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Expresso

Mês do Ambiente 2015

Mais quente, mais seco, mas a abrandar

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Portugal: cinco dos dez verões mais quentes do país ocorreram no século XXI, mas a subida da temperatura está a desacelerar em todo o mundo, embora as emissões de CO2 continuem a crescer

O verão de 2015 em Portugal foi o quinto mais quente deste século e o nono desde 1931, quando começaram os registos regulares das temperaturas no país. A questão é que “desde 1931, cinco dos dez verões mais quentes ocorreram depois do ano 2000, sendo o de 2005 o mais quente em 85 anos”, destaca o último Boletim Climatológico Sazonal do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Fátima Espírito Santo, coordenadora da Divisão de Clima e Alterações Climáticas do IPMA, explica ao Expresso que “desde meados da década de 70 a temperatura média subiu cerca de 0,3 graus por década em Portugal” (ver gráfico). Mas, entretanto, ocorreram duas mudanças relevantes desde o início do século XXI. A primeira é que “a temperatura média está a subir mais por causa do aumento das temperaturas máximas do que das mínimas, quando antes era o contrário”, o que significa que é mais sentida pela generalidade das pessoas. A segunda corresponde a um fenómeno que não é apenas português mas global: “A temperatura média não está a acelerar tanto como antes.” Ou seja, há um abrandamento do aquecimento global e esta realidade foi reconhecida nos últimos relatórios do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU (IPCC).

Talvez por isso os cientistas, os dirigentes das grandes organizações internacionais e os líderes políticos tenham deixado de falar em “aquecimento global”, preferindo usar a expressão “alterações climáticas”, um conceito mais abrangente e consensual que caracteriza melhor a situação presente em que o clima está, de facto, a mudar. Como reconhece Fátima Espírito Santo, “é um conceito que tem a vantagem de caracterizar uma grande diversidade de situações”.

Aquecimento recua mas emissões continuam a crescer
Mas há um paradoxo que ninguém consegue explicar. É que as emissões de gases com efeito de estufa continuam a aumentar, apesar do abrandamento da subida das temperaturas da Terra, o que leva inevitavelmente a uma pergunta: afinal os dois fenómenos estão mesmo ligados?

“A questão climatológica tornou-se muitíssimo politizada”, constata João Corte-Real, o decano dos climatologistas portugueses, “e as grandes organizações internacionais como a ONU ou a Organização Meteorológica Mundial já definiram o que vai acontecer, o que é anticientífico”. A Cimeira de Paris organizada pela ONU (COP 21), que se realiza entre 30 de novembro e 11 de dezembro, e que pretende alcançar um novo tratado global que suceda ao Protocolo de Quioto, “é sobretudo política e o clima só aparece para fundamentar a afirmação de que o planeta está continuamente a aquecer, ou seja, que as temperaturas médias atuais são superiores às de décadas atrás”. Mas “a verdade é que o aquecimento não tem sido contínuo, porque nos últimos 15 a 17 anos houve uma pausa”.

O professor catedrático da Universidade de Évora e da Universidade Lusófona adianta que “a Cimeira de Paris vai ser provavelmente um êxito em termos políticos, porque ao perceberem os fracassos das cimeiras anteriores, os principais dirigentes mundiais entenderam-se entre si”.

Mas regressemos a Portugal. Depois do balanço das últimas décadas (ver gráficos), o que nos espera para os próximos anos? “Os cenários que definimos no âmbito do consórcio europeu EC — Earth, onde o nosso país participa, apontam para um Portugal mais quente e mais seco nas próximas décadas, com um aumento das temperaturas mais acentuado no sul e no interior, em comparação com o norte e o litoral”, assinala Fátima Espírito Santo. A climatologista do IPMA adianta que estes cenários preveem que a temperatura média aumente cerca de 0,5 a 1 grau até 2040 e cerca de dois a cinco graus até 2100, “variando dentro deste intervalo em função da região do país e do cenário considerado”.

Por outro lado, “haverá uma tendência para ocorrerem fenómenos extremos mais frequentes e mais intensos e para aumentar a vulnerabilidade do país a estes fenómenos”. Porquê? “Devido ao aumento da população e da sua concentração no litoral, à construção em zonas de cheia, à impermeabilização dos solos com a urbanização e ao desaparecimento de zonas húmidas devido à desflorestação”.

Antecipar catástrofes
João Corte-Real tem outra visão. “Não há nada de preocupante em Portugal e a ideia de que vamos ter o ano mais quente de sempre surge todos os anos”. Por outro lado, “com base em modelos climáticos projetam-se catástrofes, mas as projeções feitas no passado não estão em correspondência com a realidade a que hoje assistimos, o que significa que os modelos são uma ferramenta indispensável e útil, mas não podem ser encarados como realidade”. O professor catedrático da Universidade de Évora argumenta que “os responsáveis políticos pelas questões do clima em Portugal não são especialistas nesta área (climatologistas) e as suas afirmações tendem sempre a criar estados emocionais”.

