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Expresso

Mês do Ambiente 2015

“O terrorismo não esvazia o debate das alterações climáticas”

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"Pagar 8 euros por tonelada de CO2 não é suficiente para justificar que indústrias mais poluidoras acabem por sair da economia"

Nuno Botelho

Rui Teixeira, administrador da EDP com o pelouro da sustentabilidade, seguirá de perto a conferência do clima de Paris. “O mais interessante do COP21 é que foi criado um ambiente colaborativo entre empresas e governos”, diz o gestor em entrevista ao Expresso

Miguel Prado

Miguel Prado

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Os atentados terroristas dos últimos dias podem retirar o clima da agenda política internacional?
Não creio. O objetivo do COP21 permanece intacto. Aliás, houve uma decisão explícita do World Business Council e do COP21 de manter o evento e a discussão. O problema do terrorismo já existia antes. Não retira a importância estratégica da discussão sobre o combate às alterações climáticas, que faz parte do nosso dia-a-dia, só que nós não o sentimos no curto prazo. Continua a existir, seja do lado dos governos, seja do lado das empresas, uma vontade grande de ter um acordo ou um conjunto de iniciativas nesta reunião em Paris.

Que expectativas as empresas do sector energético têm relativamente à conferência em Paris e aos resultados que aí possam ser conseguidos?
O mais interessante do COP21 é que foi criado um ambiente colaborativo entre empresas e governos. Houve um conjunto de 16 empresas que definiram objetivos de renováveis. Uma das formas de acelerar a descarbonização e de combater o aumento da temperatura é através da introdução das renováveis. As 16 empresas em conjunto dizem: cremos que existem condições para até 2025 instalar mais 1,5 terawatts (TW) de potência de renováveis. À data existem cerca de 2 TW instalados no mundo. É possível fazê-lo. Quando as empresas de energia se juntam a outros sectores e identificam medidas reais que ajudam a combater as alterações climáticas, o que estão a dizer é: nós queremos fazer parte da solução. Independentemente de se pensar num acordo internacional sobre determinados objetivos, como foi o de Quioto, há claramente um número grande de empresas que já disseram “eu vou fazer isto, porque entendo que faz sentido do ponto de vista do crescimento económico sustentável”.

Havendo esse empenho das empresas energéticas continua a fazer sentido subsidiar a eletricidade de origem renovável?
Na atualidade os novos parques eólicos e solares que são feitos em zonas onde há um recurso forte não precisam de qualquer tipo de subsídio e isso tem-se visto nos leilões de energia, nos processos competitivos em que participamos. Se eu necessito de mais energia e vou propor a instalação de uma nova central, é mais competitivo que seja feito um parque eólico do que uma central de energia convencional.

"Em nenhum sítio está dito que as renováveis precisam de um subsídio. Acha que eu chegava à Google, Microsoft e Amazon para vender eletricidade e dizia “Quero fazer este parque eólico mas preciso que seja subsidiado"

"Em nenhum sítio está dito que as renováveis precisam de um subsídio. Acha que eu chegava à Google, Microsoft e Amazon para vender eletricidade e dizia “Quero fazer este parque eólico mas preciso que seja subsidiado"

Nuno Botelho

No entanto há uma área de fronteira, que é a da eólica offshore, em que a generalidade das companhias continuam a precisar de incentivos.
Quanto às empresas, quando elas dizem que querem participar no combate às alterações climáticas e que as renováveis devem fazer parte desse futuro, em nenhum sítio está dito que precisam de um subsídio. O que dizem é que para isto acontecer o que é preciso é que sejam criadas algumas condições, por exemplo a promoção de contratos com contrapartes que sejam empresas. Pense uma coisa: acha que eu chegava à Google, à Microsoft e à Amazon e dizia “quero fazer este parque eólico, mas preciso que isto seja subsidiado”? A Microsoft, a Amazon ou a Google dizem “não subsidio ninguém”. O sinal absolutamente crítico é que, sendo as renováveis competitivas, deve promover-se a cooperação entre o sector energético e o sector corporativo diretamente, tirando o Estado do meio do caminho.

