 23 anos", recua. Foi à experiência do avô que foi beber inspiração. Cultivou brócolos, pimentos, abóboras butternut, melão, melancia e meloa, em 75 hectares da Herdade do Vale Bom, graças à água do Alqueva. Chegou a ter 20 pessoas a trabalhar para si e começou logo a faturar. Foi com esse dinheiro, mais os fundos do Proder e empréstimos bancários que plantou os primeiros seis hectares de uva de mesa. Levou a experiência do pai, Silvestre Ferreira, ainda mais longe, já que apostou igualmente no sistema pérgula, sob estufas - que são "uma espécie de guarda-chuva das uvas" - mas em vinhas mais altas, que permitem colheitas entre junho e novembro.

Não estava à espera do galardão, mas também não pretende ficar a gozar os louros. A ideia é alargar a vinha, sempre com objetivos ambientais e de poupança de água bem definidos e já está a trabalhar nas primeiras uvas com sabores do país, entre elas de manga. Parece estranho? Cultivar um terreno que toda a gente disse que não dava nada, também foi.

Até 26 de julho de 2016, acompanhe de segunda a sexta um caso nacional de inovação agrícola, com o apoio do Prémio Produção Nacional, um projeto do Expresso e do Intermarché