O académico vai mais longe, a propósito da Cimeira da ONU em Paris. “A ideia política de que podemos controlar a temperatura não tem qualquer fundamento científico num sistema fortemente não linear (complexo) como é a atmosfera. Claro que se fosse um sistema linear isso seria possível”. Mas as alterações climáticas não existem? “Estamos sem dúvida a viver uma mudança do clima tal como o conhecíamos até agora, mas não julgo que a ação humana seja a principal responsável”, defende João Corte-Real.

Com efeito, em 2015 estamos num ano de El Niño, um fenómeno climático cíclico no oceano Pacífico “que provoca o aumento global da temperatura da Terra não só à superfície mas em toda a troposfera (a camada mais baixa da atmosfera, com cerca de 12 km de espessura), o que quer dizer que 2015 não é um ano típico para se estudar o clima do planeta”. O professor catedrático recorda ainda “que as alterações na circulação oceânica no passado mudaram o clima e podem neste momento estar também a contribuir para a mesma situação”.

Mais um grau em relação à era pré-industrial no final de 2015
Entretanto, o Met Office revelou esta semana que no final de 2015 o aquecimento da Terra deverá ultrapassar a meta simbólica de um grau em relação à era pré-industrial (antes de 1750), o que representa a entrada das alterações climáticas “em território desconhecido”. O instituto oficial de meteorologia e clima do Reino Unido acrescenta que 2015 “deverá ser o ano mais quente de sempre”, enquanto a Organização Meteorológica Mundial anunciou também esta semana que 2016 será o primeiro ano em que a concentração de dióxido carbono (CO2) na atmosfera ultrapassará em média 400 partes por milhão (400 cm3 de CO2 por 1.000.000 cm3 de ar), devido à queima continuada de combustíveis fósseis.

Em setembro, a NOAA, a agência americana para os oceanos e a atmosfera, já tinha revelado que os últimos dados recolhidos apontam “para que 2015 vá eclipsar 2014 como o ano mais quente de sempre desde que há registos, provavelmente por uma margem relativamente grande”.

TRÊS PERGUNTAS A:
Humberto Rosa, Diretor do departamento de Adaptação e Tecnologias de Baixo Carbono na Direção-Geral do Clima da Comissão Europeia

Que expectativas tem face à Cimeira do Clima de Paris (COP21), organizada pelas Nações Unidas, que começa a 30 de novembro?
Será uma negociação difícil, como tem sido em todas as COP. Mas esta tem um contexto mais positivo que as anteriores, porque quase todos os países (representando cerca de 90% das emissões globais) estão a fazer a sua contribuição voluntária, o que é muito diferente do que aconteceu com o protocolo de Quioto. Até agora, 158 países apresentaram medidas para reduzirem as emissões nacionais de gases de efeito de estufa...

Porém, a ONU admitiu que essas contribuições não são suficientes para impedir as temperaturas médias globais de subirem mais de dois graus Celsius (2°C) até 2100. Este tem sido o teto máximo admissível. Não o cumprindo, o que virá a ser equacionado?
Se somarmos todos os contributos desses países não chegaremos aos 2°C de aumento máximo das temperaturas médias globais, mas estamos ainda assim num cenário que não põe fora de alcance evoluir para 2°C. As contribuições nacionais conhecidas apontam para que as temperaturas médias rondem os 3°C pelo final do século, o que é abaixo das projeções mais alarmantes prévias à avaliação destas contribuições. Estes valores mostram que do acordo de Paris terá de sair um mecanismo de revisão periódica dessas contribuições para se poder chegar ao limite dos 2°C até 2100. Há países que podem e devem fazer mais. A União Europeia tem já das políticas climáticas mais avançadas do mundo, mas tem havido iniciativa de uma vasta maioria de países. Só que ainda não chega.

O Met Office britânico e a Organização Meteorológica Mundial anunciaram que 2015 será o ano que regista, pela primeira vez, 1°C de aquecimento médio global face às temperaturas da época pré-industrial e que se está na eminência de se atingir o valor de 400 partes por milhão de concentração de dióxido de carbono na atmosfera. O que estão os países a fazer para se adaptarem ao que aí vem?
Ainda que acabássemos amanhã com todas as emissões de gases de efeito de estufa, as alterações climáticas já estão em curso e levarão tempo a controlar. E precisamos de nos adaptar à realidade de que há mais fenómenos extremos e mais impactos climáticos. Vemos hoje ação adaptativa um pouco por toda a parte. Veja como uma vasta maioria dos Estados Membros da UE já tem hoje estratégias nacionais de adaptação.

Artigos originalmente publicados no Expresso de 14 de novembro