O mercado de carbono tem sido eficaz no combate às alterações climáticas?
Ultimamente tem dado sinais que não são os melhores. Já houve uma evolução durante o ano 2015, em que o preço do CO2 já atingiu cerca de 8 euros por tonelada e já recuperou bastante dos níveis de 3 e 4 euros. O que aconteceu no mercado de carbono foi que os governos mantiveram a oferta de licenças de emissão, embora do lado da procura (as indústrias que emitem carbono) tenha havido uma redução da procura porque houve uma redução da atividade económica. Ultimamente a União Europeia criou uma forma de retirar do mercado algumas das licenças e fazer subir o preço. Ainda assim, há um consenso de que 8 euros por tonelada não é suficiente para justificar que indústrias mais poluidoras acabem por sair. Isso hoje em dia vê-se na utilização do carvão para a produção de eletricidade na Europa em geral, que prevalece sobre a utilização do gás. Com os preços do CO2 como estão continua a ser mais barato produzir com carvão do que com gás.

Pelos vistos não chega deixar o mercado funcionar.
O problema é o desenho do mercado. Por exemplo, quando um banco central entende que diminui a procura pela moeda, o banco começa a retirar alguma moeda do mercado. Deixa o mercado a funcionar, mas pode ajustar do lado da oferta.

"As decisões sobre o carvão devem ser de nível europeu. Se desligássemos duas centrais em Portugal o que aconteceria é que passaríamos a importar mais eletricidade de Espanha produzida com carvão"

"As decisões sobre o carvão devem ser de nível europeu. Se desligássemos duas centrais em Portugal o que aconteceria é que passaríamos a importar mais eletricidade de Espanha produzida com carvão"

Nuno Botelho

A ideia do backloading [adiamento por vários anos da entrega de licenças gratuitas de emissão à indústria europeia] é acertada mas a intensidade do esforço é que não é suficiente?
Exatamente. O conceito faz sentido: o mercado atua e define o preço; a União Europeia pode decidir ajustar a emissão de licenças em função da procura. O mercado deve funcionar para definir o preço, tem é de haver um ajuste do lado da oferta [de licenças]. Mesmo assim, os objetivos de descarbonização da economia têm sido alcançados. Não obstante termos um CO2 com preço baixo, houve uma grande penetração de renováveis, que tem feito que os objetivos tenham sido alcançados.

No caso da EDP cerca de dois terços da produção é de origem renovável mas uma parte importante ainda é a carvão. Faz sentido o grupo manter o carvão no seu perfil de produção sendo a EDP uma empresa que se tem afirmado como sendo uma referência de energias limpas e sustentabilidade?
É exatamente por ser uma empresa que olha para a sustentabilidade que o crescimento do grupo tem sido feito nas renováveis, seja nas eólicas, seja nas hídricas. As decisões sobre o carvão devem ser de nível europeu. Em Portugal há duas centrais a carvão, uma é da EDP, outra não. Se retirarmos estas duas centrais a carvão do mercado, não iremos ter um impacto significativo do ponto de vista da redução das emissões de CO2 no mercado europeu.

Mas cada país pode fazer o seu trabalho. No nosso caso não seria benéfico retirar essas centrais do mercado e pôr as centrais de ciclo combinado (a gás natural) a funcionar?
Uma das coisas que possivelmente aconteceriam se retirássemos as centrais a carvão do mercado é que passaríamos a importar mais eletricidade de Espanha produzida com carvão. As centrais a gás hoje em dia são mais caras e é por isso que não trabalham. Eu vivo num mercado ibérico. Se desligo duas centrais em Portugal e continuar a ter no mercado ibérico centrais a carvão em Espanha com um preço mais baixo do que produzir com gás em Portugal vou importar mais eletricidade produzida com carvão, mas em Espanha. Por isso não faz muito sentido pensarmos só a nível nacional.