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Expresso

Mês do Ambiente 2015

COP21: clima de insegurança

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As mudanças climáticas provocam pobreza, fome, violência e migrações descontroladas. Na semana passada, centenas de refugiados foram bloqueados na fronteira entre Grécia e Macedónia

GEORGI LICOVSKI

Ambiente: especialistas da conferência do Clima, em Paris, ligam o aquecimento global à segurança, ao terrorismo e aos refugiados e receiam que os políticos apenas queiram resolver os problemas do curto prazo e do Estado Islâmico

É preciso reduzir o aquecimento global, mas é através do debate sobre o terrorismo e as migrações que a Conferência da ONU sobre o clima (COP21) — que começa dentro de dois dias e reunirá 150 chefes de Estado e de Governo e mais 35 mil participantes em Le Bourget, nos subúrbios a norte de Paris — vai tentar atingir os seus objetivos.

Quinze dias depois dos atentados no coração da capital francesa (130 mortos, 350 feridos), o estado de alerta está no ponto máximo em Paris e nas fronteiras francesas, com cerca de 11 mil polícias e 10 mil militares mobilizados em permanência durante os 12 dias da COP21.

Devido às chacinas e à segurança jamais vista em redor de uma reunião, os participantes terão evidentemente os recentes ataques de invulgar selvajaria na cabeça. Os debates sairão por esse motivo do estrito círculo da ciência e da ecologia porque, dizem peritos, o aquecimento global tem consequências diretas nas ameaças terroristas e nos conflitos entre povos, que já hoje se guerreiam pelo acesso à água ou a terras cultiváveis.

“Existem os refugiados do clima, as mudanças climáticas provocam pobreza, fome, violência e migrações descontroladas, aumentam o risco do terrorismo no mundo e de conflitos em zonas já atravessadas por fortes tensões políticas, étnicas, religiosas e sociais”, diz Daniel Cohn-Bendit, referência dos movimentos políticos ecologistas franceses e alemães.

Este forte vínculo entre o aquecimento global e a segurança do planeta não é de hoje e foi realçado já em 2008 num relatório premonitório da União Europeia, elaborado pelo seu alto responsável para os assuntos externos e a segurança. Devido às alterações climáticas, às consequentes secas e falta de alimentos, previam-se nesse documento grandes tensões e movimentos incontroláveis de populações em África, nos Médio e Próximo Orientes e na Mesopotâmia. Sete anos depois, aconteceu tudo o que se antevia. Muitos outros especialistas, alguns deles reputados economistas e universitários, alertaram nos últimos anos para a inevitabilidade de crises graves devido às mudanças no clima.

Muitos militantes de Organizações Não Governamentais participantes na COP21 pensam, no entanto, que esta realidade poderá não ser debatida a fundo nos próximos dias, em Paris. Receiam que a luta contra o aquecimento seja colocada em segundo plano precisamente devido aos atentados na capital francesa. Temem que os políticos privilegiem a discussão de problemas imediatos — a destruição do Estado Islâmico (EI) e a segurança a curto prazo — em prejuízo das questões fundamentais que o aquecimento levanta.

Para eles, não é bom sinal que o Presidente francês, François Hollande, tenha andado esta semana em reuniões com os mais altos dirigentes do mundo para discutir a formação de uma coligação internacional para combater o EI e só tenha evocado a COP21 de forma subsidiária. “É um bom sinal de solidariedade para com a França, em guerra contra o terrorismo, que 150 chefes de Estado e de Governo estejam em Paris na COP21”, exclamou o chefe do Estado francês na Casa Branca, ao lado do seu homólogo norte-americano, Barack Obama. Foi apenas deste modo que Hollande se referiu publicamente à COP21, desde segunda-feira, 23.

No entanto, o Governo francês, através do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, e da ministra da Ecologia, do Desenvolvimento e da Energia, Ségolène Royal, garante que a COP21 será um sucesso. “Vamos chegar a um acordo global capaz de travar o aquecimento global que limite as emissões de CO2, não tenho dúvida alguma”, afirma a ministra, cuja faceta otimista é conhecida.

Segundo informações fornecidas ao Expresso pelo gabinete da ministra, “todo o mundo está de acordo sobre a necessidade de limitar o aquecimento do planeta abaixo dos dois graus daqui até ao fim do século porque as consequências serão dramáticas se não conseguirmos”.

