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Expresso

Mês do Ambiente 2015

Almada, um exemplo na Cimeira do Clima

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Eventos extremos como
 a tempestade “Hércules”, que assolou a costa portuguesa em 2014, podem repetir-se com mais frequência no futuro

João Carlos Santos

Adaptação: trinta municípios estão a desenvolver projetos de adaptação às alterações climáticas. Almada é um dos mais avançados e foi selecionado para apresentar o seu na COP de Paris

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Lidar com a erosão costeira, proteger os espaços urbanos e naturais de inundações e de ondas de calor, recuperar linhas de água e promover a agricultura de proximidade são as frentes do projeto de adaptação às alterações climáticas que a Câmara Municipal de Almada vai apresentar na Cimeira do Clima, a 1 de dezembro. O projeto MultiAdapt é um dos 20 selecionados pela Organização das Nações Unidas (entre mais de uma centena de propostas de todo o mundo) que servirá como um exemplo a seguir cá e noutros cantos do planeta em termos de resiliência e acomodação ao que aí vem. “O que propusemos são planos simples e de elevada capacidade de replicação a nível mundial”, explica Catarina Freitas, diretora do departamento de Energia, Clima, Ambiente e Mobilidade da Câmara de Almada.

Uma equipa que juntou técnicos da autarquia e investigadores de várias universidades pegou em estudos que apontam para cenários extremos em que a precipitação média pode cair para metade, mas também chover copiosamente nos meses de dezembro a fevereiro; e em que as temperaturas médias podem subir 5 graus Celsius e os dias com os termómetros acima de 35 graus triplicarem (dos atuais 10 dias para 30) até ao fim do século, e começou a preparar a adaptação do concelho. “Os cenários de alterações climáticas foram integrados em todos os documentos e planos de ordenamento do território e outros planos municipais”, esclarece Catarina Freitas, para quem, “não podemos escudar-nos nas incertezas dos modelos para não fazermos nada”.

Entre as medidas já equacionadas em Almada constam a minimização das “ilhas de calor”, privilegiando a adoção de telhados brancos, para atenuar a temperatura nos edifícios, ou de coberturas verdes, para melhorar a infiltração das chuvas; mas também a criação de corredores verdes e de hortas urbanas no espaço público para minimizar cheias e garantir a recuperação da população em caso de uma calamidade.

Na frente costeira, as tempestades “Hércules” e “Tiffany” — que deixaram as praias da Costa da Caparica sem areia e um rasto de destruição, em 2014 — contribuíram para que outras intervenções fossem planeadas. Em março, o município avançou com a renaturalização do sistema dunar e a colocação de 100 mil plantas fixadoras de areia. “O projeto Reduna teve um investimento de 220 mil euros e efeitos muito mais positivos do que a alimentação artificial de areia feita pela Agência Portuguesa do Ambiente, que custou cinco milhões”, afirma Catarina Freitas. E, acrescenta: “É uma lição a reter”, quando dois terços da linha costeira do país enfrenta a ameaça de erosão devido à perda de sedimentos e à subida do nível do mar.

26 dão primeiros passos
“A Câmara de Almada e a de Cascais são das que mais medidas de adaptação às alterações climáticas têm implementado e mais estratégias têm transferido para os instrumentos de ordenamento do território”, atesta Gil Penha-Lopes, coordenador do projeto ClimaAdaPT.Local.
Liderado pelo centro de investigação CCIAM/CE3C da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, este projeto tem como objetivo desenvolver estratégias de adaptação em 26 municípios, a que se juntam como parceiros Almada, Cascais e Sintra. O ClimaAdaPT.Local conta com 1,5 milhões de euros, provenientes de um pacote de 3,5 milhões de euros do Programa AdaPT, gerido pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e financiado pelo EEA Grants (fundo proveniente da Islândia, Liechtenstein e Noruega (85%) e pelo Fundo Português de Carbono (15%).

“Cada município já identificou as suas vulnerabilidades atuais e futuras aos impactos climáticos, face aos cenários apresentados para 2050 e 2100, e identificou as opções para reduzir essas vulnerabilidades”, explica Gil Penha-Lopes. O passo seguinte é “avaliar e orientar a transposição destas opções para os respetivos instrumentos de gestão territorial”.
Entre as fragilidades detetadas encontram-se o aumento de riscos associados a inundações, incêndios florestais, erosão costeira, afetação de potencial turístico, ou o decréscimo do fluxo de água nos rios, com consequências para o abastecimento público ou para a irrigação agrícola.

