Siga-nos

Perfil

Expresso

Mês do Ambiente 2015

“O ambiente já chegou às salas de reuniões das grandes empresas”

  • 333

D.R.

Diretor do Carbon Disclosure Project (CDP) para a Europa, Steven Tebbe tem um percurso intimamente ligado à luta pelo desenvolvimento sustentável a nível empresarial. Agora no seu papel como um dos responsáveis por uma organização que inclui €86 biliões entre os seus parceiros, falou com o Expresso por Skype, enquanto olha com ânsia para o COP 21: “É suficiente? Não, precisamos de fazer mais”

Como surgiu a ideia de formar o CDP?
O conceito chave passou por levar a luta pela proteção do ambiente para o nível empresarial. Organizações não governamentais com origem na sociedade civil, como a Greenpeace ou a WWF, continuam a ser muito importantes mas não têm resultado só por si. É muito difícil ter aqui uma abordagem coordenada. Quisemos olhar para o problema de forma centralizada, falar com pessoas com poder, os responsáveis por grandes empresas que podem desempenhar um verdadeiro papel de mudança.

Mas assumem ser quase como “uma agência de rating do ambiente”. De que forma?
Quando começamos a fazer contactos junto dos responsáveis, tentamos perceber que tipo de informações é que precisavam de ter para mudar a sua abordagem ao ambiente e corrigir um erro de mercado. A partir daqui, criamos um questionário com estas informações para recolher junto do maior número de fontes possível para criar o maior repositório de dados ambientais do mundo, que nos ajuda a fazermos uma lista das empresas que estão a efectuar um bom trabalho e as que não estão. Assim, os 822 grandes investidores que fazem parte deste projeto conseguem perceber onde podem investir ou não de acordo com o risco associado. Uma vez que representam €86 biliões, aproximadamente 50% do capital disponível para investimento em todo o mundo, é fácil ver o impacto que podemos ter.


"Quisemos olhar para o problema de forma centralizada, falar com pessoas com poder, os responsáveis por grandes empresas que podem desempenhar um verdadeiro papel de mudança"

Que balanço fazem até agora deste trabalho?
É importante realçar que não somos ativistas. Só trazemos informações para guiar as ações com factos. A vantagem deste processo é que as melhores empresas têm acesso mais fácil a capital e vice-versa. E quando quase 60% das mais de 3000 empresas que nos fornecem os seus dados de emissão têm a redução destes números entre os seus principais objetivos, e perto de 50% querem eliminá-las totalmente, já podemos dizer que estamos a chegar a algum lado. Há cinco anos, os resultados em todos estes campos eram menos de metade. Mas pergunta-me: É suficiente? Não, precisamos de fazer mais.”

O que falta então fazer?
Temos que nos deixar guiar pelos factos científicos e não fazemos isso da forma necessária. O primeiro passo é admitir que se tem um problema. Uma das nossas grandes lutas é atrair empresas que ainda pensam que o problema do ambiente não passa por elas. Temos que nos esforçar, coagir com a falta de investimento que vão ter. E isso já está a acontecer. Veja, por exemplo, o caso do fundo de pensões estatal da Noruega, o maior de mundo. Estamos a falar de uma estrutura que muitos consideram o maior acionista bolsista da Europa. Recentemente, com base nestas informações, retiraram os seus investimentos em todas as empresas que não cumprem os pressupostos éticos nos combustíveis fósseis. Isto é só um primeiro passo.


"Uma das nossas grandes lutas é atrair empresas que ainda pensam que o problema do ambiente não passa por elas. Temos que nos esforçar, coagir com a falta de investimento que vão ter"

E Portugal, como se situa no vosso radar?
É um país com quem temos uma excelente relação. Uma das componentes do nosso programa passa pelo controlo das emissões das cidades, e Portugal é o país que tem mais cidades a reportar-nos em percentagem. Temos também, nos nossos quadros, 11 das empresas no PSI-20, com destaque para a GALP, EDP e SONAE, que têm uma abordagem global relativamente à sustentabilidade muito importante, e que têm pontuações perfeitas nos seus esforços ambientais. Trabalhamos agora para chegar a mais empresas.

Olhemos para a conferência ambiental COP 21, agora em Paris. Quais são as suas expectativas?
Não podemos negar que os objetivos dos países são bem mais ambiciosos do que em conferências anteriores. E que praticamente todos contribuíram, ao contrário de notórias ausências anteriores, como a China e os EUA. E, aqui, gostava de destacar o papel de Barack Obama. Espero e rezo para que tudo corra bem! Para este panorama contribui a instituição de metas voluntárias a serem discutidas, mas estas também acarretam riscos de insuficiência e não cumprimento. Por outro lado, estas são, na sua maioria, de muito curto prazo. Têm que se alargar os horizontes.


"Uma das componentes do nosso programa passa pelo controlo das emissões das cidades, e Portugal é o país que tem mais cidades a reportar-nos"

Ou seja, ainda não é o compromisso ideal…
É um passo importante na direção certa. Mas, por exemplo, todos os dados científicos apontam para um aumento máximo de temperatura que não pode ultrapassar os 1,5, 2º centígrados. Basta ver que se todas as propostas dos países do COP 21 se cumprirem na perfeição, sem qualquer desvio ou alteração, o que será muito complicado, teremos um aumento que se situará nos 2,7º centígrados. O que ainda é um valor gigante para o planeta.

Como podemos garantir que se cumprem, pelo menos, estas metas?
Logo no final da conferência têm que se implementar mecanismos muito apertados de controlo sobre as medidas voluntárias com que todos os países se comprometeram. Sem esquecer que muitas das emissões reportadas estão muito abaixo daquilo que são na realidade, e que a questão das responsabilidades históricas ainda vai pesar e muito. Um dos métodos deve passar por colocar um preço no carbono. É simples: se poluir, paga. É uma forma clara de incentivar o bom comportamento.

E onde se vai enquadrar o CDP?
Sentimos que começamos agora mesmo. A nossa convicção é que podemos fazer ainda mais. Queremos chegar a mais investidores para que percebam verdadeiramente o impacto que podem ter no ambiente. É um processo educativo. E é a perder dinheiro que vão perceber.