Chegar a um consenso é, porém, complicado porque é necessário pôr em sintonia todos os 195 países representados na COP21 e que têm visões e objetivos económicos divergentes sobre as modalidades de um acordo. Por exemplo, países importantes como os Estados Unidos, a Índia ou a China são reticentes à formalização de um Tratado com regras obrigatórias e sanções em caso de não-cumprimento das metas, como deseja a França.

Pelo seu lado, muitos dos pequenos países do Sul consideram que a sua responsabilidade histórica em relação ao aquecimento é incomparavelmente menor do que a dos grandes países industrializados ou do que nações gigantes como a China, a Índia ou o Brasil. Atingidos por secas terríveis e outros fenómenos climáticos devastadores, provocados precisamente pelo aquecimento global para o qual pouco contribuíram, pedem ajudas financeiras imediatas para fazerem face aos problemas dramáticos e prementes que conhecem. Dizem igualmente que apenas deixarão as energias fósseis (petróleo, carvão...), poluidoras com gases com efeito de serra, se os países ricos os ajudarem a adquirir tecnologias alternativas.

Por esse motivo, o que estará em discussão igualmente na COP21 representa muito dinheiro porque o que se pretende é uma mudança de modelos comportamentais de fundo em todos os domínios da sociedade, um verdadeiro choque económico e cultural global. Em Paris fala-se na necessidade de ser criado um “fundo verde” de 100 mil milhões de dólares. Só a Índia, por exemplo, pede 2,3 biliões de dólares para se adaptar às novas regras.

Os franceses dramatizam o discurso. Tentam ligar Paris à salvação do planeta. “É uma urgência. Se não conseguirmos regular a questão da mudança climática, a vida na Terra será impossível”, diz Ségolène Royal. O problema é que, desconfia-se, que se vá falar muito mais na COP21 sobre o clima de guerra atual do que sobre o clima propriamente dito. “Porque é a primeira vez que uma COP se realiza num país em estado de emergência antiterrorista”, diz ao Expresso uma fonte diplomática.

Nuno Botelho

TRÊS PERGUNTAS A:
Rui Teixeira, Administrador da EDP

Os atentados terroristas dos últimos dias podem retirar o clima da agenda política internacional?
Não creio. O objetivo do COP21 permanece intacto. Aliás, houve uma decisão explícita do World Business Council e do COP21 de manter o evento e a discussão. O problema do terrorismo já existia antes. Não retira a importância estratégica da discussão sobre o combate às alterações climáticas, que faz parte do nosso dia a dia, só que nós não o sentimos no curto prazo. Continua a existir, seja do lado dos governos, seja do lado das empresas, uma vontade grande de ter um acordo ou um conjunto de iniciativas nesta reunião em Paris.

Que expectativas as empresas do sector energético têm relativamente à Cimeira de Paris?
O mais interessante do COP21 é que foi criado um ambiente colaborativo entre empresas e governos. Houve um conjunto de 16 empresas que definiram objetivos de renováveis. Uma das formas de acelerar a descarbonização e de combater o aumento da temperatura é através da introdução das renováveis. Quando as empresas de energia se juntam a outros sectores e identificam medidas reais que ajudam a combater as alterações climáticas, o que estão a dizer é: nós queremos fazer parte da solução. Independentemente de se pensar num acordo internacional sobre determinados objetivos, como foi o de Quioto, há claramente um número grande de empresas que já disseram “eu vou fazer isto, porque entendo que faz sentido do ponto de vista do crescimento económico sustentável”.

O mercado de carbono tem sido eficaz no combate às alterações climáticas?
Ultimamente tem dado sinais que não são os melhores. Já houve uma evolução durante o ano 2015, em que o preço do CO2 atingiu cerca de €8 por tonelada e já recuperou bastante dos níveis de €3 e €4. O que aconteceu no mercado de carbono foi que os governos mantiveram a oferta de licenças de emissão, embora do lado das indústrias que emitem carbono tenha havido uma redução da procura de licenças porque houve uma redução da atividade económica. Ultimamente a União Europeia criou uma forma de retirar do mercado algumas das licenças e fazer subir o preço. Ainda assim, há um consenso de que €8 por tonelada não é suficiente para justificar que indústrias mais poluidoras acabem por fechar. Isso hoje em dia vê-se na utilização do carvão para a produção de eletricidade na Europa em geral, que prevalece sobre a utilização do gás. Com os preços do CO2 como estão continua a ser mais barato produzir com carvão do que com gás.

Artigos originalmente publicados no Expresso de 28 de novembro