Para fazer face a estas vulnerabilidades, há ainda outros cinco projetos sectoriais financiados pelo AdaPT, que deverão estar concluídos até abril de 2016. O GestAqua é um deles. Incide sobre a gestão das albufeiras de Monte Novo e Vigia, que abastecem de água o concelho de Évora e tem como parceiros a Universidade de Aveiro, a empresa Águas do Centro Alentejano e o instituto norueguês Vestlandsforsking. “O projeto ainda está no início, mas a ideia é prever a quantidade de água que estará disponível nas albufeiras consoante os diferentes cenários e definir como se vai gerir cada uma para fazer com que dure mais tempo em cenários de seca”, esclarece João Pedro Nunes, investigador da Universidade de Aveiro.

Castelo de Bode aguenta-se
Preocupada com as possíveis consequências das mudanças do clima no abastecimento de água a três milhões de portugueses, esteve também a EPAL. Mas, um estudo, desenvolvido entre 2010 e 2014, concluiu que “a albufeira de Castelo de Bode tem características naturais que lhe permitem aguentar”, garante Ana Luís, responsável pelo planeamento da EPAL.
Mesmo com uma redução de 14 a 18% da precipitação e com uma redução das afluências de água que pode chegar a 34%, o cenário mais negro aponta para que se verifique “no final do século o equivalente ao que aconteceu na seca vivida em Portugal em 2005”, acrescenta Ana Luís. Apesar “dos cenários confortáveis”, a empresa optou por equacionar desvios e desenvolver projetos para reutilização de água e abertura de novos furos, assim como desenvolver indicadores que sinalizam trimestralmente limiares de alerta.

A pouco e pouco vão surgindo novos projetos de adaptação em várias frentes. Um deles, desenvolvido na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, como conta o investigador Moutinho Pereira, descobriu que “a aplicação de uma argila esbranquiçada sobre as folhas da videira permite arrefecer as folhas e refletir a luz, tornando as vinhas do Douro mais resilientes a um clima cada vez mais quente e seco”.

TRÊS PERGUNTAS A:
Jorge Moreira da Silva, ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia

A Agência Europeia do Ambiente considerou, com base num inquérito divulgado há um ano, que Portugal é dos países que apresentam “vontade mediana” em desenvolver políticas de adaptação às alterações climáticas. Como comenta?
Pelo contrário, se há país que tem chamado a atenção pela resposta integrada que tem dado à mitigação e à adaptação às alterações climáticas é Portugal. A OCDE coloca-nos no top ten dos mais vulneráveis, com 60% da orla costeira em risco de erosão e ameaças aos recursos hídricos. Temos alocado significativos recursos financeiros a estas áreas. Em 2014 e 2015, Portugal investiu €300 milhões na proteção da orla costeira, um valor superior a todo o acumulados nos últimos 20 anos. E nos novos fundos Portugal 2020 demos prioridade financeira à adaptação nas áreas da água e da erosão costeira, para as quais serão disponibilizados mais €200 milhões. Para a prevenção de incêndios e de cheias estão previstos mais €400 milhões.

A Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas é suficientemente ambiciosa?
A estratégia de adaptação integra o Quadro Estratégico 2020 útil para definir o recurso a fundos europeus e está em linha de conta com a avaliação científica de que dispomos. Felizmente, em Portugal, governos, municípios e cidadãos têm consciência da necessidade de adaptação. Os temporais de invernos anteriores e as cheias e eventos extremos (como minitornados) cada vez mais frequentes contribuíram para essa consciência.

Está otimista face a um acordo na Conferência de Paris?
Estou otimista. Esta é a primeira COP onde não existem dúvidas quanto às bases científicas das alterações climáticas, nem de que o combate é gerível e custo-eficiente. Os relatórios produzidos nos últimos anos dizem-nos que o custo de nada fazermos é 20 vezes maior do que o de reduzirmos as emissões. O combate às alterações climáticas também gera crescimento económico e emprego. A economia verde está a crescer a um ritmo de 4% ao ano e representa já €4 biliões. Estou otimista porque há vontade política. Cerca de 150 países, responsáveis por 90% das emissões, apresentaram já as suas contribuições para reduzir as emissões. Não chegam para atingir a meta do aumento médio global máximo de dois graus Celsius, já que apontam para 2,7° C. Por isso é fundamental chegar a um acordo vinculativo e inclusivo que permita revisões quinquenais das metas para que os objetivos sejam atingidos.

Artigos originalmente publicados no Expresso de 21 de novembro de 2015